Opinião
Ver as diferenças
2018-05-07 14:00:00

O Sporting pode acabar segundo e a arrecadar duas taças para o Museu do clube mas o futebol que jogou esta época ficou abaixo das expectativas. O dérbi com o Benfica reforçou essa sensação, já que apesar do contexto favorável - adversário em perda, jogo em casa - a equipa não conseguiu ser mais forte que o rival, pelo contrário. Ao terceiro ano e com o melhor (e claramente mais caro) plantel do clube em muitos anos, Jorge Jesus falhou o ataque ao título de campeão e sobretudo não cumpriu as promessas de regresso a um futebol empolgante e dominador como o que apresentou na primeira época em Alvalade. Os leões foram mesmo inconstantes no rendimento e não ganharam em competência defensiva o que perderam na capacidade concretizadora. O Sporting marcou até agora 62 golos apenas (menos 17 que o Benfica e 19 que o Porto!), depois de ter obtido 68 no ano passado e 79 na primeira época de Jesus em Alvalade. Quem tem, ao mesmo tempo, Bruno Fernandes, Gelson Martins e Bas Dost tem obrigação de fazer mais e estes números são apenas a tradução concreta do que se foi percebendo nos jogos dos leões. A tentativa de mudar o perfil de jogo - assumida pelo próprio técnico quando falou de uma equipa mais italianizada, ao estilo Juventus - não se traduziu numa produção de maior qualidade e acabou por desperdiçar - quanto ao título - o ano em que o Benfica perdeu gás competitivo e que o Porto enfrentava com a tesouraria a zeros. Repito: o provável segundo lugar e uma vitória ainda mais previsível na Taça de Portugal vão permitir um balanço positivo aos leões mas não impedem esta leitura de que, ao afastar-se da sua identidade tradicional - de um futebol ofensivo, com vertigem, busca incessante de mais golos -, Jesus não conseguiu aumentar, antes diminuiu, as possibilidades de festejar em Alvalade o título que foge ao clube desde 2002.

Rui Vitória tem razão desta vez: a estratégia que definiu para o dérbi funcionou muito bem na primeira parte e o Benfica esteve mais perto da vitória. Aliás, quando se encontraram na Luz, Jesus invocou a ausência de defesas de Patrício para negar uma superioridade encarnada que já então se verificou mas desta vez bem pode agradecer ao número 1 o facto de não ter perdido o jogo nem a hipótese de agarrar milhões na próxima Champions. Ao Benfica aconteceu o que se lhe anota várias vezes, já que depois de uma abordagem inicial corajosa (com factor emocional bem trabalhado) e tacticamente surpreendente (a tal estratégia com que o Sporting não contava), a equipa foi perdendo gás. A razão principal está na eterna falta de soluções colectivas, sobretudo no processo ofensivo encarnado. Enquanto pôde viver de uma organização defensiva compacta com aposta nas transições, garantidas pelos movimentos de Jimenez e pela verticalidade de Rafa, foi melhor e muito mais perigoso que o adversário. Quando a frescura dessas unidades se foi perdendo e o Sporting corrigiu (por exemplo com recuo de William para a posição natural), a equipa da Luz precisava de se mostrar em organização ofensiva e já não só em transição. E aí faltaram ideias, já que a inclusão de um Jonas em sub-rendimento não poderia atenuar a perda de qualidade de decisão após as substituições que preteriram Pizzi, Zivkovic e Rafa (mais músculo, menos cérebro).

A questão de fundo é sempre a de confundir um modelo de jogo, trabalhado em função de convicções que se tornam princípios, ou seja, comportamentos em campo que servem uma ideia, com a abordagem particular de uma partida (a estratégia) que uns dias sai bem e noutros mal. Pergunte-se que tipo de futebol joga o Benfica? É difícil descobrir-lhe traços identitários vincados, sobretudo com bola. Pergunte-se o que joga o Sporting? Um futebol que se confundiu entre a natureza ofensiva e vertical dos anos anteriores com a tentação (inútil em Portugal) de ser mais pragmático. Pergunte-se como joga o Porto ? Desde cedo se percebeu claramente ao que vinha e o que queria fazer em cada momento do jogo. Ao primeiro ano no clube, Sérgio Conceição foi o tacticamente mais convicto que os colegas de função com três anos de serviço nos rivais. É bem capaz de estar neste jogo de diferenças a causa primeira para a tabela que se desenha na última jornada.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.

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