Portugal
Miguel Cardoso: Jogo apoiado e pressão do Rio Ave desafiam a lógica portuguesa
2017-08-28 18:45:00
O Rio Ave de Miguel Cardoso tem sido destaque em 2017/18 e não só pelos resultados: o futebol apresentado fala por si

Um futebol que dá gosto em ver jogar e que tem vindo a contrariar a ideia de que fora do top-5 do futebol português não existem equipas a praticar um estilo de jogo assente na saída com bola controlada e na pressão alta aquando da perda da mesma. Miguel Cardoso tem protagonizado no Rio Ave - naquela que é a época de estreia como treinador principal - uma autêntica redefinição no conceito do que é o futebol praticado em Portugal, assente em pilares que não se encontram com frequência em equipas com as aspirações dos vilacondenses.

São muitas as vozes em estádios portugueses que ecoam frases como “os clubes mais pequenos quando defrontam os grandes só jogam com pontapé para a frente” - a título de exemplificativo -, em alusão à estratégia de jogo direto. E é um facto que essa é mesmo a aposta de vários dos clubes portugueses quando se deparam com emblemas de maior dimensão no relvado. Mas, este Rio Ave não é assim. Os vilacondenses de Miguel Cardoso não recuam até à própria área e não primam somente pelo momento defensivo quando têm pela frente adversário de calibre de elite. A prova disso mesmo foi dada no passado sábado, quando o Estádio dos Arcos foi palco da receção ao Benfica.

Foi com uma estratégia de jogo apoiado e vincado no início do momento ofensivo com bola controlada, que o Rio Ave conseguiu superiorizar-se ao Benfica, assentando no encurtar das linhas/setores e na pressão alta ao portador da bola adversário. Estes foram os pilares com os quais Miguel Cardoso surpreendeu o futebol português, pois raramente se vê uma equipa da Liga a jogar com um dos três grandes tão descomplexada nas quatro linhas, a jogar de igual para igual, fazendo lembrar aquilo que acontece na Liga Inglesa, onde os clubes de meio da tabela não se ‘estacionam o autocarro’ perante os do topo.  

Será então Miguel Cardoso um visionário? Não é tempo para o dizer, até porque num passado recente já o Rio Ave habituou o público português a um futebol de qualidade, com Nuno Espírito Santo, Pedro Martins e, na época passada, Luís Castro como timoneiro. Ainda assim, igualar o melhor registo em termos de arranque de campeonato à quarta jornada não passa despercebido. Com 10 pontos nesta edição da Liga, caso Miguel Cardoso consiga pontuar na Madeira, frente ao Marítimo, na quinta ronda, será protagonista do melhor início de campeonato da equipa de Vila do Conde, contando os cinco primeiros compromissos do principal escalão português.

Miguel Cardoso e o futebol de criativos defendido por dois guarda-costas a meio-campo

De onde assenta então este futebol positivo incutido por Miguel Cardoso em Vila do Conde? Grande parte do sucesso do timoneiro de 45 anos passa pela idealização de um esquema que engloba a presença de mais que um jogador com capacidade criativa no meio-campo ofensivo. O novo treinador do Rio Ave conseguiu a façanha de juntar Francisco Geraldes a Rúben Ribeiro no onze inicial e os resultados têm estado à vista de todos. Futebol ao primeiro toque, com toques de brilhantismo aqui e ali e o pautar do ritmo dos jogos nos pés de dois jogadores que se destacam entre os demais, assim como Óscar Barreto. A utilização destes três jogadores ao mesmo tempo também leva a que, contrariamente ao que se verifica nos três grandes, o futebol do Rio Ave passe maioritariamente pela exploração da zona central do terreno e não tanto das alas.

Porém, todo o criativo dentro das quatro linhas necessita de um guarda-costas que proteja as investidas ofensivas da equipa. Assim acontece no Rio Ave de Miguel Cardoso. O treinador dos vilacondenses tem em Pelé e Tarantini os ‘seguranças’ que ‘trancam’ o setor centrocampista das investidas ofensivas levadas a cabo pelos homens da frente de ataque. Precisamente, é no jogador mais avançado no terreno, Guedes, que Miguel Cardoso tem o primeiro foco de pressão ao adversário, sendo o atacante um jogador que prima pelo trabalho defensivo.

Outra das particularidades da estratégia de Miguel Cardoso assenta nos laterais e vai ao encontro daquilo que se encontra no futebol moderno. Seja Bruno Teles, Yuri Ribeiro, Lionn ou Nadjack, o Rio Ave tem nos corredores jogadores com verticalidade, que gostam de subir no terreno, fruto também das diagonais para o centro levadas a cabo pelos criativos do meio-campo ofensivo.

Miguel Cardoso começou como professor de educação física, mas foi num estágio no FC Porto que deu os primeiros passos no mundo que é o futebol. Bebeu do conhecimento da estrutura técnica azul e branca, até que se profissionalizou naquilo que o levou ao cargo de treinador principal hoje em dia. Depois de adquirir experiência enquanto adjunto em clubes como Académica, SC Braga, Sporting, Deportivo Corunha e Shakhtar Donetsk, chegou agora o momento de Miguel Cardoso se mostrar à elite do futebol português.

O começo da experiência está a revelar-se proveitoso para o técnico, que já quando era adjunto incutia algumas das principais ideias das equipas pelas quais passou. Três vitórias e um empate em quatro compromissos oficiais é o saldo que o “Spalletti de Vila do Conde”, assim conhecido nos dias que correm, tem para apresentar até ao momento. Mas, olhando além dos resultados, há um dado a destacar: Miguel Cardoso tem vindo a ser percursor, nesta temporada, de um estilo de jogo que redefine a essência do futebol praticado em Portugal pelas equipas com dimensão mais contida, quando comparadas com os crónicos três grandes no principal escalão do futebol português.

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