Opinião
Os grandes e os pequenos frente ao vídeo-árbitro
António Tadeia
2017-09-12 14:00:00
Para se entenderem as movimentações dos clubes é preciso compreender a raiz do erro do árbitro: a autopreservação.

As atribulações do vídeo-árbitro têm levado muita gente a questionar a sua bondade e aqui não me refiro necessariamente às manobras de propaganda levadas a cabo pelos três grandes, sem exceção, cuja única intenção é a de manipular o sistema e torcê-lo a seu próprio favor sempre que possível. O que me interessa aqui discutir é outra coisa: o movimento entretanto nascido nos adeptos de clubes mais pequenos no sentido da constatação de que com o vídeo-árbitro os grandes são sempre beneficiados, que é a melhor forma de se lhes arranjar sempre um penalti ou a maneira de evitar golos aos adversários. Por uma razão muito simples: o que o vídeo-árbitro veio fazer foi acabar com o mito urbano segundo o qual os grandes eram sempre beneficiados nos campeonatos.

Além de alguns casos de desonestidade pura e simples, que os há em todas as profissões e deve havê-los também entre os árbitros, o que pode levar um árbitro a tomar más decisões? Acima de todas as razões, um sentimento de autopreservação. E esse sentimento, assim de repente, pode surgir em duas situações: receio de prejudicar os poderosos, sim, mas também – e talvez sobretudo – receio de ter influência em resultados, validando golos irregulares ou assinalando penaltis que o não eram. Tudo somado, as duas situações, acabavam por se compensar uma à outra. Isto é: um árbitro acabava por errar umas vezes a favor dos grandes, que tinham mais gente em lugares importantes, gente que podia ser decisiva no futuro da sua carreira, e outras – talvez a maioria – a favor de quem defende, para evitar ficar diretamente ligado a um resultado com uma decisão que viesse a ser dada como errada. Era indubitavelmente menos penalizador cortar uma jogada promissora por causa de um fora-de-jogo que depois vinha a revelar-se inexistente ou deixar passar um penalti que não se sabe se daria golo ou não e seria sempre discutível, do que deixar que um jogo acabasse 1-0 com um golo que a TV viesse a provar ser irregular ou com o mesmo penalti duvidoso e discutível.

Os grandes passam, como se sabe, mais tempo a atacar do que a defender, mais tempo com a bola do que sem ela. E essa é a explicação para factos tão simples como o de chegarem ao final das épocas com saldo negativo, por exemplo, no ranking do site casos.pt, que atribui pontos a favor e contra em cada decisão errada das equipas de arbitragem, consoante ela beneficia ou penaliza uma equipa. Isto, além de contrariar a tal teoria de senso-comum segundo a qual os três grandes são sempre beneficiados pelas arbitragens, vem também lançar alguma luz sobre o tal movimento que os adeptos dos pequenos começam a formar de modo espontâneo. Sim, o vídeo-árbitro veio beneficiar os grandes, mas apenas porque veio atenuar uma das justificações para o erro – o tal receio que levava a arbitragem a beneficiar quem defende – e motivar que os penaltis antes ignorados sejam agora marcados, que os golos antes validados de forma irregular sejam agora anulados.

Falta, é verdade, arranjar forma de erradicar a outra justificação para o erro: o tráfico de influências que pode levar os árbitros a beneficiar os poderosos. E, não tenham dúvidas: é para combater esta guerra que servem os programas televisivos de segunda-feira ou os comunicados, tweets ou entrevistas dos diretores de comunicação acerca de arbitragem.

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