Opinião
Treinador ou jogadores? Equipa!
Carlos Daniel
2017-09-11 14:00:00

Muito se discute, nos últimos anos, a ascensão dos treinadores a protagonistas de um jogo que antes reservava holofotes para os futebolistas mas também feitos veículos de comunicação dos clubes, respondendo a perguntas umas quatro a seis vezes por semana enquanto os jogadores falam aí quatro a seis vezes por ano. Mesmo correndo o risco de desfasamento da realidade delirante de um país desportivo que, como era previsível, passou do debate dos árbitros para o dos vídeo-árbitros, valorizemos jogadores e treinadores, afinal o essencial e o mais belo do jogo, para que ao menos nós, os que dele gostam, evitemos reconhecer que “a guarnição comeu o bife”, na expressão feliz do treinador espanhol Juan Manuel Lillo. Lillo é dos mais revolucionários pensadores do jogo em Espanha, país onde o debate que interessa, o do jogo que apaixona, deixou de ser apenas entre os pró-Guardiola e os pró-Simeone, emblemas de modos antagónicos de jogar, apesar de ambos competentemente treinados, para perceber o que vale o treinador Zidane, o homem que num ano e meio ganhou duas Ligas dos Campeões e mais uma Liga de Espanha que fugia desde 2012 (com José Mourinho).

Claro que o reverso do sucesso madridista é o fracasso do Barcelona, que primeiro tentou ser criativo (e foi destruidor) na sucessão de Pep e Tito com o estilo relaxado de Tata Martino e mais tarde acabou por empobrecer o essencial: a cultura de jogo que lhe valeu os melhores anos, entretanto perdida num estilo misto feito da posse com que brilham Busquets, Iniesta e Messi e da transição apressada que reclamavam Suarez e Neymar. Querer mudar de estilo para potenciar os melhores jogadores – o tridente MSN – forçou o Barça a ser quem não era, a baixar o bloco para aproveitar o espaço na frente, a perder a capacidade de recuperar a bola alto e agrupado (por regra) e a deixar que o jogo se partisse e fosse repartido demasiadas vezes nos cem metros de relva. Com isso, não só passou a permitir mais oportunidades a cada rival, como, mais determinante, a forçar elementos nucleares, como Busquets, Iniesta e mesmo Rakitic, verdadeiros génios dos espaços diminutos, a longas correrias reservadas a outro tipo de jogadores e com as quais nunca serão felizes.

Casemiro nunca entraria no jogar tradicional do Barcelona mas é um elemento importante em Madrid, mesmo se vários outros no mundo pudessem fazer a função, até com vantagem. Enquanto o Barcelona – o melhor Barça, que Valverde parece querer arrancar do passado – parte de uma ideia, de treinador, timbrada por Guardiola, o Real Madrid construiu-se sobre jogadores, verdadeiros fenómenos em série que Zidane encaixou como peças de tetris. Sérgio Ramos dá a liderança, Varane a elegância, Casemiro é cobertura para que os médios criativos partam à aventura, Benzema fornece os apoios, Cristiano nunca falha com os golos. E que injustiça não referir os laterais, Marcelo e Carvajal, esses monstros do sobe e desce com uma quantidade de passes para golo incrível. E agora nasce Asensio, quando o rival já não sabe o que fazer para parar os outros génios. Zidane tem mais dois méritos fundamentais, além dessa busca óbvia de compatibilidades, e partem ambos do conhecimento que tem dos seus homens: um é o de saber viver sem ter a bola, não ter necessidade de pressionar à frente, ser capaz de esperar atrás para depois se tornar fatal na transição ofensiva; o outro, o mais importante, passa pela autonomia que dá aos génios do meio campo, no respeito pelo seu talento e conhecimento do jogo.

É com três homens que poderiam ter jogado no melhor Barça, com a margem de criatividade dada a Kroos, Modric e Isco para fazerem do jogo o que lhes parecer melhor, que surge o primeiro Real Madrid em muitos anos que conseguiu ser claramente superior ao rival da Catalunha. No limite, nunca há um caminho único para a vitória mas é sempre fundamental um coletivo que garanta conforto aos melhores artistas. A equipa está acima de treinadores e jogadores, mesmo que isso não iluda as diferenças: num conjunto trabalhado em função de uma ideia, pior que faltar um ou outro jogador será tentar que os atletas façam o que não lhe está nos hábitos, enquanto numa equipa construída a partir dos jogadores, o drama é maior quando os melhores faltam. Também por isso o Real Madrid empatou com o Levante, por não ter Modric, Isco, Ronaldo, claro, e mais tarde também Benzema.

PS 1: Nuno Manta é definitivamente um treinador a ter em conta. O seu Feirense foi competente a defender, como sempre, mas também corajoso a atacar frente ao Sporting. Faltou-lhe um guarda-redes sem manteiga nas mãos mas resgatou para o futebol português um excelente ponta de lança: João Silva. A propósito (e se carentes na função estamos): que belo início de época está a fazer Gonçalo Paciência no Vitória de Setúbal.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.

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