Portugal
Belenenses e Sporting testaram o gato de Schrödinger
Diogo Cardoso Oliveira
2018-04-15 23:10:00
Bruno Fernandes espalhou classe.

O Sporting venceu o Belenenses, por 4-3, num jogo que chegou a parecer controlado, mas que ainda trouxe muita coisa. Muita mesmo. Foram cambalhotas atrás de cambalhotas. E polémica atrás de polémica, com três penáltis assinalados, dois deles com ajuda do VAR. É raro, mas uma equipa que sofreu três golos conseguiu ganhar o jogo, mostrando eficácia, muito coração e, em alguns momentos, muita classe.

Um dia, o físico Schrödinger sugeriu fechar um gato numa caixa opaca, com veneno ativado pela vibração. Ou seja, se abríssemos a caixa para ver se o gato estava vivo, ele morreria com o veneno. Definiu o estado deste gato como morto-vivo. Nem morto nem vivo. Foi como esteve este jogo. Parecia morto, quando o Sporting, a ganhar por 3-1, só precisou de controlar a posse de bola e fazer o Belenenses correr. De repente, o Belenenses decidiu “abrir a caixa do gato”, testando a vivacidade deste jogo. E estava bem vivo, ao contrário do que dizia Schrödinger.

Para trás é a subir, pessoal?

O jogo começou com dois golos frutos de momentos individuais. O Belenenses chegou ao golo aos oito minutos, através de um penálti sofrido por Yazalde e bem convertido por Yebda (Bruno Paixão teve ajuda do VAR).

Pouco depois, houve categoria. E que categoria. Um passe extraordinário de Bruno Fernandes sobrevoou muitos metros de relvado e foi ter com Bas Dost. O holandês, com uma grande receção, deixou a bola prontinha para a finalização. Classe. O empate até era o mais justo, dado que nenhuma das equipas estava claramente dominadora. E assim continuou.

O sistema tático do Belenenses trouxe cambiantes curiosas. O 3x4x3 fazia com que Diogo Viana e Florent, os alas, subissem para encostar nos laterais do Sporting. Ora, sabendo que qualquer equipa de Jorge Jesus gosta de trazer os laterais à primeira fase de construção, os leões estavam presos a esta ideia de Silas e o Belenenses não só condicionou a saída adversária, como recuperou bolas em zonas adiantadas. Mas a manta não chega para tudo. Tendo estes dois homens – mais os três da frente – tão subidos, havia muito espaço para o Sporting explorar lá na frente, sobretudo porque a transição defensiva do Belenenses estava mole, muito mole. Sobretudo de Bakic, que voltou a mostrar que joga à bola que se farta, mas que é muito menos intenso e muito menos conhecedor do jogo do que André Sousa (fez falta neste aspeto).

Com o jogo assim, partido, as equipas exploravam transições rápidas. O Sporting não lidava bem com a superioridade numérica do Belenenses na primeira zona de construção (outra das vantagens de ter três centrais), mas, quando recuperava bolas, criava sempre perigo, até por causa da já falada suavidade do Belenenses após a perda da bola. É o chamado “para trás é a subir”. Bruno Fernandes - que grande jogatana deste rapaz -, Gelson e Bryan exploraram muito bem o espaço entre a linha defensiva e a linha média do Belenenses.

Foi assim que o Sporting chegou ao golo, aos 41 minutos, com o cruzamento de Ristovski a ir ter com Acuña, que dominou e finalizou bem. E o Sporting teve tempo e espaço para tudo.

Está decidido, está...

Na segunda parte, veio a tal conversa do gato do Schrödinger. O jogo parecia assim meio morto, com o Sporting a circular a bola calmamente, mas, de repente, o Belenenses mostrou que o jogo, afinal, estava vivo. Aos 65 minutos, a muita passividade na equipa do Sporting - notou-se clara quebra física - permitiu uma jogada entre Florent e Fredy, que acabou na boa finalização de Licá. Mais uma neste jogo.

Pouco depois, mais uma desatenção na defesa leonina e Acuña, que perdeu o norte, cometeu penálti sobre Licá. Fredy - belo jogo deste bom jogador, a aproveitar espaço entre linhas - bateu e fez 3-3, num jogo que deixou para trás os tais 20 minutos de soninho pós-intervalo. Tudo isto foi após o Belenenses ter desmontado o sistema de três centrais, mas é difícil traçar uma relação de causa-efeito.

Uma nota: esta passividade defensiva do Sporting foi essencialmente coletiva – jogadores sempre atrasados a chegar à zona da bola –, mas Wendel, que até entrou agressivo, acabou por mostrar uma lacuna: muito olho na bola – a chamada “gula” – e pouca noção de pressão coletiva. Isto desequilibrou um pouco o meio campo, ainda que, repetimos, tenha sido sono coletivo.

Aos 80 minutos, veio nova cambalhota. Penálti de Yebda (que foi expulso) sobre Dost – marcado novamente com ajuda do VAR – e Bruno Fernandes converteu. Não foi Dost a bater porque estava fora do terreno, após ter recebido assistência médica.

Agora, sim, acabaram as cambalhotas. O Sporting, em superioridade numérica, acabou por fazer correr o tempo e o Belenenses já não teve forças para muito mais.

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