Opinião
O futebol e os atrasados mentais: culpa do wrestling
António Tadeia
2018-03-13 14:00:00
Faz-me confusão como é que se perde tempo a olhar para o futebol quando se acredita que está tudo comprado e combinado.

Luís Castro não o disse mas deixou-o implícito e eu posso escrevê-lo: o futebol em Portugal está cheio de atrasados mentais. Somos campeões da Europa e estamos a deitar ao lixo uma janela de oportunidade única de rentabilizar uma atividade de sucesso, porque somos cada vez mais incapazes de ver a fotografia completa. A culpa é dos posts de Facebook, das contas de Twitter, da doutrina envenenada passada pelos canais dos clubes... De gente que sacrificaria a própria mãe se isso lhes garantisse uma vitória e, melhor ainda, uma derrota do rival – porque para muita gente o que importa não é ganhar, é sim que os outros percam. Depois, a culpa também é vossa, leitores, porque a maioria de vós só quer lixo. E é nossa, jornalistas, que para sobreviver tantas vezes vos damos lixo para subirmos um pouco os nossos números e adiar o encerramento das publicações.

Concordo com Luís Castro na questão dos emprestados e, sobretudo, com essa declaração que vai ao âmago da questão do futebol em Portugal, onde o que mais manda “é a desconfiança”. “Chegamos ao ponto em que se perdemos por três, quatro ou cinco, estamos vendidos não sei a quem. Se ganhamos, estamos comprados não sei por quem”, disse o treinador do GD Chaves. E isto, Luís Castro, aplica-se aos jogadores e aos treinadores, mas também aos jornalistas, que se elogiam a prestação de um jogador ou de uma equipa grande é porque são avençados e se criticam também são avençados, mas vão receber ao outro lado. E aplica-se aos árbitros, mas aqui há já muitos anos – se bem que este ano há a inovação do VAR, que para o comum dos portugueses também está à venda.

Em relação aos emprestados, já várias vezes o disse e mantenho. Num futebol onde haja um pingo de sanidade mental aconteceriam duas coisas: esses jogadores poderiam jogar contra o clube detentor dos seus passes e nenhum clube poderia emprestar mais de, imagine-se, três jogadores aos 17 rivais do mesmo campeonato. Não é três a cada um dos 17. É três aos 17, para evitar que se desvirtue a competição e que se criem condições de desigualdade. Porque é que isto não é assim? Porque, no senso comum, da mesma forma que um pequeno nunca ganha a um grande se não estiver pago por outro e nunca é goleado se não estiver corrompido pelo adversário daquele dia, também aqui só se olha para os interesses dos grandes. Os grandes mandam e os seus interesses jogam-se aí há muito mais tempo do que na comunicação que manda espalhar a doutrina dos facilitadores e que, ela sim, é uma inovação recente. Disto, Luís Castro sabe, porque também já esteve num grande.

Da mesma forma que descobriram agora que podem envenenar o panorama mediático aproveitando a abertura – mais que a abertura, o benefício dado – das redes sociais à toxicidade da comunicação, os grandes já aprenderam há muito tempo que podem envenenar a seriedade de uma competição espalhando dezenas de jogadores pelos outros clubes, enfraquecendo-os quando são eles a estar do lado de cá e fortalecendo-os quando é preciso defrontar um rival direto. Esta é a questão concreta. Mas se queremos ter um mínimo de hipótese de a atacar é preciso ir ao fundo da questão e perceber por que razão o regulador sente a necessidade de se defender através de regras como a proibição de os emprestados defrontarem o seu clube – e que não é exclusivo de Portugal, é bom que se diga.

E o fundo da questão é a tal desconfiança de que fala – e bem – Luís Castro. No fundo, aquilo que a mim me faz confusão é perceber como é que as pessoas ainda vão ao futebol, como é que perdem tempo a olhar para um jogo, se no fundo acham que está tudo comprado. Já tinha idade para ter juízo – felizmente – quando surgiu por cá a febre do wrestling, dos combates encenados para o espetáculo, que a dada altura contaminaram a sociedade adolescente em Portugal. “Toda a gente via aquilo”, explicou-me há dias um companheiro de redação, que tem metade da minha idade. A mim, ver homens adultos de maiô ou calças de licra a simular que davam tareias noutros homens adultos de maiô ou calças de licra parece-me tão desinteressante como ver homens adultos de calções a simular que jogam futebol contra outros homens adultos de calções.

Afinal, vai-se a ver, a culpa é do wrestling. Do Undertaker e do Hulk Hogan. Agora é só perceber qual dos grandes os comprou...

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