Opinião
Sérgio e os outros campeões
2018-04-30 14:00:00

Como previ após o clássico da Luz, o Porto vai ser campeão e com toda a justiça. É a equipa mais regular, com um modelo de jogo definido em princípios evidentes desde cedo na época, com mérito nunca demasiadamente elogiado de Sérgio Conceição e da equipa técnica que o acompanha. Apesar de um plantel curto soube ir superando as ausências de vários jogadores nucleares - Danilo, Aboubakar, Marega ou Alex Telles - e nunca se mostrou inferior aos rivais nas situações de confronto direto (por regra foi o contrário, a despeito das eliminações nas Taças diante do Sporting, ambas no desempate por penaltis). O Benfica ignorou os sinais de um rendimento coletivo insuficiente e excessiva dependência de individualidades - o quanto Jonas maquilhava alguns maus jogos tornou-se evidente quando o goleador faltou - e vai completar a época mais fraca em muitos anos, mesmo que ainda aguente o segundo lugar em Alvalade, o que não se apresenta fácil. É que se os encarnados se mostram em perda, o Sporting surge motivado, com tropas unidas no relvado sem embargo da instabilidade fora dele e ainda há-de contar com um estádio inteiro a empurrá-lo para a Champions. Se, após esses dias turbulentos que viveu e soube gerir, Jorge Jesus acabar em segundo no campeonato e puder juntar à Taça da Liga uma Taça de Portugal, terá trabalho claramente positivo para apresentar, mesmo se o título fugiu outra vez. Já Rui Vitória, mesmo que fique em segundo, não poderá disfarçar a frustração e dificilmente será visto como homem certo para o futuro das águias, ainda que estejam longe de ser dele todas as responsabilidades de uma época falhada.

É justo valorizar outras equipas e treinadores, como o admirável Braga que Abel Ferreira manteve sempre nos calcanhares dos grandes, o Rio Ave de Miguel Cardoso que foi o projecto mais sedutor até Janeiro, o Marítimo que Daniel Ramos foi conseguindo manter na luta europeia ou o Desportivo de Chaves que tanto cresceu com um competentíssimo Luís Castro, mas considero hoje de elementar justiça destacar outros três emblemas e especialmente três técnicos que claramente acrescentaram competência (e pontos!) aos plantéis modestos que comandam: Jorge Simão, Pepa e Nuno Manta. Boavista, Tondela e Feirense estão seguramente entre os 5 orçamentos mais baixos da Liga e todavia o Boavista é sétimo, o Tondela décimo e o Feirense luta bravamente para fugir a um destino de descida que há 15 dias parecia traçado. Petit também merece ser valorizado pelo que fez no Moreirense mas disntingue-se dos demais por ter feito apenas uma parte da época.

O que Jorge Simão tem conseguido no emblema de xadrez é particularmente relevante. Com um plantel que não difere do de anos anteriores - que dinheiro é coisa que irá rarear no Bessa por mais algum tempo - conseguiu uma equipa competitiva, capaz de jogar a todo o campo e em todos os campos, mostrando que o sucesso fulguramente de Chaves não foi apenas fogo de vista na carreira do técnico. Simão é mais que o homem de discurso afirmativo que algumas vezes roçou a arrogância, pois surge hoje claramente como alguém preparado, com ideias claras e capaz de acrescentar qualidade aos jogadores que trabalham com ele. Ser sétimo neste Boavista é ser campeão.

Pepa já dava sinais de que a inteligência e a irreverência (com graça, na maioria das vezes, há que dizê-lo) não se ficavam só pelo discurso. A época, principalmente a segunda metade, que está a realizar em Tondela provam-no como técnico de primeira. À intenção ofensiva, à vontade de nunca jogar só meio jogo (o defensivo) que já lhe faziam a imagem de marca, juntou este ano mais equilíbrio, desenvolvendo uma equipa que sabe melhor parar os rivais quando não tem a bola e define bem os momentos (e o modo) como pode feri-los depois de a recuperar. E com Pepa cresceram uma série de jogadores -na maioria portugueses!- do ágil guarda-redes Cláudio Ramos ao ponta de lança Tomané, um notável jogador de equipa que também faz golos. Ser décimo com este Tondela também deveria merecer faixa.

Nuno Manta Santos é o mais extraordinário caso de humildade que não é vaidade disfarçada. Cada entrevista rápida, cada conferência de imprensa, cada manifestação de alegria ou desalento (sempre nos limites da contenção) junto do banco mais me fazem admirar o homem por trás do treinador. Mas é o técnico que aqui valorizo, já que a modéstia da folha salarial (e até perdeu a maior vedeta, Etebo, em Janeiro, para o futebol espanhol) não impede que seja uma equipa que sabe o que faz no campo, num grupo em que se percebe a união mas que é bem mais que um estado de alma. Sabe, por exemplo, que tendo João Silva na frente pode esticar mais o jogo e lutar pela segunda bola mas fá-lo com critério. Sabe que precisa de aproveitar as bolas paradas ofensivas e fá-lo com treino e astúcia (como ainda se viu no Bonfim: se todos olhavam para Briseño no centro da área, haveria de se procurar João Silva ao segundo poste). Aliás, no Bonfim faltavam aos da Feira dois homens determinentes no seu jogar, Tiago Silva e Luís Machado, mas não foi isso que alterou a ambição nem impediu uma estratégia de sucesso. Se o Feirense se salvar mais uma vez, ao treinador o deve, em primeiro lugar. E até lhe poderiam fazer um busto. Com óculos.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.

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