Portugal
João Novais fez de Mulher do Médico e conduziu Rio Ave à lucidez dos três pontos
João Vasco Nunes
2017-12-08 23:20:00
Médio entrou de forma esclarecida no jogo e mostrou aos colegas como se transforma em golos uma exibição dominadora

Foi preciso suar muito para transformar todo o domínio em golos. Foi necessário sofrer ainda mais para alcançar o triunfo. Mas o prémio do Rio Ave chegou em cima dos 90 minutos e com toda a justiça, depois de um jogo em que encostou o Moreirense às cordas de início ao fim e em que chegou a estar a perder. O Rio Ave nunca desistiu das ideias base do técnico Miguel Cardoso e viu o “suplente” João Novais libertar a equipa da “prisão” da finalização, transformando com lucidez e clarividência uma exibição dominadora naquilo que [num presente a curto prazo e para visões mais limitadas] interessa: os três pontos.

Assim que o árbitro apitou para o início do jogo o Rio Ave assumiu a posse de bola e o domínio territorial do encontro. Pelé, Geraldes e Rúben Ribeiro assumiram a “casa das máquinas” e tentaram conduzir a equipa a porto seguro. Após vários lances de perigo, aos 21’, Guedes teve a primeira clara oportunidade de golo nos pés, mas acertou no poste. Aos 43’, o avançado voltou a ter nova ocasião, de cabeça, mas a eficácia não estava lá. Isto na resposta a um contra-ataque venenoso do Moreirense, que tinha ficado perto do golo, primeiro por Neto e, depois, por Peña, na recarga, naquele que foi o único ataque digno de registo dos visitantes no primeiro tempo.

Com Pelé a “fazer de Busquets”, vindo iniciar o processo de construção entre os centrais, abertos, tendo depois mais liberdade no capítulo do passe, o Rio Ave produziu uma bela exibição nos primeiros 45 minutos, sobretudo nos dois primeiros terços do terreno. É uma delícia ver a forma como o meio-campo mexe na bola e constrói, mas depois fica a faltar mais acutilância na frente de ataque, onde um esforçado Guedes faz o que pode. E todos sabemos que “esforçado” não é o melhor dos adjetivos na linguagem futebolística. Apesar da exibição conseguida, o nulo mantinha-se e Miguel Cardoso não estava satisfeito. Barreto e Leandrinho não estavam já a encontrar o caminho e nem uma hora estiveram em campo. Ao intervalo entrou Nuno Santos. Seguiu-se João Novais, sete minutos depois do reatar do encontro.

No entanto, apesar da forma positiva como joga, o balanceamento ofensivo – laterais a subir muito, Pelé como médio mais recuado… - acaba por abrir alguns espaços na defesa vila-condense. Isso ficou provado aos 55’, quando Peña aproveitou uma falha de Lionn para inaugurar o marcador. O Moreirense, a precisar de pontos para largar os últimos lugares, não podia desejar cenário melhor, depois de largos minutos a tentar defender de forma competente e a sair para o ataque apenas pela certa. Terminados os festejos, o Rio Ave voltou à carga e viu-se mais do mesmo. A equipa de Miguel Cardoso produzia praticamente um ataque perigoso a cada jogada, a cada minuto. Terminou o jogo com 15 remates e mais de 70 por cento de posse de bola, mas nem sempre conseguiu descortinar o melhor caminho para o sucesso.

Foi necessário recorrer a uma receita bem simples e menos elaborada que as anteriores: rematar, mas de preferência com pontaria. Rúben Ribeiro ia mostrando laivos de lucidez e criou a jogada do empate sem tocar na bola. A ação do médio criativo deixou Yuri Ribeiro solto na esquerda, este cruzou para Guedes, que, no interior da área, recebeu e assistiu para o remate de triunfal de Novais, aos 73’. O Rio Ave nunca desistiu, continuou a pressionar e Rúben Ribeiro, de mão dada com Novais, ia criando jogadas de perigo, atrás de jogadas de perigo. Foi através de uma delas, depois de um trabalho individual de Rúben, que a equipa da casa ganhou um livre perigoso. Novais abriu bem os olhos e viu o ângulo da baliza de Jhonatan, colocando lá a bola de forma exímia. Se o guião parecia estar escrito para Geraldes - ou até para Rúben Ribeiro -, acabou por ser o mais prático e menos excêntrico a terminar como personagem principal desta história. Tal como a Mulher do Médico fez perante a cegueira geral, no Ensaio de Saramago.  

Os festejos efusivos de Miguel Cardoso após o apito final demonstraram bem o quão saboroso foi o triunfo. Mas este não foi só o triunfo do Rio Ave, foi, acima de tudo, o triunfo do futebol e do sistema dos vila-condenses, provando que, com um meio-campo com esta qualidade e uma construção de jogo afinada, não é preciso pontapé para a frente para chegar à lucidez. Pode não ser o comportamento mais eficaz em termos pontuais, mas é aquele que faz evoluir as equipas e que transporta os estrategas para outros patamares. Hoje ganhou o futebol e o Rio Ave. Hoje festejou Miguel Cardoso. E até os adeptos do Rio Ave.

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