Portugal
Brahimi chegou "e deu a volta aquilo tudo" com "elásticos" e rabos no chão
2018-10-16 15:10:00
O Bancada esteve à conversa com quem se cruzou com Brahimi nos primeiros tempos de profissional do argelino

“Um dia, no treino, fez-me bater com o rabo no chão. Fez-me um “elástico”, colou a bola ao pé e partiu-me os rins. Nunca ninguém me tinha feito aquilo.” Foi desta forma que Steven Pinto recordou, ao Bancada, um dos primeiros momentos vividos como colega de Yacine Brahimi nos tempos em que partilhavam o balneário do Clermont FA, na altura, do segundo escalão do futebol francês. “Ele não falava muito, mas ria-se pela calada e a nossa tarefa era passar-lhe a bola”, lembrou o antigo internacional português pelas seleções jovens numa altura em que se fala de um fim anunciado da história de Brahimi com o FC Porto.

A história que hoje contamos envia-nos para Clermont-Ferrand, uma pequena região bem no centro de França, e para os dias em que Yacine Brahimi dava os primeiros pontapés na bola como jogador profissional. “Ele juntou-se à equipa já numa fase adiantada da pré-temporada, foi já no fim do fecho de mercado, mas assim que chegou deu a volta aquilo tudo. Quando ele chegou nós estávamos no meio da tabela e acabámos a temporada a jogar o jogo decisivo para subir de para a primeira divisão”, revelou Steven Pinto.

 

De pouca fala, mas de gargalhada fácil

Quisemos saber se a irreverência, demonstrada por Brahimi dentro de campo, é um traço de personalidade do atacante argelino e ficámos a perceber que nem por isso. Steven Pinto lembrou “o menino pequenino e franzino” que “falava muito pouco” mas que “de vez em quando lá se ria das piadas dos outros”. Aliás, Steven Pinto afirmou, ao Bancada, já se ter cruzado com vários jogadores que chegaram ao topo, e recorda traços de humildade, em Brahimi, pouco vistos em jogadores com as suas características.

“Não fala muito, mas gosta de rir. Era muito bom miúdo. Eu dava-me muito bem com ele. Porque por vezes tens aqueles colegas que por serem talentosos pensam que não têm de respeitar os outros e recusam-se a ouvir os mais velhos. O Brahimi não era nada assim, pelo contrário. Ele sabia da importância dele, mas foi sempre muito humilde e, principalmente, era um miúdo muito respeitador. Nunca se armou em vedeta. Pode até já ter mudado, não sei, mas quando o conheci era um miúdo cinco estrelas.”

Steven Pinto - o segundo de cima a partir da esquerda - com as cores da Seleção Nacional

Metam a bola no Brahimi

“Um dia, no treino, fez-me bater com o rabo no chão. Fez-me um “elástico”, colou a bola ao pé e partiu-me os rins. Nunca ninguém me tinha feito aquilo.”

Na equipa do Clermont despontavam jogadores do calibre de Mehdi Benatia e Mustapha Yatabaré, mas quem dava cor ao sonho do clube chegar ao primeiro escalão do futebol francês era o jovem Yacine Brahimi, então com 20 anos de idade e acabado de chegar do Stade Rennes. Steven Pinto, que fez parte da seleção portuguesa sub-20 que disputou o Torneio de Toulon de 2007, não esquece a importância que tinha o atual jogador do FC Porto.

“E lembro-me perfeitamente que, no ano em que jogámos juntos, o Clermont só chegou aos lugares de subida porque ele se juntou a nós. É verdade que tínhamos boa equipa e que o mérito não foi só dele, mas o Brahimi foi o jogador que nos deu aquele extra que só os grandes jogadores podem dar. Tivesse ele chegado logo nos primeiros jogos e teríamos subido de certeza.”

 

Tempos complicados

Os primeiros dois anos de Brahimi, no FC Porto, não foram, de todo, fáceis para o argelino. Os azuis e brancos atravessavam uma seca de títulos e as bancadas do Estádio do Dragão usavam de uma paciência estreita e Brahimi foi um dos jogadores mais visados pela exigente plateia. Para Steven Pinto, um homem habituado às vicissitudes dos resultados, o contexto era pouco favorável a Brahimi, um jogador que tenta resolver individualmente, os problemas que a equipa não consegue resolver coletivamente.

“Os primeiros tempos dele no FC Porto não foram fáceis porque a equipa não funcionava como um conjunto e do Brahimi era esperado que resolvesse, com jogadas individuais, o que a equipa não conseguia de forma coletiva. Como tal era natural ele ser um dos jogadores que perdia mais bolas porque também era dos poucos que tinha a capacidade de resolver jogos sozinho.”

 

O que tem a melhorar

Steven Pinto recordou ainda um traço da personalidade de Brahimi que impressionava já nos tempos de Clermont: “O aspeto que o distingue dos demais jogadores é o facto de ele saber que consegue fintar qualquer jogador, lembro-me muito bem desse traço de personalidade dele dos tempos em que treinávamos juntos”, revelou o atual jogador do Union St. Gilloise da Bélgica. No entanto, havia algo no jogo de Brahimi que tinha de ser melhorado, de acordo com Steven Pinto.

“Falta-lhe ser mais decisivo. O único aspeto em que ele pode melhorar é ser mais acutilante na hora de fazer golos. Tem de marcar mais golos e fazer mais assistências para golo”, sublinhou o médio que partilhou o balneário com Yacine Brahimi na temporada 2009/10.

O futuro de Yacine Brahimi continua incerto. O contrato que liga o atacante argelino ao FC Porto termina no fim da presente temporada e as negociações com os dragões prosseguem, mas há tubarões europeus de olho na situação de Brahimi e Steven Pinto não tem dúvidas: “O Brahimi tem qualidade para jogar em qualquer equipa do Mundo”. Algo que pode e deve preocupar os adeptos portistas.