Portugal
João Vasco: golos a granel entre as refeições lentas e os penteados cuidados
2018-12-10 16:00:00
Pepa já deverá estar a “salivar”, até pelos modestos três golos do ponta-de-lança Tomané.

João Vasco. Este nome soa-lhe a craque? Talvez não. Apesar de o nome não ser sonante, os pés deste rapaz são. Se descontarmos a inacreditável temporada de Gonçalo Gregório (19 golos em 13 jogos) – já lhe falámos deste avançado do Casa Pia –, João Vasco, do Benfica de Castelo Branco, é o melhor marcador do Campeonato de Portugal, com dez golos em 15 jogos. Pertence ao CD Tondela e Pepa já deverá estar a “salivar”, até pelos modestos três golos do ponta-de-lança Tomané.

Quisemos saber mais sobre este jogador de 23 anos. A propósito: este rapaz, coitado, faz anos a 26 de dezembro: será que só tem direito a um presente?

Fomos falar com Mauro Leal, Diogo Rola e Fábio Morais, todos ex-colegas de equipa de João Vasco. Temos histórias com estudos, sopas, sobremesas, penteados demorados e sotaques minhotos. E começamos já por aqui, antes de irmos à bola.

João Vasco é natural de Darque, pequena freguesia perto da margem do Lima, em Viana do Castelo. Mauro Leal, atual jogador do Mortágua, conta, ao Bancada, que João Vasco traz as suas raízes minhotas em momentos de maior stress. “Quando fica nervoso, ele carrega no sotaque vianense”, recorda.

Joga para ti, rapaz!

Com ou sem sotaque, quem é, afinal, o avançado João Vasco? Mauro Leal fala-nos de um jogador que evoluiu bastante. “Quando veio para Mortágua, o João era um jogador muito diferente de agora: forte física e tecnicamente, mas jogava pouco para a equipa. Felizmente, isso é uma característica que o define: procura sempre evoluir e ouvir os conselhos do treinador e colegas. Hoje, é um jogador combativo, que faz jogar a equipa. Um lutador com garra e atitude, a juntar à técnica que já tinha”, explica, acrescentando: “A baixa estatura [1,80m] pode ser vista como um defeito para alguns, mas, para mim, não. Assim, faz dele rápido e esquivo. Mesmo baixo, é forte no jogo aéreo”.

Créditos: Youtube/Jordao Cardoso

Diogo Rola, atualmente a jogar no Pampilhosa, também fala da capacidade de trabalho e do empenho, quer nos treinos quer em jogo, mas destaca a força física e o remate fácil. “Ele é muito forte fisicamente e remata bem com ambos os pés”, detalha, apesar de, ao contrário de Mauro Leal, ainda ver margem de evolução no jogo aéreo: “Talvez identifique nele apenas o jogo aéreo como algo que precise de melhorar um pouco, para se tornar ainda mais completo”.

Mauro Leal disse-nos que João Vasco aprendeu a jogar para a equipa, mas, segundo Fábio Morais, outro ex-colega, essa aprendizagem foi levada demasiado longe. “Como defeito, destaco que o Vasco trabalha imenso para a equipa e, por vezes, se fosse um pouco mais individualista, acabaria por fazer mais golos e, a meu ver, acabaria por sair mais valorizado a nível individual”.

Pausa para mais uma historinha. João Vasco é um rapaz que leva, para os jogos, um cabelo comprido apanhado com rabo de cavalo. Mas aquilo tem ciência, não é para fazer à toa. Não é assim?

“No fim dos treinos, deslocávamo-nos para Mortágua de carrinha e tínhamos de estar sempre à espera dele. Era sempre o último a sair do balneário. Aquele cabelo dava muito trabalho”, lembra Mauro Leal, ao Bancada. E não é o único.

“É impensável pensar nele sem me lembrar do tempo que ele demorava a sair do balneário por causa dos cuidados que ele tem com o cabelo. Era sempre o último. Tínhamos de estar sempre a pressioná-lo para se despachar”, conta também Diogo Rola.

“Já estávamos no café e ele ia na sopa”

A nível pessoal, João Vasco é-nos definido como “uma joia de moço”. “Eu costumava dizer que o Vasco era o filho que qualquer pai gostaria de ter, por ser educado, responsável, lutador e, principalmente, um belo companheiro e amigo”, elogia Fábio Morais, numa visão assinada por Mauro Leal: “É um rapaz muito humilde e educado. Apesar de jogarmos em clubes de distritos diferentes, vamos sempre mantendo o contato, é um bom amigo e um ótimo conselheiro”.

João Vasco não é apenas jogador de futebol. Tirou um mestrado em "treino desportivo para crianças e jovens", com 19 valores na tese final. Diogo Rola fala-nos disso. “Conheço bastante bem o João, pois privei com ele no futebol, na faculdade e fora desses dois contextos. É uma pessoa com enormes valores, como há poucas nos dias que correm. Defino-o como uma pessoa simples, humilde, prestável e muito bem instruída. É um grande miúdo e, certamente, um amigo para a vida”.

A terminar, a tal história da sopa e das refeições lentas. João Vasco pode ser rápido a arranjar situações de remate, rápido a explorar a profundidade, rápido a “morder” os adversários e rápido a atacar o primeiro poste. Pode ser rápido em tudo isto, mas, para comerem com ele, é melhor reservarem tempo.

“Quando íamos almoçar, antes dos jogos, não podíamos falar com ele, porque ele come muito devagar e distrai-se na conversa. Por vezes já estávamos prontos para beber café e, quando olhávamos, ele estava apenas a acabar de comer a sopa”, recorda Mauro Leal. Mais uma vez, não é o único.

“Quando penso nele lembro-me sempre do tempo que tínhamos de esperar por ele nos almoços em dia de jogo. Era sempre o último a terminar a refeição. Nós brincámos com a situação a dizer-lhe que ia começar as refeições primeiro do que todos, para conseguir acabar ao mesmo tempo que os restantes”.

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