Prolongamento
SC Espinho: o doloroso processo de renascer das cinzas
António José Oliveira
2018-10-10 21:30:00
Depois do final do processo de insolvência vem aí um novo estádio

23 de Agosto de 1996. O SC Espinho iniciava aquela que seria a última presença no escalão maior do futebol português e engalanou-se para receber o Sporting na jornada de abertura do campeonato. O resultado final sorriu para o lados dos leões que venceram por 3-1, com golos de Pedrosa, Vidigal e Hadji, num jogo em que  Besirovic empatou para a equipa da casa. Vinte anos depois, o clube do distrito de Aveiro tenta recuperar o tempo perdido e renascer do período de maior crise dos quase 104 anos de história, culminado com a descida aos distritais. A um estádio quase sempre bem composto sucedeu um estádio em degradação. Que deixou de pertencer ao SC Espinho. É verdade. Um Processo Especial de Revitalização que resultou na transferência do património do clube para saldar dívidas a credores fez com que tudo mudasse. O SC Espinho sobreviveu ao risco de insolvência mas viu-se forçado a treinar e a jogar em Fiães, no Estádio do Bolhão, no concelho de Santa Maria da Feira.

A 11 de junho deste ano o clube terminou o pesadelo que o ensombrava dia após dia e passou a ter uma nova esperança no horizonte. Ficou livre do pedido de insolvência que decorria desde 2014, sem dívidas mas também sem património. "Foi um momento importante, porque o Sporting de Espinho ficou a salvo de qualquer liquidação, mas também foi com tristeza que verificamos a perda do património acumulado ao longo de tantas décadas, por desleixo e irresponsabilidade de anteriores direções", afirmou Bernardo Gomes de Almeida, atual presidente da direção, em declarações à Lusa. "O clube cumpriu todos os pontos previstos no plano aprovado em assembleia de credores e demonstrou ser uma entidade viável."

Depois do final do processo de insolvência dificilmente poderia haver melhor notícia: a Câmara Municipal de Espinho apresentou na última semana o projeto de arquitetura referente ao novo estádio destinado a servir o clube local. A conclusão do empreendimento deverá ocorrer dentro de um prazo de dois anos. "Numa perspetiva razoável, o mais tardar, no final de 2020 o estádio estará concluído", prometeu Pinto Moreira, presidente da edilidade, na apresentação pública do projeto.

O executivo espinhense prevê que a obra possa arrancar no início de 2019 e que a empreitada demore cerca de um ano e meio a ser concluída.  “O estádio será sempre do Município, com o clube a ser o seu principal utilizador, mas não o único”, explicou Pinto Moreira. “Não se podia é adiar mais o assunto. Com a apresentação do projeto arquitectónico e o lançamento do concurso público para a obra, vamos concretizar, portanto, não só o sonho do Sporting Clube de Espinho, dos seus atletas e adeptos, mas também uma ambição antiga da cidade e do concelho”. “É um estádio moderno, confortável, adequado à dimensão e realidade do município, e com toda as condições técnicas exigidas pela Federação Portuguesa de Futebol e pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional para acolher competições de topo”, acrescentou.

Mas para que isso ocorra é preciso lançar até meados de Novembro o concurso público para adjudicação da respetiva empreitada montar a operação que permitirá financiar o projeto, com o apoio da Assembleia Municipal e o recurso à banca. Uma vez escolhida a empresa que executará a obra e obtida autorização do Tribunal de Contas, a construção do novo estádio arrancará.

O Plano de Pormenor integra-se numa vasta área que foi, outrora, ocupada quase exclusivamente por bairros de pescadores. "O declínio desta atividade e a expansão da cidade para nascente converteu esta zona da cidade de Espinho num cenário desolador constituído por uma sucessão de construções degradadas", pode ler-se no Plano, a que o Bancada teve acesso. "O terreno objecto do Plano de Pormenor situa-se na fronteira poente da cidade de Espinho, em frente ao mar. Tratando-se de um terreno com uma situação privilegiada, pretende-se aproveitar essa mais valia através de uma solução urbanística que, por um lado, remate a marginal e, por outro lado, lhe sirva de fachada principal. Propõem-se, como tal, construções privadas, residenciais e comerciais, complementadas por espaços verdes", acrescenta o documento.

 

O novo recinto está, assim, previsto para 2020 e o custo da obra estimado em dois milhões e meio de euros. A construir junto ao Parque da Cidade, perto da Nave Desportiva Polivalente, do Complexo de Ténis e da Pousada da Juventude, o estádio que albergará o SC Espinho ocupará uma área de 18.000 metros quadrados. Terá entradas distintas para cada equipa, vai dispor de quatro bancadas cobertas e terá capacidade para 5.200 lugares, no que se incluem 105 na tribuna presidencial, 42 distribuídos por seis camarotes, 36 para jornalistas e 32 para cidadãos com restrições de mobilidade. No exterior, o empreendimento ostentará uma grande pala, contornado por uma sucessão de pilares e complementado com um percurso pedonal deambulatório, que, com cerca de 8 metros de largura coberta, foi pensado para incentivar o usufruto da paisagem. A cor dominante será clara, pelo acinzentado pálido do betão e pela cobertura metalizada esmaltada de branco (ver foto). 

Uma história a respeitar 

O SC Espinho subiu pela primeira vez ao escalão máximo do futebol nacional em 1973/74, na presidência de Lito Gomes de Almeida, pai do atual presidente da direção, Bernardo Gomes de Almeida. Entre outros feitos, os tigres venceram uma edição da Taça Ribeiro dos Reis, em 1967, conquistaram o título de campeão nacional da Segunda Divisão em 1991/92, e disputaram por 11 vezes o campeonato principal. Registo para um  sexto  lugar, em  1987/88, naquela que foi a melhor classificação de sempre. Quinito era o treinador de uma equipa que contava com nomes como Silvino, Amândio Barreiras, Pingo e Mike Walsh, entre outros.  Até então o melhor registo, um sétimo lugar, era pertença de Manuel José, na época 1979/80.

António Leitão, um dos maiores atletas portugueses de sempre é uma das grandes referências do clube espinhense, onde se formou. Ainda hoje lhe pertence o recorde nacional dos 3000 metros, que bateu em Bruxelas, decorria o ano de 1983, com a marca de 7m39,69s. Em 1984, António Leitão viria a conquistar a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, na prova de 5000 metros.

Costuma dizer-se que o futebol é o futebol nos clubes, mas o SC Espinho tem no voleibol o seu ponto forte. São 18 os títulos de campeão nacional conquistados, aos quais se juntam cinco Supertaças e uma competição a nível europeu, a Taça Europeia dos Clubes de Topo, arrecadada em 2000/01.

No futebol, o momento não é aquele com que os espinhenses sonhavam, mas a verdade é que o clube já esteve bem pior. Chegou a andar nos distritais, pelo que a comemoração do regresso ao Campeonato de Portugal em maio do ano passado foi comemorada com pompa e circunstância depois de uma reviravolta épica frente ao Oliveira do Bairro. Os tigres estiveram a perder por 2-0 mas conseguiram virar por completo o resultado, tendo apontado o golo da vitória no último minuto do desafio.

A militar na série B do Campeonato de Portugal, o SC Espinho, liderado tecnicamente por Rui Quinta, ocupa nesta altura a quinta posição, com 12 pontos, a sete do líder isolado, o Gondomar SC. Em sete jornadas, os tigres somam três vitórias, três empates e uma derrota, correspondentes a 10 golos marcados e três sofridos, naquela que é a melhor defesa da competição.

O FUTEBOL DO SC ESPINHO EM NÚMEROS

- 11 presenças na 1.ª Divisão: 1974/75, 1977/78, 1979/80, 1980/81, 1981/82, 1982/83, 1983/84, 1987/88, 1988/89, 1992/93 e 1996/97

-  6.º lugar (1987/88) e 7.º lugar (1979/80)

- Vencedor da Taça Ribeiro dos Reis: 1966/1967

- Campeão da Liga de Honra (2.ª Divisão): 1991/1992

- 3 Campeonatos Nacionais 2.ª Divisão – Zona Norte: 1973/74, 1978/79 e 1986/87

- Campeão da II Divisão B – Zona Centro: 2003/2004

- 13 Campeonatos da AF Aveiro: 1924/25, 1925/26, 1926/27, 1927/28, 1929/30, 1931/32, 1933/34, 1940/1941, 1943/1944, 1944/1945, 1947/1948, 1950/1951 e 1960/1961

- Taça de Honra da A. F. Porto: 1917/1918

- Campeão da 1ª Divisão Distrital 2016/2017

- Vencedor da Supertaça de Aveiro AFA 2016/2017

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