Opinião
Rui Vitória no quarto ano, José Peseiro nem quatro meses
Carlos Daniel
2018-11-05 14:10:00
Carlos Daniel escreve no Bancada às segundas feiras.

O Sporting despediu um treinador no dia 1 de Novembro. O Sporting estava a dois pontos do primeiro lugar no campeonato, o técnico tinha chegado há três meses apenas e não fora eliminado em qualquer das outras provas em que participa. E tinha chegado ao clube após um Verão  em que os sócios tiveram de afastar o presidente anterior após uma série de episódios inauditos que incluíram uma cena inacreditável de agressão aos próprios jogadores. O plantel foi remendado à pressa e por uma comissão administrativa transitória. Muitos jogadores essenciais saíram e outros apenas agora, agora mesmo, nos dois últimos jogos, começavam a dar o contributo à equipa. O Sporting vinha do melhor jogo e da melhor exibição para o campeonato. O Sporting perdeu em casa um jogo menor, de uma prova não absolutamente relevante. O treinador foi despedido nessa noite.

Os sócios do Sporting, que tiveram de forçar a saída de Bruno de Carvalho, escolheram para liderar o clube o até então médico da equipa de futebol. Frederico Varandas, homem de voz serena e estilo tranquilo surgia apostado em devolver a estabilidade perdida. Ainda na campanha eleitoral, assumiu que a aposta no treinador José Peseiro estava certa e era para manter. A mesma estabilidade o recomendava. Enquanto os resultados foram positivos, muito positivos até no contexto, o Sporting parecia outro. Aos primeiros e adivinháveis desaires, voltaram os disparates, a começar por Sousa Cintra, o homem que o tinha contratado(!), que classificou Peseiro como “hesitante”. Logo Sousa Cintra, famoso pela certeza das convicções desde que despediu Bobby Robson num avião após um jogo europeu, pressionado por dois ou três grandes “conhecedores” do jogo. O Sporting que despede Peseiro desta forma é filho desse outro, o da instabilidade.

O cúmulo desta vez foi ser o próprio presidente do clube, Frederico Varandas, a fazer o pré-anúncio de despedimento, primeiro numa longa entrevista ao Expresso e depois numa conversa de podcast de um conhecido adepto. Discreto em tudo até então, Varandas mostrou que já tinha desistido de Peseiro e que a vitória confortável frente ao Boavista apenas adiara o destino traçado. Já não era apenas o desejo de ter “o melhor treinador”, era o aviso de que Peseiro poderia não ser solução para toda a época. É todo um compêndio de como não atuar, destratando Peseiro de uma forma que este não merecia. Independentemente do que se pensar dos seus méritos, tem um trajeto indiscutível de seriedade no futebol português e assumiu o Sporting numa aposta de grande risco (como agora se comprova). Imaginemos o que teria acontecido se Peseiro tinha ficado mais uns dias e ganho nos Açores, já que não foi decerto por mérito do sucessor episódico que os leões ganharam, em mais uma exibição descolorida. O Sporting estaria (como está) a 2 pontos dos primeiros e outros 2 à frente do Benfica. Não foi isso que aconteceu porque o Sporting despediu o treinador recém-chegado no dia 1 de Novembro, quando estava a dois pontos apenas do primeiro lugar no campeonato e não tinha sido eliminado em qualquer outra prova em que participa. Resta a Varandas provar que o holandês Keiser é a tal solução claramente melhor. Não vai ser fácil.

Grato à instabilidade de Alvalade pode estar mais uma vez o Benfica, agora que é quase unânime o que muito poucos viam há um par de meses e apenas dois ou três tentam explicar há alguns anos. Muitos dos que antes vitoriavam Rui Vitória, acenam-lhe agora com lenços brancos, mesmo que não saibam exatamente porquê. Será pelos resultados, claro, como se eles fossem a verdade única no futebol. Não são. Mesmo quando a águia saboreava títulos por inércia, eram vários os prenúncios de que este momento chegaria. Um rendimento coletivo em plano inclinado ia sendo disfarçado pela qualidade individual da equipa – este ano reforçada – aliada a uma habilidade para manter o grupo unido que Rui Vitória – reconheça-se isso – foi mostrando ter. Era pouco todavia para um clube com grandes ambições e talento disponível de fazer inveja aos maiores rivais. Aliás, os jogos com os grandes em Portugal (só 3 vitórias em 18 clássicos) e as cada vez mais sofríveis prestações europeias eram o teste do algodão. Quando o Benfica não tinha claramente melhores jogadores que o adversário de ocasião sofria bastante e perdia muitas vezes. Ao quarto ano no clube, Rui Vitória não apresenta um modelo de jogo eficaz e consolidado e não deixa perceber qual o critério de escolha de jogadores para cada jogo. O rodízio entre os jogadores de ataque, por exemplo, não apresenta um critério fácil de entender. No jogo frente ao Moreirense, o técnico encarnado lançou uma frente de ataque toda nova (João Félix titular depois de ter ficado na bancada no jogo anterior, Jonas em estreia na posição em que brilhou no ano passado mas onde não fora visto ainda esta época, Rafa derivado pela enésima vez para a direita).  Sobraram para utilizar durante o jogo Salvio, Castillo e Cervi, além de não terem alinhado sequer Facundo Ferreyra, Zivkovic e o lesionado Seferovic. Quem tem soluções deste nível não pode, ao quarto ano com o mesmo técnico, render tão pouco ofensivamente, perder sem discussão com Belenenses e Moreirense e estar de novo perto de se despedir sem glória da Liga dos Campeões. Luís Filipe Vieira chegou a uma encruzilhada. A menos que ocorra uma hecatombe frente ao Ajax – o que, apesar do mau momento não é previsível – poderá ser a partida em Tondela a determinar o futuro de Rui Vitória no Benfica. Um triunfo irá segurar o treinador mas deixará o clube sujeito à instabilidade que já chegou à bancada. Qualquer outro resultado complicará muito o trabalho do treinador seguinte, que será então uma fatalidade.

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