Opinião
O Nápoles já é campeão
2018-04-23 14:00:00

Cito muitas vezes Santiago Segurola, jornalista espanhol de vários saberes desportivos, por nos ter avisado de que "só os miseráveis se atrevem a dizer que o Brasil de 82 não foi campeão do mundo". Apliquem o mesmo ao SSC Nápoles deste ano, sff. Quero lá saber se ficam com o troféu no fim ou se é a Juventus a festejar de novo, no seu conjunto de individualidades fantásticas que talvez valham o dobro e tenham custado o quádruplo. Fazer história no futebol é muito mais que ganhar, é deixar marca, é emocionar. O que o Nápoles tem feito só não emociona quem não gosta do jogo, que nenhuma outra equipa na Europa é colectivamente mais competente que os italianos do sul e nenhuma outra equipa com aquele orçamento -  bem abaixo de Juve, Inter e Milan, próximo do que gasta a Roma - estaria a disputar palmo a palmo este título em Itália, a 4 rondas do fim.

O jogo deste domingo em Turim é para colocar numa moldura e olhar como um quadro de autor. Assinatura: Maurizio Sarri, o maior génio da história do futebol napolitano depois de Maradona. Os 90 minutos foram (todos!) de condicionamento perfeito da construção contrária, de qualidade e confiança em posse, de procura do golo seguindo o caminho treinado sem precipitações. A impressão digital de Sarri é a coisa mais bonita que o futebol europeu tem hoje para reconhecer. Aurelio de Laurentis, o presidente do Nápoles que é produtor de cinema, explicou que escolheu Sarri para realizar este ciclo do clube por ser "um grande estudioso do jogo". Aí está uma bela razão para contratar um treinador, seguramente rara em Portugal e não apenas.

O Nápoles é uma lição com e sem bola. Se ela, é uma equipa que merece ser observada com drone - o que Sarri promoveu nos treinos - para se perceber a harmonia de movimentos e aquela ciência de saber mover-se sem correr atrás de cada rival que passa. Quem quiser estudar uma zona verdadeira só pode começar por aqui. Controlar os espaços é o segredo, tanto aqueles que o adversário busca para receber bola como aqueles por onde ela circula. Em nenhum momento se viu Jorginho ou Alan a perseguir Dybala e em todos os momentos (até ao intervalo, quando foi substituído) o genial argentino esteve transformado num elemento supérfluo, simplesmente porque a bola não lhe chegava. Claro que, em boa parte, não lhe chega porque o Nápoles a tem mais tempo. Recuperar a posse está longe de ser um fim para os napolitanos, que gostam de cuidar da bola, estimam-na mesmo, todos eles, defesas, médios, avançados, até o guarda-redes. Reina é, aliás, sempre o primeiro que sabe o que fazer para construir, que a ideia é criar a partir de trás, de preferência por baixo, com critério e paciência, sempre em busca de superioridade além de cada linha de pressão do rival, nos melhores princípios do jogo posicional. É uma equipa que explora o jogo interior e as combinações no corredor central como ninguém, muitas vezes em admiráveis passes de primeira e beneficiando da largura obrigatória dada por laterais que sabem porque razão sobem no campo (e não, nunca é para cruzar a três quartos do campo, com a baliza ao longe). A relação com os extremos é trabalhada ao pormenor e as variações de corredor mais longas só ocorrem quando encontram alguém solto no espaço e virado para o ataque, que para sair da pressão lhes basta uns palmos de relva. São uma máquina.

Claro que os jogadores contam, e que o Nápoles os tem de qualidade, mesmo se a Juve lhes levou a mais decisiva individualidade, Higuaín, no início da época anterior. O substituto adquirido, Milik, assombrado por lesões várias, só neste final de época está a dar alguma ajuda, sempre saído do banco. Além dele, Sarri só tem para lançar durante as partidas, gente jovem como Zielinski e Rog, polaco e croata descobertos com arte garimpeira. Não é pela fartura de soluções individuais que se pode explicar com seriedade o sucesso desta equipa, antes pela facilidade com que o génio táctico de Sarri - que andou perdido a trabalhar na banca até depois dos 40 - encontra novos caminhos e desenvolve competências. Farto de saber que o futebol não é um jogo de artes físicas fez de Mertens e Insigne, meias lecas de corpo mas talentos inteiros, as armas certas para atacar sem ter o tradicional homem de área. Só que ninguém como eles desenvolveu a qualidade de receber entrelinhas, rodar, passar, ir buscar, além de que vivem igualmente felizes em  espaço curto como em terreno aberto. Como perdido Ghoulam por lesão, fez de Mário Rui um lateral de selecção, a exibir o que tem de melhor - qualidade técnica, inteligência a decidir, critério no passe e no cruzamento. E também fez de Jorginho, metrónomo invisível, um médio sem falhas que equilibra a equipa em todos os momentos, e fez crescer Alan, pequeno dínamo também pescado em equipas medianas, como resgatou Albiol e Callejón que hoje em Madrid talvez nem no banco tivessem lugar. Até cansa. Ah, e transformou Koulibaly, sem favor, num dos melhores centrais do mundo. Montanha intratável pelo ar e nos duelos, o senegalês é muito mais do que isso, também um construtor de qualidade rara, que sabe tirar adversários da frente e passar com risco. A competência dos centrais com bola (até Albiol) é uma das grandes marcas deste Nápoles para a história. Por isso, pelo que cresceu como futebolista e significa na ideia de jogo, talvez ninguém como o gigante da camisola 26 mereceria tanto aquele golo que reabriu a luta pelo título. Como Angel Cappa explicou "podes ganhar ou perder com qualquer ideia mas sem ter uma ideia nunca vais saber jogar bem". O Nápoles tem a melhor ideia. Já ganhou.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.