Opinião
O que vale uma Champions
António Tadeia
2017-12-05 14:00:00
Na última jornada da Champions joga-se por objetivos, prestígio, milhões... E por não cair na Liga Europa.

Joga-se a jornada decisiva da Liga dos Campeões e em Barcelona só se fala de Mascherano, que até está lesionado e fora do desafio com o Sporting mas parece que quer ir para a China em Janeiro. Chegam os jornais portugueses e vejo que Rui Vitória vai aproveitar o jogo com o FC Basileia para “premiar” os jogadores menos utilizados. Especula-se acerca da utilização de Messi contra os leões e até Jorge Jesus veio falar de uma nova abordagem: a dos “dois jogos que aí vêm”, para dar a entender que mais logo, no Camp Nou, não estará a pensar apenas na Liga dos Campeões, mas também na Liga portuguesa e em poupar jogadores para a partida com o Boavista, marcado para o próximo sábado. Neste caso, parece “bluff” evidente, mas tudo junto leva à pergunta: afinal, o que vale a Champions?

É evidente que o valor da Champions depende das circunstâncias. Para o Benfica não vale nada, porque já está fora. Para o FC Barcelona não vale muito, porque já é primeiro do grupo, dê por onde der. Para o Sporting e o FC Porto vale tudo, porque os objetivos ainda lá estão e, mesmo que com muito maior dificuldade e dependência de terceiros por parte dos leões, merece a pena lutar por eles. Também é claro para mim que a Liga portuguesa vale muito mais para o FC Porto – que não há ganha há quatro anos – e para o Sporting – que não é campeão há 15 – do que para o Benfica, que a joga como tetra-campeão e cujos adeptos estarão mais disponíveis para admitir um percalço. Mas aqui chegado vale a pena fazer outra pergunta: a Champions pode prejudicar os esforços das equipas portuguesas na luta pelo título nacional? Francamente, não acredito.

Aliás, é mais ao contrário. Tem alguma razão Rui Vitória quando diz que a eliminação na Liga dos Campeões levará o Benfica a concentrar-se mais nas competições que lhe restam. Os “spin doctors” da Luz, aliás, já começaram a fazer o seu papel e a tentar transformar a desastrosa campanha europeia da equipa em vantagem competitiva sobre os rivais na Liga portuguesa. Mas nem tudo é assim tão linear. Por exemplo, a dúvida que cai sobre o rendimento dos campeões nacionais neste momento tem muito mais a ver com o que mostraram na Europa do que com o que se lhes tem visto a nível interno. A quebra da credibilidade da candidatura encarnada ao penta tem mais a ver com as três derrotas com CSKA e FC Basileia (os jogos com o Manchester United nem entram nestas contas) do que com os três pontos de atraso para FC Porto e Sporting. E já se sabe que um dos aspetos fundamentais para que uma equipa renda dentro de campo é a crença em si mesma. Ou pelo menos a capacidade para transformar maus resultados em assomos de orgulho, união e revolta.

Diferente é o cenário que se coloca a FC Porto e Sporting. Porque dê por onde der, ambos já sabem que continuam europeus no final do Inverno. A questão que falta definir é: quando e em que prova? E aqui é bem melhor para ambos que seja na Liga dos Campeões do que na Liga Europa. Primeiro, porque a Champions tem menos uma eliminatória. Depois porque enquanto na Liga Europa qualquer dos dois terá a obrigação de se assumir como candidato a ir até ao fim, na Champions não será fácil passar da primeira ronda primaveril. No fundo, dificilmente uma continuidade na Champions irá além dos dois jogos – até porque nem FC Porto nem Sporting pode aspirar a mais do que o segundo lugar no grupo e três das quatro equipas portuguesas que chegaram aos quartos-de-final nos últimos dez anos o fizeram depois de serem primeiras no seu grupo. Já a passagem à Liga Europa acarreta responsabilidades competitivas diferentes: além de implicar competição logo a partir de meados de Fevereiro (15 e 22, esta época), essa competição é bem mais enquadrável nos planos de conquista das equipas nacionais. Aliás, basta ver que nesses mesmos dez anos, Portugal teve dez equipas nos quartos-de-final, que neste caso, ainda por cima, implicam pelo menos mais seis jogos (três eliminatórias). Quatro delas chegaram à final.

Portanto, quando Jesus diz que os treinadores olham para todos os jogos já a pensar no seguinte, pode nem estar a fazer bluff total, na medida em que se o jogo de Camp Nou começar a correr-lhe mal pode sempre mudar de perspetiva em curso. Mas não há nada pior para as aspirações de uma equipa numa Liga ainda assim exigente como a portuguesa. São mais jogos, mais exigência, menos tolerância e ainda a necessidade de fazer jogos de campeonato à segunda-feira, com menos gente a apoiar do que à sexta e ao sábado, que são os dias em que jogam as equipas que estão envolvidas na Champions. E Jesus nem precisa de recuar a 2012/13, a época fatídica em que, ainda no Benfica, esteve prestes a ganhar tudo e não ganhou nada. Bastar-lhe-á lembrar-se de 2015/16, o seu primeiro ano no Sporting: grande parte da credibilidade da candidatura que montou ao título nacional passou pela abdicação da Liga Europa, onde os leões jogavam muitas vezes com segundas figuras. Será também a pensar nisso que o Sporting – e o FC Porto – entram na última jornada da fase de grupos da Champions.

 

Sê o primeiro a comentar: