Opinião
O zero, o sonho e o “reality show”
Manuel Fernandes Silva
2017-12-06 13:50:00

O zero é um número nulo.

Foi assim o calvário europeu do Benfica, um percurso nulo e amplamente penoso, a todos os níveis. Há várias formas de ganhar alguma coisa na Liga dos Campeões, mas o tetracampeão português não andou sequer perto de assegurar qualquer pequeno triunfo: desportivo, financeiro ou de prestígio.

O Benfica não conquistou pontos e fica agora com o nome colado ao pior percurso de uma equipa portuguesa na Liga dos Campeões, conseguindo somar ao cataclismo desportivo o equivalente desastre financeiro.

É verdade que o plantel de Rui Vitória sofreu um corte de qualidade esta temporada, mas não foi uma queda livre que possa justificar um percurso tão mau na Europa. As fragilidades são de processo, porque essas perdas individuais quase nunca tiveram uma resposta coletiva à altura. Foi assim na Liga dos Campeões, como em alguns momentos das competições internas (menos recorrentes, porque os adversários são quase todos de nível inferior aos da principal prova da UEFA). A melhor face do Benfica (e essa melhor versão nunca surgiu nesta fase de grupos) aparece quase sempre ancorada em registos individuais e esse é um problema que não se vai embora com a despedida internacional da temporada.

O sonho do Sporting era legítimo, mas era obrigatório que o próprio Jorge Jesus acreditasse realmente nesse sonho.

Os leões entraram em Camp Nou a jogar em função do adversário, com muitas referências individuais e com dois “Messis” de fora: Bas Dost e Gelson só entraram na segunda parte e foi também apenas nessa altura que o Sporting entrou verdadeiramente na luta pelo resultado.

Os dois reforços vindos do banco acrescentaram ambição e posse de bola à vontade que Bruno Fernandes carregou praticamente sozinho nos 45 minutos iniciais. Depois do primeiro golo entrou Lionel Messi (o genuíno) e o Barcelona reencontrou o farol “extraterrestre” que lhe permite quase sempre chegar mais vezes e com maior perigo perto da baliza do adversário. Junte-se a isto a eficácia no aproveitamento dos poucos erros defensivos do Sporting e a falta dela nas duas oportunidades de que Bas Dost dispôs e torna-se mais fácil compor uma explicação para a derrota da equipa de Jorge Jesus.

O Sporting sai da Liga dos Campeões com a passagem garantida para a Liga Europa, mas além dos sete pontos conquistados, os leões conseguiram deixar uma imagem positiva nesta mudança de prova. A equipa de Jorge Jesus chegou a incomodar o Barcelona, bateu-se com a Juventus e demonstrou clara superioridade na luta com o Olympiakos pelo terceiro lugar. Num grupo tão exigente, não é coisa pouca.

“Reality show”.

Foi desta forma que o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, se referiu ao futebol nacional, mas no fim de semana passado alguns dos relvados portugueses estiveram mais próximos do cenário de um pequeno circo romano.

Com invasões de campo, agressões a árbitros e comportamentos desajustados de alguns dirigentes nos bancos de suplentes se construiu mais uma jornada de desamor pelo futebol, um sentimento que vai sendo regado a gasolina por tantos dos que se alimentam deste desporto.

Não há fórmula fácil para estancar esta hemorragia, mas também não se vislumbra uma solução que não passe pela musculação dos castigos. No meio de tanta gritaria, há cada vez menos margem para apelos (cheios de boas intenções mas ineficazes) ao bom senso. 

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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