Portugal
Longe vão os tempos a assentar tijolo. Hoje, Walterson é um terror na II Liga
2018-11-14 14:10:00
A cumprir a primeira temporada na Europa, Walterson pegou de estaca no FC Famalicão e não pára de fazer golos.

Tal qual Carlos Vinícius, para Walterson Silva, em Portugal e na segunda liga portuguesa foi chegar, ver e vencer. Naquela que é a primeira experiência europeia do avançado brasileiro de 23 anos, Walterson mostrou que tempo de adaptação não é para ele. Em oito jogos já disputados pelo FC Famalicão na segunda liga portuguesa, Walterson Silva leva seis golos marcados e é lider na lista de melhores marcadores da competição. Cada vez mais longe estão os tempos em que teve de assentar tijolo para ajudar a família.

"O meu pai era pedreiro e eu ajudava-o como servente a fazer casas e prédios. É um serviço difícil demais, precisas ser muito forte. Pegar cimento, areia, tijolo não é fácil. Eu comecei numa escolinha na minha cidade e fiz testes em clubes como o Cruzeiro, América Mineiro, Atlético Mineiro e Atlético Paranaense, mas não deu certo porque era muito novo", contou Walterson Silva à ESPN Brasil em 2017, altura que procurava ainda ganhar o seu espaço no Figueirense depois de uma passagem falhada pelo Santos onde, curiosamente, até defrontou o Benfica.

Aconteceu em outubro de 2016 quando o Benfica se deslocou ao Vila Belmiro, mítico estádio do Peixe, em função do jogo comemorativo dos 100 anos do estádio em que Pelé se tornou lenda, jogo aproveitado ainda para fazer a despedida de Léo, antigo lateral esquerdo do Benfica e do Santos que até jogou por ambas as equipas naquela noite. Walterson foi um dos 30 jogadores utilizados por Dorival Júnior numa partida que terminou empatada a um golo e em que Ederson ficou mal na fotografia no golo de Fabián Noguera, já depois de José Gomes ter desperdiçado uma grande penalidade que teria dado o 2-0 ao Benfica.

Até chegar até aqui, Walterson Silva teve muito que penar. Só aos 16 anos, o hoje avançado do Famalicão chegou a um clube minimamente grande quando ingressou no São Bernardo quando observadores do clube o viram jogar pelo clube da terra, e sem que Walterson precisasse sequer fazer testes no emblema paulista. “Sair de casa no início foi bem complicado em termos de adaptação porque fui sozinho e não conhecia quem quer que fosse. Mas logo na primeira semana fui muito bem recebido pelo pessoal do clube e pela cidade também. Acabei fazendo amizades muito boas e mostrei o meu futebol”, recorda o avançado.

Após boas indicações deixadas ao serviço das equipas mais jovens do São Bernardo, foi em 2014 que Walterson chegou à equipa principal do “Tigre”, jogando em ambas as mãos da 1ª fase da Copa do Brasil entre São Bernardo e Paraná Clube - emblema que hoje disputa a primeira divisão do Brasileirão. Se na primeira mão Walterson ajudou em 28 minutos a equipa do São Bernardo a empatar o adversário a um golo, na segunda, Walterson jogou 20 minutos na derrota por 3-1 em casa do emblema de Curitiba.

Ainda à procura de experiência, e sem espaço na equipa principal do São Bernardo, Walterson acabou emprestado ao Guarani de Minas Gerais para o Campeonato Mineiro de 2015, participando em sete dos onze jogos da equipa na competição. "Era um campeonato difícil e foi muito bom para minha carreira. Lá eu joguei com o Fábio Júnior, que é um tipo sensacional e me ajudou bastante". Uma experiência que permitiu que Walterson, em 2016, já jogasse o campeonato paulista pelo São Bernardo, ajudando o clube a chegar aos quartos de final da competição, e tivesse mesmo convencido o Santos a dar-lhe uma oportunidade na Vila Belmiro, quem sabe, com vista à substituição de Gabigol que saíra para o Inter Milão.

“Joguei a maioria dos jogos como titular. Várias equipas da Série B do Campeonato Brasileiro vieram atrás de mim e também o Santos B. Optei pelo Santos por causa do projeto que nos ofereceram e a oportunidade de jogar pela equipa principal do clube”. No Santos, Walterson acabou por não ser feliz, regressando ao São Bernardo no ano seguinte, clube que o emprestou a Atlético Goianense, Figueirense, Santo André e São Bento nos meses e temporadas que se seguiram. Clubes instáveis e cujo contexto não favoreceu o avançado hoje ao serviço do Famalicão que nunca esqueceu o sonho de voltar a jogar a primeira divisão do futebol brasileiro como o fez em escassos minutos ao serviço do Santos.

"Estava bem adaptado ao clube, aos jogadores e à cidade. Era fantástico. Ficou um gostinho de quero mais. Consegui fazer um bom trabalho e agradei ao Dorival, que me ajudou muito com conselhos também. Infelizmente não deu para ficar”, recorda o jogador que a ESPN definiu como um driblador, um jogador veloz e de grande presença física. Características que têm permitido ao avançado de 23 anos fazer mossa na segunda liga portuguesa ao ponto de ao fim de nove jornadas decorridas - Walterson participou em oito delas - o avançado natural de São Gotardo ser o melhor marcador da competição.

As comparações com Carlos Vinícius são inevitáveis. Por esta altura, também a cumprir a primeira experiência na Europa depois de uma passagem algo anónima pelo futebol brasileiro - e Walterson até chega bem mais experiente a Portugal -, na temporada passada, Vinícius levava oito golos marcados pelo Real SC na segunda liga portuguesa que concluiu com 19 golos e como o segundo melhor marcador da competição. Números que lhe valeram uma transferência para o SSC Nápoles e consequente empréstimo ao Rio Ave onde, esta época, leva já oito golos em nove jogos.

Uma ascensão impressionante e na qual Walterson certamente se poderá inspirar. Aos 23 anos, o caminho é ainda longo para o avançado do FC Famalicão e finalmente num contexto estável e altamente promissor, num dos clubes que maior futuro do futebol português, Walterson vai confirmando todo o potencial que o dia lhe permitiu pisar o mesmo relvado, sob as mesmas cores, do Rei Pelé. Longe vão os tempos a assentar tijolo, Walterson.