Prolongamento
Sabe tudo sobre as leis do futebol? Se calhar, não...
Mauro
2017-10-02 20:00:00
Rui Costa, Verrati e Sporting B serão recordados

- “Epá ele estava em fora de jogo”
- “Mas foi de um pontapé de baliza…”
- “E então?”

Este diálogo não é tão raro como pensa. Em quatro das seis perguntas sobre as leis do futebol que colocámos aos nossos leitores, a resposta mais escolhida não é a correta. Pelos campos de futebol e pelos cafés, as leis do futebol não são claras para toda a gente. Mas não se preocupe: há coisas nas leis que não lembram ao diabo.

Trazemos leis desconhecidas, casos bizarros e até “malandrices” que a lei permite aos jogadores. Estas últimas deixamos para o final. Sim, estamos descaradamente a querer agarrá-lo até ao fim do texto. Para já, fique com os resultados do mini-teste Bancada, já fechado a participações.

Não, os resultados não são espetaculares e explicamos-lhe porquê. Começamos já com um vídeo e por uma das perguntas às quais a maioria dos leitores até acertou.

Como viu, o golo foi validado. E bem. O atacante do Benfica estava em clara posição de fora de jogo, podendo dizer-se que estava completamente “acampado”. Mas isso tinha um propósito. Ederson, guarda-redes que lhe passou a bola, fê-lo num pontapé de baliza. Caros leitores e, especialmente, caros defesas: no pontapé de baliza não há fora de jogo! Chega a ser embaraçoso ver defensores pedir fora de jogo em pontapés de baliza. Isto ficou mais vincado, nos últimos meses, nas situações em que os fortes pontapés de Ederson permitiam a Jimenez ou Mitroglou ficarem acampados e… sem qualquer marcação dos defensores.

Atraso de cabeça é válido? Nem sempre

Jogador atrasa a bola de cabeça, para o seu guarda-redes, que a agarra. Isto soa a ilegalidade? Possivelmente, não. Mas pode ser um comportamento antidesportivo. Vejamos o vídeo de Marco Verrati, jogador do PSG.

Como vimos, o jogador italiano deitou-se no relvado e, com a cabeça, passou a bola ao seu guarda-redes. O árbitro, e bem, assinalou pontapé livre indireto. A lei do jogo considera que, se um jogador se deita no chão para cabecear para o guarda-redes (ou se levanta a bola com o pé para depois a atrasar), está a incorrer em comportamento antidesportivo, por tentar contornar o espírito da lei, que pretende punir o guarda-redes que agarra a bola após um atraso de um colega de equipa.

Vamos, agora, para uma situação mais bizarra. Uma das tais que não lembram ao diabo. Imagine que, após um pontapé de baliza, a bola sai da área, entrando em jogo, mas, por efeito do vento, volta para trás e entra na baliza. No ventoso Estádio dos Arcos, em Vila do Conde, isto não será uma possibilidade meramente académica. Se isto acontecer, há golo? Não! Se a bola entrar na própria baliza após uma bola parada (pontapé de baliza, pontapé livre, canto ou até um lançamento lateral) deve ser assinalado um pontapé de canto a favor da equipa adversária.

Numa lei paralela a esta, ainda que diferente, podemos destacar ainda outro caso que, normalmente, passa despercebido aos guarda-redes. Se um jogador marca um livre indireto (do qual não pode ser obtido golo diretamente) e a bola se encaminha para a baliza adversária, o guarda-redes, se não quiser correr o risco de tentar defender, pode simplesmente deixá-la entrar na baliza. Beneficiará de um pontapé de baliza, porque sendo um livre indireto, não há golo direto.

Quantos somos? 12? Pode ser que o árbitro não veja…

Imagine que uma equipa marca um golo num momento em que tem 12 jogadores em campo, seja por que motivo for. A equipa de arbitragem não dá conta e o jogo recomeça com o pontapé de saída para o adversário. Logo a seguir, o árbitro apercebe-se de que a equipa que marcou tem 12 jogadores. O que fazer?

68% das pessoas que responderam ao mini-teste Bancada consideram que o golo deve ser invalidado. Caro leitor: após o recomeço do jogo, nenhuma decisão pode ser revertida e/ou corrigida. Houve golo com 12 jogadores? Sim. É injusto? Sim. Valida-se o golo? Sim. O árbitro deve reportar os factos no seu relatório e depois caberá à entidade organizadora decidir o que fazer. Mas que é golo, é.

Noutra situação referente a influências externas, destacamos uma que se passou recentemente, num jogo do Sporting B. Neste jogo, o jovem Nazyrov penetrou no terreno e tocou na bola antes de esta sair do campo. O árbitro fez o que lhe competia e assinalou penálti. Sabia que era assim? Recorde o lance.

Outra situação curiosa: Bola ao solo. Jogador ganha a bola, finta cinco adversários, corre até à baliza adversária e faz golo. É golo? Não. A lei diz que, depois de uma bola ao solo, pelo menos dois jogadores têm de tocar na bola, para poder haver um golo. É um princípio semelhante ao dos livres indiretos.

Alguns erros dos jornalistas e comentadores

“Bem assinalada a falta. O guarda-redes não pode ser tocado na pequena área, que é a sua área de proteção”. Já ouviu isto, não já?

Nada na lei de jogo diz que o guarda-redes não pode ser tocado na chamada “pequena área”. Ouvimos isto nos relatos, constantemente, onde se fala “da área de proteção do guarda-redes”, que não existe. Deve existir, sim, proatividade dos árbitros em compreender que, quando guarda-redes salta, qualquer toque, estando no ar, é suficiente para o desequilibrar. Os árbitros devem compreender a fragilidade do guarda-redes naquela zona e agir tendo isso em mente. No entanto, a moda de marcar falta de cada vez que alguém toca no guarda-redes não vem das leis, certamente.

As “malandrices” que a lei permite

Ponto prévio: jogadores que nos leem, não sigam estas coisas. Combinado?

Imagine que um jogador vai ser substituído e a sua equipa está com um resultado positivo. O que é que acontece? O jogador sai calmamente, baixa as meias, cumprimenta o árbitro e arranja ainda mais duas ou três manhas para queimar tempo. Irritados, os adversários pedem-lhe que se apresse. Querendo agilizar o processo, o árbitro pede-lhe que corra um pouco, para despachar a troca. Agiu bem? Não.

Nada nas leis do jogo diz que o jogador deve ir a correr. O jogador pode ir a andar, se assim o entender. O que não pode é parar o passo, durante o percurso, ou fazer as tais manhas de tirar as caneleiras, etc. Mas andar pode. E à velocidade que entender. Sobre isto, recorde o célebre lance da expulsão de Rui Costa, em 1997.

Segunda “malandrice”: por algum motivo, o jogo recomeça com bola ao solo. Geralmente, um jogador de cada equipa vai disputar essa bola. Fazem-no porque não sabem que, se assim entenderem, todos os 22 jogadores em campo lá podem ir. Quanto mais jogadores lá forem, maior probabilidade de ganhar a bola terá essa equipa.

Terceira “manha”: Nos desempates por penáltis, a lei estipula que as equipas devem estar sempre igualadas no número de jogadores. Isto porque se uma equipa tiver menos – e o desempate durar tanto que dê a volta aos jogadores –, o seu primeiro batedor (em teoria, o melhor) voltará a bater um penálti quando o adversário ainda terá o seu último batedor (em teoria, o pior).

Mas esta lei pode criar um precedente perigoso. Se uma equipa considerar que tem vários batedores mais fracos do que os do adversário, pode, por exemplo, pedir a sete ou oito dos seus jogadores para dizerem que estão lesionados. Assim, obrigam o adversário a excluir jogadores seus, para igualar as duas equipas, e o desempate far-se-ia entre um número limitado de jogadores. É absurdo? Sim. Mas seria uma "manha" impossível de penalizar.

Basta quereres…

A bola recebida do lançamento lateral é, possivelmente, uma das mais difíceis de controlar. A bola vem bombeada e, geralmente, de uma distância curta. As perdas de bola nesse tipo de lances são recorrentes.

Considerando que, nos lançamentos laterais, os jogadores devem lançar a bola com as duas mãos e por detrás da cabeça, nada impede que os jogadores se agachem. Agachando-se, não estão a cometer qualquer infração, e podem lançar a bola mais tensa e, sobretudo, mais direcionada ao pé do colega de equipa, facilitando-lhe a receção. Basta quereres, caro jogador…

Tens um problema nas botas e precisas de as trocar? Talvez não saibas, mas a lei permite que o faças dentro do terreno de jogo. No entanto, se decidires fazê-lo lá fora, já só poderás entrar com autorização do árbitro. Trocar o calçado dentro do campo? Basta quereres…

Ainda no calçado, há outro pormenor oculto para grande parte dos jogadores. Perdeste uma bota, mas tens a bola à mercê do teu remate ou de um passe de morte? Fá-lo! O árbitro não poderá castigar-te. Queres marcar um golo sem bota? Basta quereres…

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