Opinião
Será desta que o Liverpool se orienta?
2018-09-21 14:00:00

Estão completadas cinco jornadas da Premier League e já se podem tirar algumas notas breves deste arranque. Parece mais ou menos consensual que, nesta edição, a concorrência vai apertar o celestial Manchester City.

Sarri melhorou o Chelsea. Jorginho pensa com lucidez e executa com precisão, desencadeando mais soluções sob pressão. O catarinense estabelece toda a equipa a jogar 15 ou 20 metros mais à frente, mexendo, até, com a posição-base de Kanté, que pressiona e transporta mais à frente, fazendo de Allan na configuração sarriana. Com Cesc lesionado, os revigorados Kovacic e Barkley alternam no papel destinado a Hamsik nos rascunhos anteriores do ‘allenatore’, agora coadjuvado por Zola, lenda dos Blues.

Não esqueçamos a devolução de David Luiz ao onze, depois de ostracizado por Conte. O ex-Benfica confere o risco calculado no passe frontal que Sarri exige na fase inicial de construção. O Chelsea quer dominar, passar muito mais tempo perto da grande área do adversário e talvez Giroud até venha a roubar a titularidade a Morata. De qualquer forma, é Hazard que mais deslumbra com a quantidade de dribles frenéticos. Possivelmente, tem sido o jogador mais espetacular neste arranque de edição.

O Liverpool está mais completo do que nunca e atingiram um nível de consistência assinalável, doseando muito melhor o frenesim de modo a manterem o controlo da situação durante fatias mais prolongadas do jogo. Será desta que conseguem o primeiro campeonato da era Premier League? Van Dijk chefia a defesa, Alisson dá mais segurança atrás, enquanto Keita dá a manobra que os Reds precisavam depois da venda de Coutinho. Klopp tem a linha atacante mais diabólica de Inglaterra - nos últimos 32 jogos em que Mané, Firmino e Salah foram titulares em simultâneo, marcaram 66 golos entre eles. Mesmo que Salah esteja um pouco “fora dela”, Mané voa com a bola e Firmino liga jogo com mestria para que os extremos façam diagonais e apareçam em frente à baliza. Fabinho ainda não calçou, mas Wijnaldum, um multi-funções, coordena e destrói. E o que correm Milner, Robertson e Alex-Arnold…

O Tottenham, mesmo tendo agora perdido duas vezes seguidas, tem futebol entusiasta e capacidade para ganhar em qualquer campo, como já aconteceu em Old Trafford. Não tarda vão jogar no seu novo White Hart Lane, mas é importante eliminar a ideia que a equipa de Pochettino já chega frágil à viragem para as segundas voltas.

Com Emery, o pós-Wenger é animador: o basco impôs mais método no Arsenal, primeiramente para saber defender, posteriormente para rodar as peças adiantadas e rematar de forma mais esclarecida, já com Aubameyang e Lacazette bem relacionados, aproveitando ainda as desmarcações de Ramsey e a destreza de Özil, que parece mais desenvolto. Petr Cech é o guarda-redes que mais passes efetua no campeonato (a média de passes por jogo de Cech é o dobro da da sua época anterior), sinal do aproveitamento que Emery quer do seu elemento mais recuado e da participação na fase inicial de construção. Leno, titular pela primeira vez contra o Vorskla, ainda vai ter de esperar.

Mourinho passou no Turf Moor, em Burnley, dissolvendo a nuvem negra que se criou com as derrotas contra o Brighton e Tottenham. Fellaini deu físico numa altura em que o Manchester United precisava, não só para cortar ocasionais pontos fortes do oponente, como também para libertar Matic e Pogba. Na frente, Lukaku já marcou quatro vezes – o belga anotou 50% dos golos dos Red Devils na PL.

Nas East Midlands, as raposas vão aprendendo a dar os primeiros passos sem Mahrez, transferido por £60M para o Man.City. O esquerdino Ghezzal foi adquirido pelo Leicester na condição de sósia de Mahrez, mas tem sido Maddison, médio-ofensivo útil na ligação e no remate, que melhor se tem mostrado nos azuis, com prejuízo para Okazaki, peça fulcral no xadrez de Ranieri no título de há dois anos.

Nuno Espírito Santo mantém o 3-4-2-1 com que foi campeão da segunda divisão na época passada, mas acoplou João Moutinho para dinamizar o eixo junto de Rúben Neves. O tandem funciona e, atrás deles, é Coady que vinca a sua qualidade na construção com uma precisão fabulosa no passe longo e que coloca Jonny, Doherty, Diogo Jota ou Hélder Costa em condições de ir para cima dos adversários em 1v1. Os Wolves têm um projeto para se estabelecerem já nesta época na primeira metade da tabela e o jogo bem conectado da equipa de Nuno tem tido resultados muito satisfatórios: são nonos e empataram com o Man.City.

O Bournemouth está em 5.º lugar e Eddie Howe demonstra sucessivamente a capacidade para pôr os Cherries a jogar bem, mesmo com recursos ligeiramente mais limitados. Já nos tempos da segunda divisão eram uma equipa que pensava fora da caixa, a ligar com apoios próximos e valorização do passe curto, fruto da inspiração do treinador no futebol do sul da Europa. Com uma ou outra nuance, têm mantido essa matriz na PL, até porque a coluna de jogadores nucleares também vai permanecendo no plantel. Para já, apenas o Chelsea os conseguiu vencer.

Talvez o Watford seja a maior surpresa das cinco jornadas iniciais. Javi Gracia entrega as rédeas do meio-campo a dois médios possantes, mas que sabem jogar (Capoue e Doucouré), e tem desenvolvido muito dinamismo nos Hornets, não tendo havido muitas mexidas no plantel da época passada. Saiu Richarlison para Merseyside, mas Hughes e Pereyra estão bem recuperados e, nos três quartos do campo, facilitam a chegada da bola a Deeney e Gray, dois dos avançados mais rijos do campeonato. Menção honrosa para Holebas, um lateral-esquerdo fantasista que já totaliza um golo e quatro assistências. Ninguém diz que tem 34 anos.

E olhando para o resto da tabela?

Começando por baixo, o Burnley não altera a sua forma rudimentar de estar em campo. Resultou num inacreditável 7.º lugar da época passada, mas quem depende tanto de ressaltos e bola suja nunca poderá ter muitas garantias de êxito ao longo do tempo. Dyche põe os Clarets a lançar longo e não sai muito disto. Barnes e Vokes, os avançados, saltam mais do que combinam com a bola no chão.

O Newcastle já podia ter ganho um jogo, mas Kenedy falhou um penalty contra o Cardiff nos últimos instantes. Mike Ashley quer vender o clube e Rafa Benítez já percebeu que não haverá investimento por aí além, no sentido de melhorar a equipa de Tyneside. A lesão de Shelvey, o cérebro do meio-campo, também não ajudou neste início de época.

O Cardiff e o Huddersfield não se projetam como as equipas mais prometedoras e a “malha” que os Terriers levaram no Etihad não favoreceu a imagem de David Wagner. O West Ham só tinha derrotas antes de se deslocarem a Goodison Park, mas Obiang, Felipe Anderson, Yarmolenko e Arnautovic derrubaram o Everton. Pellegrini tem muita gente com qualidade. Com tempo, talvez se consiga fazer dos Hammers uma equipa decente, ainda que tenham perdido a magia por já não jogarem em Upton Park.

Não desgosto do Fulham. Jokanovic, o treinador, pode montar uma linha atacante de respeito, com Schürrle, Mitrovic (que falta faz ao Newcastle…) e Vietto. JM Seri, centrocampista que brilhou no Nice e, antes, em Paços de Ferreira, com Paulo Fonseca, ganha agora notoriedade em Craven Cottage, onde já marcou um golão ao Burnley.

O Brighton já causou sensação por ter ganho ao Man.Utd. No apoio ao inoxidável Murray, autor de um golo bonito contra os Red Devils, Knockaert e Izquierdo são extremos diabólicos e Alireza, o iraniano chegado de Alkmaar, tem sido suplente no emblema da South Coast. Continuando a sul, o Southampton tem perdido o fulgor de outras épocas. Não é fácil lidar com a saída sucessiva de jogadores para a elite, mas Mark Hughes tem feito com que Hojbjerg, outrora valorizado por Guardiola em Munique, se assuma muito melhor no meio-campo com Lemina, ao mesmo tempo que é bom ver Danny Ings retomar a confiança depois das lesões. Em Anfield, nunca teria hipótese de jogar com frequência.

Em South London, Max Meyer, hoje ‘persona non grata’ em Gelsenkirchen, ainda não se estrou como titular em jogos da PL. A afirmação do talentoso médio do Crystal Palace ainda não aconteceu, mas Hodgson tem tido a equipa estabilizada com Milivojevic, McArthur e Koyaté, recrutado ao West Ham. Townsend tem variedade de dribles, mas, mesmo assim, Zaha, o marfinense de Croydon, está um ou dois níveis acima dos outros. Inspirado, é imparável. Que jogador!

Vamos estando atentos ao Everton, que trouxe, neste Verão, vários jogadores de categoria internacional, três deles depois de um raide em Barcelona. Todos juntos, contemplam uma soma aproximada a €100M. Richarlison, autor de uma primeira volta sensacional no Watford em 2017/18, foi um pedido expresso de Marco Silva e o jogo fabuloso que fez em Wolverhampton foi convincente para os Toffees. E para Tite. Talvez Schneiderlin se assuma melhor sozinho no meio-campo do que com Gana Gueye ao lado, mas esse é um enquadramento que Marco Silva terá de afinar, salvaguardando que André Gomes pode vir a entrar nesta equação. Se a zona de construção não melhorar, Sigurdsson vai apanhar por tabela e não vai conseguir dialogar com tanta propriedade com Tosun, um avançado que pede que joguem com ele.

Luís Catarino é comentador da SportTV e escreve no Bancada às sextas-feiras.