Opinião
Ronaldo como Ronaldo
Luís Catarino
2018-07-06 14:00:00
Em Turim, o Bola d’Ouro deve vestir a ‘maglia bianconera n.º7’ de Juan Cuadrado...

...e promete agitar a Serie A como o carioca Ronaldo há 21 anos, quando chegou a Itália vindo de Espanha.

Só falta a apresentação oficial com as riscas da zebra, mas Cristiano Ronaldo está prestes a virar a página e terminar um capítulo inolvidável em Madrid. Nos nove anos vestido de branco, CR tornou-se o maior goleador da história do emblema de Chamartín, destacado de Raúl, Di Stéfano, Santillana, Puskás e Hugo Sánchez. Têm a noção do que isto representa? Desafiando a hegemonia do Barça de Guardiola e Messi, ainda assim sagrou-se campeão espanhol duas vezes (com Mourinho e Zidane). No entanto, foi a glória europeia que verdadeiramente vincou a sua passagem pelos ‘blancos’: quatro Champions, com contributo determinante em todas essas edições, não é para todos.

CR chegou a Real Madrid com a camisola 9, uma vez que a 7 ainda era do mítico Raúl. Só quando o esquerdino rumou a Gelsenkirchen, para jogar no Schalke, é que o madeirense se transformou na máquina CR7 de cor branca, o modelo mais potente a arrasar no tapete do Bernabéu.

Isso não chegou para Florentino o desejar por mais tempo em Madrid. Hoje, o presidente que está com ideias de trazer Neymar para a capital espanhola, aceita ceder o atual Bola d’Ouro por €100M, quando há alguns meses nem novecentos milhões chegavam para o tirar do clube. Zidane percebeu que a corrente ia mudar e saiu antes da tempestade.

O folhetim Florentino-Cristiano dava um capítulo inteiro, é verdade. Entretanto, Agnelli e Marotta tentam despachar Higuaín e Rugani para o Chelsea de Sarri para ter logo os €100M de liquidez. É que a toda a operação para a Juve trazer CR para Turim pode chegar aos €350M, juntando o valor da compra do passe mais outros encargos como o salário, que deverá ser superior aos €21M limpos/época que atualmente aufere em Espanha.

Mas também é interessante fazer um sublinhado relativamente ao redimensionamento da Serie A com a chegada de CR a Itália, pois esta é uma aquisição que agita bastante e que até valoriza os próprios direitos de transmissão televisiva. Parecido com isto, nos últimos anos, só a ida do Ronaldo Fenómeno do Barça para o Inter, em 1997. O carioca era o melhor jogador do mundo, tinha feito uma época monstruosa com os blaugranas de Bobby Robson, e Massimo Moratti nem pestanejou quando teve a oportunidade de o tirar da Catalunha.

Curiosamente, o pai de Massimo e anterior presidente dos ‘nerazzurri’, Angelo Moratti, também já havia liderado uma compra do género, no início dos anos sessenta, quando pagou ao Barça um balúrdio pelo galego Luisito Suárez, então Bola d’Ouro, para acompanhar o treinador Helenio Herrera na construção da ‘Grande Inter’.

Mas a chegada de Ronaldo ao Meazza foi qualquer coisa e toda a liga italiana ganhou projeção e interesse com aquela aquisição. O Inter até venceu a Taça UEFA no Parque dos Príncipes contra a Lazio (‘Sandro’ Nesta lembra-se bem de Ronaldo!) Mas, no geral, o Inter não tinha uma equipa por aí além em 1997/98, a primeira época do Fenómeno. Gigi Simoni era o treinador e, com Ronaldo, também chegaram o ‘Cholo’ Simeone, bem como Cauet, Moriero e o talentoso canhoto uruguaio, Recoba. Talvez tivesse dado para ganhar a Serie A logo nessa temporada, mas ainda hoje os ‘interisti’ se lembram da deslocação ao Delle Alpi, em abril de 1998, designadamente do “tal” bloqueio de Mark Juliano ao Fenómeno que não foi assinalado por Ceccarini. Outras contas.

Olhando no presente, e entendendo que o Real Madrid já não o deseja da mesma forma, a Juve é um ótimo caminho para Cristiano continuar a rolar. E também não seria escandaloso vê-lo ganhar a Bola d’Ouro, apesar da ameaça crescente de Neymar e de Mbappé, dependendo daquilo que façam no Mundial que está a decorrer na Rússia.

O próprio Ronaldo Fenómeno, quando foi eleito melhor do mundo em 1997, fê-lo com a camisola do Inter, tendo realizado a primeira metade do ano civil no Barça, uma partilha semelhante à de George Weah, dois anos antes, quando ficou na foto com o troféu com as cores do Milan, mas tendo feito a outra metade no PSG. Cristiano não se importa de fazer um filme idêntico, por muita gratidão que tenha ao Real e que o Real tenha por ele.

Desde Pavel Nedved, em 2003, que a Juventus não tem um Bola d’Ouro eleito com as suas cores. O checo foi o sexto ‘bianconero’ a ganhar o troféu, sendo que essa foi a oitava ocasião, pois Platini fez um hat-trick de 1983 a 1985. Sivori, Rossi, Baggio e Zidane são os outros na galeria e Cristiano quer juntar-se a eles já nesta época. O último a ganhar o troféu, jogando na Serie A, foi Kaká, em 2007, precisamente com Cristiano em 2.º lugar. Depois do brasileiro do Milan ter ganho, só deu Messi e Cristiano.

Esta não foi a primeira “investida” da Juventus por Cristiano, pois os italianos já o tinham tentado comprar quando ele ainda era do Sporting, numa altura em que até era Quaresma a despertar mais atenção dos grandes emblemas estrangeiros, embora fosse uma questão de tempo até Cristiano se destacar de todos os outros. Moggi viajou com Jorge Mendes a Lisboa, Cristiano tinha interesse em ir para Turim, mas Marcelo Salas não quis ser moeda de troca no negócio, não estando muito a fim de jogar em Portugal. O ponta de lança chileno preferiu o River Plate e isso inviabilizou a transferência do diamante sportinguista para o Piemonte. Depois, chegou o Man.Utd e foi a história que se sabe.

Agora, em Turim, é uma nova página que se escreve. E vai mesmo deixar de estar em branco.

Luís Catarino é comentador da Sporttv e escreve no Bancada às sextas-feiras.

Sê o primeiro a comentar: