Prolongamento
Oriental Dragon: com o coração na China e os pés bem assentes em Portugal
João Pedro Cordeiro
2018-04-06 21:00:00
Sempre com a casa às costas, chama-se Oriental Dragon um dos clubes mais peculiares do futebol português.

Por entra as célebres tortas, o vinho e o reconhecido queijo, quem visita Azeitão, por entre as paisagens idílicas da Serra da Arrábida, dificilmente o faz com o pensamento que, ali, naquela mesma terra, de quinze em quinze dias, jogou na segunda divisão distrital de Setúbal um dos clubes mais característicos dos escalões futebolísticos em Portugal. Nem sempre foi assim, porém. Esse clube é o Oriental Dragon FC. Fundado em 2014, é hoje o atual terceiro classificado da série A da competição. Um clube como nenhum outro em Portugal. Ou não fosse o Oriental Dragon, de certa forma, um clube Chinês a competir no futebol português. E sempre com a casa às costas. 

A realizar a terceira temporada da sua história, todas disputadas na segunda divisão distrital de Setúbal, o Oriental Dragon é um clube especial como talvez nenhum outro em Portugal. Fundado em 2014 pela Wsports Seven do empresário chinês Qi Chen - e com Carlos Gomes, antigo treinador do Benfica B como diretor para o futebol -, o Oriental Dragon surgiu no panorama futebolístico nacional para promover e potenciar o desenvolvimento de atletas chineses oriundos do país oriental, funcionando também como uma equipa secundária do Pinhalnovense. Foi, aliás, no Pinhal Novo que o Oriental Dragon disputou os seus primeiros encontros até se estabelecer no Estádio da Brejoeira em Brejos de Azeitão, altura em que atravessava a ponte para treinar nos campos secundários do Real SC em Massamá. 

Com a casa sempre às costas, o Oriental Dragon disputou a primeira fase da temporada 2017/18 no estádio do Moitense, passando a disputar a fase de apuramento de campeão, desde março, no Campo da Quinta da Carvalheira, em Alhos Vedros. Ao portal Jornal do Desporto, o treinador do Oriental Dragon, garantiu que esta é uma situação peculiar e que de alguma maneira lamenta. “Lamentar apenas o facto de o clube não ter massa adepta. Por essa razão, irá faltar o calor do público, mas nós temos de ultrapassar isso e jogar da melhor forma, respeitarmos todos os adversários respeitando-nos a nós próprios. Quer isso dizer, sermos muitos sérios no nosso trabalho diário para que possamos estar mais perto da vitória”, admitiu. 

Ao mesmo portal, Rui Fonseca explicou que o objetivo do Oriental Dragon não passa tanto por uma ambição classificativa, mas sim pelo desenvolvimento humano e profissional dos jogadores que vestirem a camisola do peculiar emblema. “Os responsáveis por este projeto querem fazer do Oriental Dragon um clube onde os jovens possam fazer a sua transição/passagem para um outro nível, trabalhar no sentido de valorizar os atletas e podê-los colocar em clubes de outro patamar. Os objetivos são os de apresentar domingo após domingo um futebol agradável assente em equilíbrios e tentar ter um futebol que não nos envergonhe, sermos ambiciosos no que fazemos sendo que a ambição pode-se mostrar de várias formas, pode ser na vertente individual, pode ser na vertente coletiva, não têm forçosamente que ser de uma ambição classificativa. Mas temos de ter sempre uma certeza, não vamos vencer todos os jogos, mas vamos entrar em campo sempre para vencer”, explicou. 

Como é de compreender face às características do clube, trabalhar com jogadores de nacionalidades diferentes, em especial quando parte parte do plantel é chinês, a este nível, encerra vários desafios que vão além de questões puramente desportivas. “Fácil não é, mas também não é nada de extraordinário, além do futebol ter uma linguagem internacional. Ter os atletas chineses que falam Inglês facilita as coisas, não tem havido problemas de comunicação entre nós”, rematou Rui Fonseca. 

Nascido pela mão da Wsports Seven de Qi Chen, empresário chinês há muitos anos envolvido no futebol português e que em 2006 trouxe para Portugal Yu Dabao - hoje ao serviço do Beijing Guoan - e em 2015 se tornou no acionista maioritário do Torreense, o Oriental Dragon nasceu com o intuito de ajudar o futebol chinês à distância como explicou o empresário ao Mais Futebol em 2015. “O objetivo deste projeto é aproveitar o conhecimento português na formação e melhorar o conhecimento técnico e tático dos jogadores chineses, e assim ajudar o futebol chinês a progredir. Os portugueses tratam bem os chineses. Eu gostava de criar uma ponte entre os dois países” explicou então Qi Chen. 

Nascido como um projeto totalmente chinês e por atletas jovens e ainda sem a maioridade atingida, o Oriental Dragon passou a integrar os escalões seniores do futebol português na temporada 2015/16. Antes disso, e até para contornar os regulamentos competitivos, Qi Chen promoveu a criação e desenvolvimento de uma competição jovem intitulada Future Stars Football League que permitiu à equipa do Oriental Dragon defrontar algumas das formações Sub-21 existentes em Portugal como o Vitória FC ou o Belenenses. Uma competição disputada em parceria com a AF Lisboa e AF Setúbal, disputada sobretudo a meio da semana e que contou com a participação de mais treze clubes dos dois distritos, cuja obrigatoriedade era apenas a de utilizarem jogadores chineses. A chegada à maioridade de alguns dos jogadores chineses que integraram as primeiras equipas do Oriental Dragon, bem como a inclusão de vários jogadores portugueses (os próprios regulamentos da AF Setúbal a isso obrigam) permitiram então ao Oriental Dragon integrar a segunda divisão distrital de Setúbal. Tudo isto, depois de um orçamento inicial que se estimou em 500 mil euros. 

"O objetivo para o clube é obter bons resultados. O objetivo para os jogadores chineses é eles poderem dar valor a esta plataforma e às condições que lhes estão a ser proporcionadas, aprendendo mais acerca do futebol em Portugal, da atitude profissional nos jogos e nos treinos, e que possam depois levar melhores ensinamentos para a China", explicou Qi Chen em entrevista à Agência Lusa. “Aproveitei a oportunidade para poder dar continuidade ao projeto de formação dos nossos jovens. Não tem sido fácil. Tivemos vários obstáculos, como os problemas de comunicação e as diferenças culturais. Tudo isso foi causando contratempos ao longo dos anos. Neste caso, acho que mesmo assim tem valido a pena, porque já conseguimos que alguns jogadores do nosso projeto seguissem para grandes clubes na China”, acrescentou ainda. 

Os projetos de Qi Chen em Portugal continuam, ainda assim, sem conseguir colocar um jogador chinês num grande clube europeu, algo que o empresário desdramatizou e admitiu ainda não ser a prioridade do seu trabalho e do Oriental Dragon. ““Tudo depende do jogador e do nível a que consegue chegar aqui em Portugal. Se conseguirem chegar a um patamar superior, a situação ideal seria uma transição para uma equipa da I ou II Liga aqui em Portugal ou para um outro clube europeu. Se chegarem ao limite da idade e não tiverem o nível que é esperado neles, terão de regressar à China e jogar na primeira ou segunda divisão chinesas”. 

A presença chinesa no futebol em Portugal é forte. Além da participação de empresários em diversos clubes, é a empresa Ledman a principal patrocinadora da segunda liga portuguesa. Qi Chen foi possivelmente o primeiro chinês a investir no futebol português e é dele a ideia da criação de um dos clubes mais particulares do futebol português. Se mais alguém lhe pode seguir, só o tempo dirá. “Desde que comecei a investir aqui em Portugal já atraí muitas atenções de clubes e investidores do futebol chinês e isso é sempre um cartão de boas vindas para outros investidores começarem a apostar no futebol português”, concluiu.

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