Opinião
Quanto vale uma lenda?
Manuel Fernandes Silva
2018-07-11 13:55:00

O Real Madrid pensou fazer-lhe uma festa de despedida, mas isso seria quase como celebrar o Natal no verão, porque o adeus não faz sentido quando ainda há futuro pela frente. Mesmo que seja noutro lado. Florentino Pérez poderia ficar apenas com a marca de ser um dos presidentes mais titulados de sempre, mas arrisca-se a cumprir a pena perpétua de ter trocado o melhor jogador da história do Real Madrid por um punhado de euros. Um grande punhado, mas insuficiente para apagar nove anos de paixão assolapada dos adeptos por um craque que foi fundamental para o regresso do grande Real Madrid europeu.

Alguma coisa mudou nos últimos tempos, porque as palavras de Cristiano Ronaldo em Kiev, depois da final da Liga dos Campeões, não pareceram apenas uma estratégia para forçar (mais uma) renovação de contrato. Desta vez sentia-se aquilo que o futuro acabou por confirmar: Cristiano Ronaldo queria mesmo uma mudança, apesar do risco que significa o verbo mudar quando conjugado com uma saída do Real Madrid.

Há uns tempos Ronaldo dizia que os 33 anos só estão estampados no cartão do cidadão e que em campo se sente como se sentia há uma década, quando namorava o Real Madrid, no final do casamento com o Manchester United. O capitão da Seleção Nacional mudou, já não é tanto um construtor de jogo, mas sim um finalizador. O melhor de todos, talvez o melhor de sempre. Em nove anos, Cristiano Ronaldo garantiu 451 golos ao Real Madrid e a tradução dessa excelência finalizadora foi a soma de títulos, num dos melhores períodos de domínio europeu do grande clube da capital espanhola.

Real Madrid e Cristiano Ronaldo foram quase uma entidade única, porque aquela segunda pele branca foi, desde o primeiro dia, o fato quase perfeito para o melhor jogador português de sempre. O problema foi a frieza correspondida de Florentino Pérez, um presidente que tratou sempre de pagar muito bem ao maior emblema da equipa, mas que nunca terá tido com ele uma relação de proximidade. Florentino tinha dentro de portas o maior símbolo da história do Real Madrid, mas pareceu sempre olhar para ele como a capa do livro (vistosa e brilhante, é verdade) e não como o capítulo mais importante dessa história. O alegado interesse na contratação de Neymar e a falta de apoio do clube na questão com o fisco espanhol poderão ter acelerado este desfecho. O desencontro entre Ronaldo e o presidente do clube "blanco" atingiu agora o ponto de não retorno, acentuado depois de Florentino Pérez ter reagido demasiado tarde à proposta da Juventus.

Perder Cristiano Ronaldo agora, aos 33 anos, parece ser ainda um risco demasiado elevado, particularmente porque a saída para Itália eleva a uma nova escala o grau de ameaça que a Juventus representa para o Real Madrid. Juntar Cristiano Ronaldo a Dybala, Mandzukic, Pjanic, Higuáin ou Douglas Costa é um exercício aliciante, mas é também uma notícia preocupante para as maiores potências do futebol espanhol e inglês. Massimiliano Allegri tem como missão criar o melhor mecanismo tático para conciliar no "onze" vários destes talentos, mas a verdade é que essa "dor de cabeça" é o sonho de muitos treinadores em todo o mundo.

Aos 33 anos, Cristiano Ronaldo vale 120 milhões de euros. Com estes números, assim tão colados, constrói um novo recorde: é o "veterano" mais valioso da história do futebol. Com ele em campo, os adeptos da Juventus passam a exigir sonhar com a conquista da Liga dos Campeões. Com ele em Turim, Florentino Pérez passa a ter um novo pesadelo. A maior lenda do Real Madrid foi embora.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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