Prolongamento
O método Monchi, o Rei Midas do futebol mundial
Mauro
2018-06-29 20:00:00
É considerado um mestre na compra e venda de jogadores e tenta replicar na AS Roma o sucesso que obteve no Sevilha FC

Ramón Rodríguez Verdejo, conhecido no mundo do futebol por Monchi, diretor desportivo da AS Roma desde a época passada, está a replicar no clube italiano aquilo que construiu durante 17 anos no Sevilha FC.  Um método simples e eficaz que se baseia na contratação de jogadores que são valorizados e depois vendidos por altas quantias, para além de um olho clínico para a descoberta de futuros talentos, que já lhe mereceu o epíteto de “Mágico das transferências” ou “Rei Midas do futebol mundial”. E vai conseguido aliar a isto, resultados.  O clube espanhol venceu vários títulos com Monchi como diretor desportivo, nos quais se destacam cinco taças UEFA/Liga Europa, e logo na época de estreia no emblema italiano “ameaçou” com a meia-final da Liga dos Campeões.

Neste defeso, Monchi está a ser igual a Monchi e com a intenção de melhorar a performance desportiva da equipa, terceira classificada na liga italiana da época transacta, que continuará a ser orientada por Eusebio Di Francesco. Ainda não estamos em julho, e a AS Roma já contratou 10 jogadores e vendeu nove, desembolsando 94,9 milhões de euros e arrecadando 59,3 milhões de euros. Mas ainda há dois meses pela frente… De todas, destaque para as contratações de Pastore e Justin Kluivert. O avançado argentino chega do PSG por 24,7 milhões de euros, que não rendeu o esperado na equipa francesa, e o jovem dianteiro holandês, de 19 anos, filho de Patrick Kluivert, proveniente do Ajax por 17,25 milhões de euros. O espanhol Iván Marcano, ex-FC Porto, os italianos Bryan Cristante, ex-Benfica, Antonio Mirante, Nicoló Zaniolo e Davide Santon, o francês Defrel, o checo Schick e o croata Ante Coric são os outros reforços já garantidos para a próxima temporada. Em sentido inverso,  a maior venda até agora registou-se com o belga Nainggolan para o Inter, por 38 milhões de euros.

Na AS Roma, Monchi seguiu o mesmo caminho traçado no Sevilha. Assumiu o planeamento total da temporada 2017/18, viu o ídolo Totti encerrar a carreira e vendeu jogadores como Salah, Rüdiger, Paredes e Ricci. Os quatro renderam 104,5 milhões de euros ao clube romano, e gastou 64, 8 milhões com oito reforços: contratou o lateral direito Karsdorp, campeão holandês com o Feyenoord, os brasileiros Bruno Peres e Juan, assim como o médio italiano Lorenzo Pellegrini, o lateral esquerdo português Mário Rui e o defesa mexicano Héctor Moreno.

Um legado desportivo e financeiro difícil de igualar

O antigo guarda-redes do Sevilha revelou-se um diretor desportivo de excelência, reinventado o próprio cargo, um especialista no mercado de transferências. Depois de quase 30 anos no clube, como jogador e diretor desportivo Monchi mudou-se na época passada para a AS Roma, mas deixou em Sevilha um legado desportivo e financeiro difícil de igualar. O clube espanhol não cresceu o suficiente para se bater de igual para igual com o Real Madrid ou o FC Barcelona (continua apenas com um título de campeão em 1946), mas conquistou cinco títulos na Taça UEFA/Liga Europa, uma Supertaça Europeia, duas Taças do Rei e uma supertaça espanhola.

Igualmente impressionantes foram as mais-valias gerados pelos negócios que Monchi fez, entre jogadores da formação e outros que chegaram ao Sánchez Pizjuán como desconhecidos e saíram de lá como estrelas. Em 17 anos de gerência, e 151 reforços contratados, obteve 200 milhões de euros de lucro ao clube andaluz.

Foi Monchi, por exemplo, quem descobriu Dani Alves no Bahia em 2002. O brasileiro custou 1,3 milhões e, em 2008, foi vendido ao FC Barcelona por 35 milhões. O Barcelona tem sido, aliás, um cliente habitual do Sevilha. Depois de Alves, o gigante catalão também lá foi buscar Rakitic (18 milhões), Alex Vidal (17 milhões), Keita (17 milhões) ou Adriano (10 milhões). O Real Madrid também tirou partido do viveiro do Sevilha. Sergio Ramos (27 milhões) e Júlio Baptista (25 milhões) são dois exemplos. E o Atlético de Madrid também lá foi “raptar” Kevin Gameiro por 32 milhões.

Outros grandes negócios de Monchi foram igualmente as transferências de Krychowiak para o Paris Saint-Germain (32 milhões), do colombiano Carlos Bacca para o AC Milan (30 milhões) e de Geoffrey Kondogbia para o AS Mónaco (20 milhões). Para além de Sergio Ramos, a cantera do Sevilha também rendeu bastante, com Jesús Navas (Manchester City, 20 milhões), José Antonio Reyes (Arsenal, 20 milhões) ou Alberto Moreno (Liverpool, 20 milhões). O método de Monchi também passou pela recuperação de jogadores que não estavam propriamente em alta, como Luís Fabiano ou Frederic Kanouté. Estes não foram grandes mais-valias financeiras, mas pagaram a transferência com muitos golos.

Monchi também acertou nos treinadores, com especial destaque para quatro nomes. Joaquin Caparrós pegou na equipa no regresso à I divisão e deixou as bases para o duplo êxito europeu de Juande Ramos. As conquistas da Liga Europa voltaram com Unay Emery ao comando e isso valeu uma transferência do técnico basco para o Paris Saint-Germain. Seguiu-se o argentino Jorge Sampaoli, que na época 2016/17 chegou a andar muito perto do primeiro lugar e, a certa altura, colocou a imprensa espanhola a proclamar que o Sevilha era um candidato ao título. Sampaoli saiu entretanto para a seleção argentina.

Do medo de sair à rua a obecado com o telemóvel…

Como guarda-redes, Monchi foi discreto, não passou de eterno suplente na equipa andaluz, ao mesmo tempo que tirava o curso de direito. Por acaso, ou talvez não, tornou-se diretor desportivo num momento crítico do clube andaluz, agarrou a oportunidade e tornou-se numa figura mítica do clube. Não desliga o telemóvel, nem no cinema, e não tem mais de quinze dias de férias por ano. É o preço a pagar pelo “monstro” que ele próprio criou, como o mesmo Monchi já o admitiu: uma pessoa obececada pelo trabalho, por comprar barato e vender mais caro.

Um método que deu frutos no Sevilha, que com ele ganhou estabilidade interna e cinco ligas europeias, e está agora a replicar na AS Roma. Longe vão os tempos em que Ramón Rodriguez Verdejo “Monchi” tinha de sair do Ramón Sánchez Pizjuán escondido na bagageira de um carro e tinha medo de sair à rua por causa dos adeptos do Sevilha descontentes com o caminho errante da equipa para o abismo. Em 1999, então na 2ª divisão espanhola, Monchi deu por encerrada uma carreira de 11 anos como jogador para abraçar a de diretor desportivo. Sem dinheiro para gastar, e tendo como objetivo subir, conseguiu o feito na época seguinte. Era o início de um legado difícil de igualar no clube da Andaluzia. Um legado de glória de um diretor desportivo que subiu na hierarquia do futebol espanhol graças a um modelo de gestão desportiva bem assumido. “Monchi conseguiu inventar um modelo de trabalho que não somente consegue o sucesso desportivo, mas também muito dinheiro nas negociações”, resume o jornalista Daniel Pinilla, autor do livro “O Método Monchi”.

O trabalho de Monchi no Sevilha foi reconhecido no dia da despedida dele, quando foi ovacionado por milhares de adeptos no estádio Ramón Sánchez Pizjuán. “A despedida dele no estádio reflete o que representou Monchi para o Sevilha como diretor desportivo. Ele contribuiu para o grande crescimento do clube com grandes contratações e transferências de jogadores. Apostou em muitos jogadores que estavam em baixo, e recuperou vários. Sempre foi uma pessoa muito próxima do balneário”, explica o jornalista Alvaro Palomo, do diário “Estadio Deportivo”, de Sevilha, que revela alguns dos segredos de como trabalha Monchi: “Como diretor desportivo criou uma rede de olheiros no planeta do futebol que o permitiu controlar a maioria dos mercados com perfeição. Negociava de forma simultânea com vários jogadores, porque quando falhava o plano A tinha sempre outras alternativas. Graças a ele, o Sevilha tornou-se um clube de referência mundial”. Luís Fabiano, antigo jogador do Sevilha, recorda o ex-diretor desportivo do clube andaluz, em declarações reproduzidas no “GloboEsporte”: “Tinha uma relação muito boa com a maioria dos jogadores, porque era ele quem contratava. Negociava, conversava, como fez comigo. Era muito próximo da equipa, mais até do que o presidente”.