Opinião
Três homens e um destino
António Tadeia
2018-08-07 14:00:00

Rui Vitória justificou a ausência de Jonas no jogo com o Fenerbahçe, mais logo, com o contexto que o goleador brasileiro tem vivido nos últimos dias. Jonas terá pedido para sair, segundo umas notícias porque já não se sentiria em condições físicas de responder em pleno durante uma época tão exigente como é a do futebol português, segundo outras porque queria ganhar mais e teria ficado aborrecido com os valores que o Benfica vai pagar a Ferreyra, a estrela contratada para o ataque. Ora tudo isto é contexto e até pode dar-se o caso de ambas as versões estarem corretas e se somarem como razões profundas para o desconforto do homem mais decisivo nos últimos títulos de campeão nacional dos encarnados. Para dar uma resposta à pergunta mais importante, porém, era preciso saber melhor o que se passa na cabeça e no corpo de Jonas, mas também de Rui Vitória e de Luís Filipe Vieira.

Faz bem o Benfica em deixar sair Jonas? Depende. A minha tentação é a de responder que não, não faz bem. É verdade que o que interessa é o aqui e o agora, que Jonas já fez 34 anos e não vai para novo e que de nada serve manter um jogador, ainda por cima bem pago e tão querido dos adeptos que tê-lo como alternativa seria sempre um fator de pressão adicional para quem estiver a jogar, se ele já não render aquilo que rendeu nos seus anos de auge. A questão é que a última época de Jonas foi melhor do que a penúltima, essa sim prejudicada por um calvário de lesões: o brasileiro passou de 13 golos em 19 jogos na Liga em 2016/17 para 34 golos em 30 jogos em 2017/18. Não parecem números de um jogador na curva descendente da carreira e não chegam para caucionar a decisão de o deixar ir, a não ser que no Benfica se saiba alguma coisa acerca do físico de Jonas que não está a ser divulgada.

A parcimónia com que Jonas foi utilizado durante a pré-época, mesmo antes de emergir a solução vinda das Arábias para o caso, já fazia pressupor que a relação ia acabar em separação. Rui Vitória foi sempre apostando mais em Ferreyra e Castillo, tendo ainda Seferovic para as dobras – e três opções, com um jovem na sombra, podem ser suficientes para quem se prepara para apostar no 4x3x3 como esquema principal. Mas é precisamente essa parcimónia que me leva a crer que no caso há mais do que a simples decadência física do brasileiro. Nos últimos anos, o Benfica tem multiplicado os esforços comunicacionais para fazer crer que os seus ativos são os melhores do mercado, mas depois parece entrar em contradição quando se esforça para os despachar sem ter alternativas à altura – e esta é uma questão de política desportiva que já deu maus resultados, por exemplo, na venda de Mitroglu, por quem os adeptos suspiraram durante toda a época. Mesmo não tendo o grego conseguido um rendimento minimamente satisfatório em Marselha.

É por isso que para responder à questão da pertinência da libertação de Jonas neste verão de 2018 não basta perceber se o jogador quer mesmo ir embora e se quer fazê-lo por se sentir diminuído no físico ou no estatuto de que beneficiava no balneário. Importa perceber o que quer Rui Vitória: prefere apostar em Ferreyra e não quer ter Jonas como fator de destabilização permanente? E o que quer Luís Filipe Vieira: prefere a renovação permanente do plantel, para não correr o risco de ter jogadores maiores do que o clube e manter o dinheiro sempre em movimento? Essas são as questões às quais importa responder para melhor entender o affaire-Jonas.

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