Opinião
Sérgio, os milagres e o efeito-surpresa
2018-07-31 14:00:00

A confusão que foram os negócios de Paulinho e Ewerton, contratados pelo FC Porto acima do valor de mercado e depois devolvidos, não se percebeu se por falta de liquidez do clube comprador ou de qualidade dos jogadores, não ilude aquilo que é essencial: o campeão nacional não parece estar mais forte do que há um ano e desta vez já não vai apanhar os adversários desprevenidos, pois está a defender um título e não a concorrer como underdog mais ou menos unânime. Aquilo que Sérgio Conceição e os seus jogadores conseguiram na temporada passada foi pouco menos do que um milagre, mas será má política confiar em demasia na capacidade dos milagreiros. Por isso, o melhor é mesmo a SAD deitar mãos à obra.

Se compararmos o plantel atualmente à disposição de Sérgio Conceição com o do início da época passada, talvez ele nem esteja mais fraco, apesar das saídas de Ricardo, Dalot e Marcano e da lesão de Mbemba. Porque muitos dos integrantes deste plantel valem hoje muito mais do que valiam há um ano. Basta recordar os casos de Sérgio Oliveira, de Marega, de Aboubakar, ou até de Brahimi ou Herrera. É verdade que há limitações, sobretudo atrás, onde Militão – que talvez viesse para concorrer com Maxi pela lateral direita – poderá ser forçado a derivar para o centro da defesa, caso Diogo Leite não confirme no médio prazo as excelentes indicações dadas na pré-temporada. Só que a questão essencial não se prende com a qualidade do plantel portista. A questão essencial é que os adversários já vão estar à espera de um FC Porto forte – e não me refiro apenas aos adversários na luta pelo título, mas a cada opositor que os dragões encontrarem a cada jogo que forem fazendo.

Muito do sucesso do FC Porto em 2017/18 se relacionou com dois fatores: uma política de alargamento das opções (por oposição à política de encurtamento levada a cabo, por exemplo, por Jorge Jesus), dando a todos a ideia de que toda a gente contava, e o facto de muitos terem riscado esse FC Porto impedido de contratar das contas do título. Sérgio Conceição parece apostado em repetir a primeira estratégia – e já deu conta disso mesmo após o jogo com o Newcastle, quando disse que “os verdadeiros reforços são os que ficam” e citou os nomes de vários regressados de empréstimo. Mas aquilo que o FC Porto não pode controlar é a perceção que os adversários terão da sua equipa. Ali está o campeão em título, a equipa que toda a gente vai querer derrotar com força redobrada. O FC Porto já não vai ter o efeito-surpresa do seu lado e isso equivale a dizer que terá de estar muito mais forte. E é por isso que a campanha de mercado de 2018 não está a parecer satisfatória.