Opinião
Sérgio é quem mais merece
Carlos Daniel
2018-04-16 14:00:00

Duas derrotas inesperadas do Porto pareceram alterar o destino traçado desde o início de época e que apontava para o fim do ciclo vitorioso do Benfica. A uma preparação deficiente da temporada e à pressão mediática forte que uma série de casos fizeram abater sobre o clube, juntava-se o que é verdadeiramente determinante no futebol: a gradual perda de qualidade de jogo que Rui Vitória não dava mostras de conseguir inverter. A entrada na equipa de dois talentos invulgares – Krovinovic e depois Zivkovic – que o técnico tinha incrivelmente secundarizado nos primeiros meses provocou um sobressalto na forma de jogar da equipa, o que, somado ao regresso à competitividade regular de Grimaldo e à qualidade excecional de Jonas, devolveram ao Benfica a condição de candidato e aos adeptos a ilusão de que talvez o treinador não fosse afinal parte do problema.

No Porto, ocorreu o inverso: um início de época em que a míngua de recursos moderou a ambição e o discurso assertivo de Sérgio Conceição batiam certo com o que a equipa desde cedo começou a exibir em campo. Mais eficaz que sedutor, o jogo portista não tinha soluções infindáveis mas era claro o modelo definido, as alternativas de sistema e uma série de princípios que talhavam uma identidade eficaz (sobretudo) para as provas internas: ser objetivo com bola procurando a baliza contrária pelo caminho mais rápido, aproveitar a profundidade mas também a largura no processo ofensivo, com muitas unidades em situação de ataque, por regra com dois avançados, laterais projetados e alas em posicionamento interior. A isto somavam-se uma grande agressividade na luta pela bola após a perda, contundência nos duelos e enorme eficácia no jogo aéreo, defensivo e ofensivo. Sem ter tantas unidades criativas disponíveis, e quase desprezando Óliver - um dos maiores talentos de que dispõe -, a verdade é que desde cedo a equipa portista se mostrava segura do que podia e sobretudo convicta do que queria fazer. Um plantel curto e retocado em Janeiro a preço de caramelos vacilou entretanto, com as lesões e o desgaste de muitos jogos em alta rotação, mas verdadeiramente foi sempre a equipa mais completa da Liga.

A abordagem estratégica no clássico não surpreendeu. Um Benfica sempre emocional nos arranques e empurrado por um estádio em delírio, mostrava-se todavia incapaz – na ausência de Jonas – de construir um único lance apoiado pelo corredor central, não chegava às entrelinhas nem colocava lá ninguém que pudesse ligar o jogo e mostrava-se dependente da condução de bola acelerada nos corredores laterais. Sem o avançado que recua para dar critério e reorganizar a posse, os encarnados resumiam-se a uma série de homens em correria de trás para a frente sem qualquer ambição associativa. Aliás, ver como se comportam sem bola Jonas e o homem que o substitui, Jiménez, é perceber muito da falta de solidez do processo encarnado. O que um faz não tem nada a ver com o que faz o outro. Já no Porto, mesmo alterando os protagonistas - Soares ou Aboubakar, Danilo ou Sérgio Oliveira, por exemplo – o que o modelo espera deles é idêntico (nunca igual, obviamente). Na Luz, surgiu um Porto receoso na primeira parte, em que o respeito pelo rival que jogava em casa - e de quem esperava, admitiu Conceição, uma primeira parte forte - fez fixar os laterais em zonas recuadas e raramente apresentar a largura habitual no ataque, vivendo de lançamentos quase sempre inúteis para Marega e Soares, na tentativa de explorar o espaço entre laterais e centrais contrários. O Porto mudou ao intervalo, para melhor, assumindo a iniciativa. Libertou os laterais, retomou os hábitos ofensivos, de largura e circulação pelos três corredores, subiu linhas para ganhar a bola mais alto no campo. Além de competente, a gestão de Conceição foi também mais corajosa, que lançar duas unidades ofensivas a 15 minutos do fim (pelos 80 e a contar com a compensação) é verdadeiramente fazer qualquer coisa para ganhar. Ao contrário, apostar num segundo ponta de lança aos 87 minutos, de um jogo em casa que podia valer um título, é mais fazer de conta que se quer ganhar. Já antes, a saída de Rafa – de longe o mais perigoso dos encarnados no jogo – fora um erro crasso, como a entrada de Samaris se revelou uma inutilidade clássica, que dotar de músculo um meio campo em perda é apenas um eufemismo para o medo de perder. Quando a equipa precisava de ter bola, e de respirar com ela, a opção foi por um jogador emocional, que nada acrescenta na organização e acumula faltas nos gestos defensivos. Rui Vitória não quis ganhar o clássico que não podia perder, enquanto Sérgio Conceição quis ganhar o clássico em que até lhe bastaria não ser derrotado.

O jogo traduziu a época. O Porto vai provavelmente ser campeão, e com justiça, enquanto um Benfica que já era tetra se mostrou tolhido de ambição na hora de carimbar o penta, juntando mais uma frustração à época negra que teve resultados enxovalhantes na Liga dos Campeões e eliminações prematuras nas taças domésticas frente a equipas menores. E ainda pode piorar para as águias, que agora é o segundo lugar (e a última vaga de acesso à Liga dos Campeões da próxima época) que pode estar em discussão quando o Benfica for jogar a Alvalade. Esse duelo pela Champions mais a meia-final da Taça entre leões e dragões fará luz sobre quem fica como a segunda melhor equipa da época. O trono é que já parece reservado para Sérgio Conceição e o seu Porto. E é quem mais o merece.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.

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