Opinião
Os pares de ases
2018-09-24 14:00:00

Riquelme é o ídolo argentino que em tempos recentes só Maradona e Messi superam, nenhum outro, nem Bochini nem Aimar, nem Gallardo, Ortega ou Aguero, nenhum mesmo toca tão alto o coração dos adeptos – e os do Boca, em particular, naturalmente - como o único herdeiro respeitado da 10 azul listada a ouro que também foi de “El D10s”. Não teve sucesso idêntico na seleção, muito menos na Europa, apesar de também ter passado por Barcelona e sido símbolo do melhor Villareal que se recorda. Mas o Riquelme lendário equipa-se à Boca e faz parelha eterna com Martín Palermo. “Tive a sorte de jogar com o melhor 9 argentino dos últimos 20 anos. Ele (Palermo) tem muita culpa que as pessoas gostem tanto de mim”.

E o mais curioso é que Riquelme e Palermo nunca alimentaram sequer uma relação fora do campo, ao contrário de Platini e Boniek, amigos até hoje, mesmo depois da queda em desgraça do francês. Riquelme e Palermo não, fora do campo mal se falavam. Já dentro, quando a causa era a mesma, fazer golos, ganhar, tornavam-se dupla indestrutível, par perfeito num vínculo espontâneo que o treino apenas melhora. Há uma afectividade específica no jogo, aspectos emocionais que transcendem a tática ou a técnica e que são difíceis de explicar. Nada exclui a intuição, uma espécie de inteligência específica para o jogo – Maradona nunca ganharia um Nobel mas na cancha ninguém terá pensado mais rápido algum dia -, numa modalidade que acarinha gente de características complementares. Um jogador como Riquelme, lento a correr mas rápido a pensar, pouco agressivo sem bola mas sempre capaz de causar dano com ela, é um retrato perfeito dessa inteligência que define os melhores.

O futebol está longe de ser – mesmo longe – um jogo alimentado por superioridades físicas. Mesmo o tempo em que mais se aproximou disso, nas décadas de domínio de alemães e ingleses, está velho de 40 anos. É na tomada de decisão que está o segredo, na melhor opção em cada momento, que é sempre também a melhor ligação com o outro, com o próximo que intervém na jogada, arco e flecha, catapulta e pedregulho, Riquelme e Palermo como Platini e Boniek, Dalglish e Rush, Futre e Gomes, João Pinto e Jardel, Aimar e Saviola, Quaresma e Ronaldo. Ficam na memória essas parelhas dos que se distinguiam como água e azeite - Laudrup e Elkjaer-Larsen na melhor Dinamarca, Butragueño e Hugo Sanchez na lendária quinta de Madrid, Mancini e Vialli na Samp mais histórica, até Skhuravy e Aguilera, gigante e anão de um velho Génova - mas também sobram exemplos de gente idêntica que se acrescentava, que isso de ser parceiro eficaz não vive agarrado a diferenças morfológicas: Andy Cole e Dwight Yorke chegavam a confundir-se em cada lance daquele Manchester United, como Andy Gray e Graeme Sharp dividam jogadas à vez num Everton que não me sai da memória, como Manuel Fernandes e Jordão eram ambos dribladores e goleadores em alternância.

António Damásio, se se metesse nisto, saberia decerto explicar-nos como as emoções participam desde a origem nas decisões, permitindo conexões aparentemente inexplicáveis, de um atleta que se relaciona melhor que um outro só porque sim ou mesmo só dentro do campo. Trata-se de reagir a estímulos de modo mais rápido e competente, sem ter propriamente necessidade de pensar. É reconhecer em alguém uma capacidade de antecipar o que pensamos num jogo que é por definição caótico e imprevisível. O futebol entra, como tantas expressões de arte verdadeira, ou até da fé, naquilo que mais profundamente distingue os humanos: a capacidade de nos emocionarmos. Só interessa ganhar? Nada é mais absurdo neste a que chamamos de belo jogo. Interessa gostar, retirar prazer, até do sofrimento ou por oposição a ele. Quando os jogadores se complementam, agrupam a beleza do talento e o prazer duplica. É como no anúncio: satisfaz duas vezes.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas feiras.

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