Opinião
Salah deixa a superfície terrestre
Manuel Fernandes Silva
2018-04-25 14:00:00

Em 1984, aquela equipa do Liverpool era uma colecção de bigodes famosos. Bruce Grobelaar nasceu no Zimbabué e ocupava a baliza, Graeme Souness andava pelo meio-campo e na frente o galês Ian Rush encontrava os golos, tantas vezes fazendo dupla com Kenny Dalglish, um talentoso escocês escanhoado. Mas nem esse ataque de elegante eficácia conseguia chegar à vertigem quase sísmica do trio do atual Liverpool: Sadio Mané, Roberto Firmino e Mohamed Salah. O egípcio é, provavelmente, o talento maior desta temporada e começa a entrar na lista muito curta de nomes apontados à vitória no Prémio FIFA “The Best”, que distingue o melhor jogador da época. Jogo após jogo, o avançado lança a candidatura em campo, a um ritmo quase frenético.

Desde o início do ano, Salah fez 19 jogos (18 pelo Liverpool e um pelo Egito) e marcou 21 golos (um dos quais a Portugal, num encontro de preparação ao serviço da equipa nacional egípcia). Desde janeiro, o avançado só não marcou em três jogos, todos eles com marca portuguesa: na derrota do Liverpool frente ao Swansea City de Carlos Carvalhal, no empate sem golos em casa, com o FC Porto, na derrota com o Manchester United de José Mourinho.

Se estes números colocam solidez na candidatura, a moldura total da época acrescenta betão: 10 golos na Liga dos Campeões, 31 na Primeira Liga Inglesa, um na Taça de Inglaterra e um no “playoff” de acesso à Liga dos Campeões. A estes 43 golos ainda podemos juntar quatro pelo Egito, que colocam Salah muito próximo da meia centena.

Os registos históricos alertam para uma marca prestes a ser quebrada por este jogador, que já se colocou a apenas quatro golos dos 47 apontados por Ian Rush (o tal avançado de bigode) ao serviço do Liverpool, na temporada 1983/1984. Mas seria injusto e redutor limitar Salah ao papel de finalizador, fazer dele “apenas” um empilhador de golos e não lhe creditar o perfil de verdeiro carregador de sonhos, escritos de forma brilhante em tantos relvados, ao longo da temporada. Esta época, Mohamed Salah constrói, desbloqueia, faz assistências e finaliza ao nível dos dois melhores jogadores do planeta. E é natural que a eles se junte na muito exclusiva Gala da FIFA, provavelmente para ocupar um lugar que nos últimos anos já foi de Xavi, Iniesta, Ribéry, Neymar e Griezmann.

A força desta candidatura poderá ser avaliada de outra forma quando ficarmos a saber como será o futuro europeu do Liverpool e a prestação da seleção egípcia no Campeonato do Mundo. Até lá, todos os números insinuam que Salah anda a tocar o céu com uma bola de futebol nos pés. Já longe da superfície da Terra, quase ao nível dos dois “extraterrestres” que dominam o futebol mundial há uma década.

P.S. - Anda meia Europa a pensar nos jogos entre Bayern de Munique e Real Madrid, mas antes da final antecipada, Liverpool e Roma ofereceram uma espécie de final do mundo dos sonhos. O melhor contra-ataque da Europa fez da baliza da Roma uma cidade aberta aos velocistas de Jürgen Klopp. Firmino e Mané são credores de elogios, mas o primeiro golo do jogo, assinado por Salah, merecia ser guardado numa pirâmide. Enquanto o avançado egípcio esteve em campo, a Roma não conseguiu reagir, mas os dois golos italianos depois dos 80 minutos colocam uma dúvida aceitável no desfecho desta meia-final. É verdade que os "milagres" dificilmente têm sequela, mas quem venceu o Barcelona por 3-0 tem agora o direito a poder sonhar com uma segunda noite mágica.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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