Opinião
O vírus de agosto
Manuel Fernandes Silva
2018-08-08 14:00:00

Nos últimos dias algumas escolhas de alguns treinadores não terão sido completamente ancoradas em aspetos físicos ou táticos: a componente emocional colocou fora dos relvados jogadores que até há poucos meses eram fundamentais para Sérgio Conceição, Rui Vitória ou Abel Ferreira. Só que chega agosto e os problemas emocionais alastram. É como a gripe ou as queimaduras solares, que têm quase data marcada no calendário.  

A parte principal da culpa não está nas ambições ou vontade de mudança dos futebolistas, mas antes num modelo que continua a fazer coincidir o início de temporada com o fecho de mercado. Esta sobreposição de datas coloca num limbo os jogadores que receberam propostas (ou abordagens) e que ainda não saíram, mas que também não desejam ficar. Emocionalmente já estão noutro lado e o corpo também lhes diz que o melhor é não meter o pé. Ou até nem sequer treinar.

Este ano o “vírus” dos problemas emocionais começou com Moussa Marega, o avançado maliano que passou de crónico titular do FC Porto a “pouco empenhado” mais ou menos no mesmo tempo que se demora a dizer “West Ham”.  O clube inglês acenou com um saco cheio de libras e o jogador terá começado a imaginar que já estava em Londres. Há um ano Marega regressou ao FC Porto por falta de comparência de outras soluções para o ataque, mas provou com golos e exibições decisivas que poderia ter lugar de destaque no plantel de Sérgio Conceição. O técnico potenciou as qualidades do avançado e trabalhou num modelo que também permitiu esconder as limitações do melhor marcador do FC Porto no último campeonato.

Apesar da extraordinária temporada, Marega não passou a ser um craque virtuoso, por isso 30 milhões de euros acabaria por ser um valor muito interessante para os dragões (só que Pinto da Costa garante que não surgiu qualquer proposta concreta do West Ham). O divórcio até pode não aparecer, mas a relação ficará seriamente comprometida, mesmo que resista ao fecho do mercado inglês (amanhã, dia 09 de agosto).

Sérgio Conceição negou ter tido um braço de ferro com Marega, mas essa prova de força está agora a ser jogada entre Jonas e Luís Filipe Vieira. A diferença é que, por muito que o presidente do Benfica fale agora em renovação de contrato (por valores semelhantes aos atuais, ao que tudo indica), a prática da pré-temporada demonstra que Jonas já não está na lista de prioridades. O grande goleador do Benfica das últimas épocas terá perdido uma parte importante do “amor à camisola” quando viu chegar Facundo Ferreyra, um avançado argentino capaz de lhe roubar espaço e que aterrou no Benfica para ganhar quase o dobro de Jonas. A partir desse dia, o brasileiro começou a pensar numa nova vida e as fichas de jogo da pré-temporada demonstram que Rui Vitória passou a planear um ataque encarnado sem o melhor marcador da última época. Se agora houver um volte-face e Jonas renovar, acabará por ser surpreendente, apesar da última manifestação pública sobre o caso de Luís Filipe Vieira.

Vukcevic e Hassan ficaram fora da lista europeia do Sporting de Braga e António Salvador não deixou explicações por dar. Disse que os dois jogadores eram negociáveis e que por isso foram resguardados e colocados à margem do primeiro embate europeu da temporada. A saída de Vukcevic para o Levante confirma a prudência que se impunha, mas estas e outras transferências só reforçam a ideia de uma disparidade inconciliável entre o calendário desportivo e a janela das transferências. Só que as temporadas passam e nada muda. É um pouco como o horário de inverno. Chegados a outubro, já sabemos que vamos perder uma hora de sol. Quase ninguém gosta da mudança da hora, mas parece não haver forma de acabar com isso. Apesar de tudo, é provável que seja mais fácil fechar mais cedo a janela de transferências, até porque neste caso o que entra não é luz solar.

Nos primeiros jogos oficiais da temporada o FC Porto não teve Marega, Rui Vitória não contou com Jonas e Abel Ferreira não vai utilizar Vukcevic e Hassan. Há um claro prejuízo desportivo que os timings do mercado impõem aos clubes e aos treinadores. E ainda faltam três semanas.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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