Portugal
Jogar com um a mais é melhor? Nem sempre...
Diogo Cardoso Oliveira
2017-12-06 21:00:00
Dados mostram que as equipas sabem ser eficazes quando estão com apenas dez jogadores.

11>10. Por isso, jogar com 11 é sempre melhor do que jogar com 10. Certo? Errado. Quase 400 expulsões depois, o Bancada chegou à conclusão que grande parte das situações de superioridade numérica não são aproveitadas pelas equipas, na Liga Portuguesa. Na última jornada, o FC Porto não aproveitou 12 minutos de superioridade numérica, frente ao Benfica. Será que é habitual?

Analisando as últimas três temporadas – às quais adicionámos as jornadas já disputadas em 2017/18 –, e cerca de 400 expulsões depois, pode dizer-se que apenas cerca de 20% é que se traduzem em mudanças no resultado final do jogo. Por outro lado, em quase 40% dos casos, a expulsão não altera nada: não traz mudança no desfecho do jogo e nem sequer traz mais golos nesse jogo. 

Vamos aos números para, depois, irmos aos casos concretos e às explicações.

Como vemos, há uma maioria clara de jogos em que as expulsões de jogadores não se traduziram em vantagens para a equipa que ficava em superioridade numérica. Esperava que as equipas, em 11 contra 10, tivessem vantagem? É compreensível, mas os números não mentem.

No plano concreto, há casos para todos os gostos. Nesta temporada, há dois exemplos claros – e muito falados – de ambos os cenários. Primeiro, à jornada 5. O Benfica recebeu o Portimonense e estava a perder até aos 60 minutos. Com a expulsão de Hackman, do lado dos algarvios, vieram dois golos encarnados, aos 61 e 78 minutos. Neste caso, a expulsão de um adversário tornou-se proveitosa para o Benfica, sendo um exemplo que encaixa nos tais 22%.

Um dos casos que suporta os já referidos 39% passou-se já nesta temporada. No último fim-de-semana, Zivkovic, do Benfica, foi expulso aos 83 minutos, no Estádio do Dragão, frente ao FC Porto. Não só os dragões não conseguiram marcar como até permitiram algumas saídas perigosas aos encarnados, que estavam a jogar com menos um elemento.

A título de curiosidade, podemos já ver, a poucos jogos do meio do campeonato, quantos minutos cada um dos três grandes jogou em superioridade numérica.

Em Vila das Aves, o FC Porto acabou por sentir na pele a desvantagem de ter menos um jogador e deixou lá dois pontos, depois de sofrer o golo após a expulsão de Corona.

Ter menos um e ganhar o jogo na mesma

É raro, sim, mas já aconteceu algumas vezes. Nas últimas três temporadas, apenas 3% dos jogos com expulsões deram vitória da equipa que ficou em inferioridade. Passou-se, por exemplo, em Arouca, na época 2015/16. O Sporting venceu com um golo de Slimani, aos 90 minutos, numa fase em que Naldo tinha sido expulso, minutos antes. O mesmo ia acontecendo à jornada 18, com o CD Tondela. Com Patrício expulso aos 29 minutos e os beirões a ganhar 1-0, Slimani e Gelson ainda deram a volta para os leões, mas Salva Chamorro, já perto do final, “sacou” um ponto ao Sporting, em Alvalade.

Já na reta final do campeonato, o Benfica venceu o Marítimo, por 2-0, nos Barreiros, marcando depois de Renato Sanches ter sido expulso.

No Vitória de Guimarães-Nacional, em 2016/17. Marega foi expulso, aos 25 minutos, e, já depois de Hamzaoui ter adiantado o Nacional, foi outro atual jogador do FC Porto a fazer a surpresa: Soares bisou (75’ e 90’) e deu o triunfo a um Vitória a jogar com dez jogadores.

Outro caso curioso foi o duelo entre vitórias, em 2015/16. Os sadinos ficaram sem Fábio Pacheco, logo aos dois minutos. Com o Vitória de Guimarães a vencer 1-0 e em superioridade numérica, Arnold bisou e deu a volta para o Vitória de Setúbal. Não fosse o autogolo de Rúben Semedo, aos 88 minutos, e os sadinos teriam mesmo dado a volta ao marcador com menos um jogador.

De onde podem vir estes números?

- “Tudo à defesa!”

Estar em inferioridade numérica leva a equipa a baixar linhas, juntar mais os jogadores e, sobretudo, defender com mais gente perto ou até dentro da área. Tudo isto dificulta a missão de quem lá quer entrar que, muitas vezes, acaba por ter de recorrer à meia distância.

- Mais operários

Quem tem menos um jogador acaba, muitas vezes, por fazer entrar jogadores mais fortes defensivamente, abdicando dos criativos – jogadores menos agressivos e menos aptos nas missões defensivas. A maior qualidade defensiva individual acaba por dificultar a vida de quem quer atacar. Na prática, esta inferioridade numérica será mais notada apenas no processo ofensivo, dado que, a defender, estarão, no mínimo, os mesmos jogadores que já lá estavam.

- “Pressão, o que me fazes...”

Estar em superioridade numérica é um fator de maior pressão psicológica. A equipa sente que tem obrigação de chegar ao golo, por ter mais um jogador, e essa pressa(o) acaba por influenciar negativamente o discernimento na criação de jogo ofensivo. 

- “Calma, que havemos de marcar”

O outro lado da questão psicológica. Em superioridade numérica, pode ser natural algum relaxamento da equipa, por sentir que, mais tarde ou mais cedo, o golo surgirá. O “deixa correr o marfim”, se seguido durante demasiados minutos, pode ser fatal.

- São menos, mas parecem mais

As expulsões podem ajudar a aumentar os níveis de agressividade e motivação da equipa que ficou reduzida. A revolta pela expulsão acaba por unir a equipa – motivada para contrariar uma eventual injustiça –, tornando-a mais agressiva nos duelos e mais concentrada nas marcações.

- “Lesões”, truques e manhas

Antijogo. Ficando reduzidas a 10 jogadores, as equipas acabam, inevitavelmente, por apostar muito no antijogo, queimando tempo e, essencialmente, tirando ritmo, sequência e fluidez ao jogo ofensivo adversário.

As possibilidades são muitas, mas uma coisa é clara: as equipas não costumam aproveitar as superioridades numéricas.

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