Opinião
O dualismo entre clubes e SAD
2018-01-27 13:50:00

O caso que opõe a SAD ao clube no Belenenses é rico em ideias que um observador português não consegue apreender. Vista de Portugal, parece não ser mais do que o confronto entre duas almas diferentes de uma mesma entidade futebolística, algo que acontece e continuará a poder acontecer. Vista de Itália, porém, esta história apresenta aspetos originais e extremamente interessantes. Porque é precisamente esse conceito de dupla alma que não conseguimos entender.

Em Itália, vimos de uma experiência completamente diferente de institucionalização das organizações desportivas, que por sua vez é filha de uma cultura desportiva também ela completamente diferente. E é no momento em que faço a comparação entre estas duas experiências culturais que digo que, com todos os seus defeitos, a portuguesa é superior à italiana. Passo a explicar porquê.

A riqueza da experiência portuguesa está no facto de ser fruto de uma forte alma associativa. O clube é antes de tudo um acontecimento de participação popular. O aspeto competitivo chega mais tarde, porque o que une as pessoas em primeiro lugar é uma partilha de valores. Em cada localidade italiana, o clube desportivo é uma parte importante da identidade local, mas nem sempre isso abre caminho à participação democrática. Já em Portugal, tal como em Espanha, a identidade do clube é sobretudo responsabilidade. Quem se faz sócio sente-se movido por um dever, mais até do que por uma paixão – e este dever está no facto de o clube ser entendido como um bem coletivo do qual todos os sócios devem cuidar. Neste sentido, até o apoio à equipa se torna um facto de participação democrática.

Este modelo funcionou até uma fase relativamente recente e foi depois posto em causa pelo crescimento da dimensão económica e financeira do futebol. Chegou-se progressivamente a um estado no qual a gestão dos clubes com base associativa deixou de estar em dia com a modernidade e no qual para se competir ao mais alto nível é preciso transformá-los em sociedades de capitais. Esta transição leva à criação de uma estrutura dual: de um lado o clube, que continua a representar a dimensão associativa; do outro, a SAD, que se ocupa da dimensão económico-financeira. E entre as duas entidades pode criar-se o conflito, porque são portadoras de mentalidades e finalidades dificilmente conciliáveis. É o que acontece agora no Belenenses e já aconteceu em muitos outros locais da Península Ibérica.

Estes conflitos são vistos por quem os vive como a expressão dos limites do novo modelo. Mas para mim eles são antes uma expressão de vitalidade do velho modelo associativo, que assim encontra nova vida. Já não podendo ser a central de “governance” de um clube, continuam a ser um instrumento de controlo e garantia para impedir que as políticas adotadas pela SAD sejam danosas para o clube e a sua história. É isso que nos falta em Itália, onde os clubes desportivos não têm este “background” de participação. Para nós, italianos, a ideia de uma cisão entre clube e SPA (a nossa versão das SAD) não é sequer possível porque o clube e a sua propriedade foram sempre considerados uma única coisa. Infelizmente, aqui, os clubes foram sempre vistos como estruturas destinadas a acabar nas mãos de mecenas ou empresários, numa lógica de panem et circenses [pão e circo].

A ideia de que a própria equipa possa ser fruto de uma estrutura de participação democrática sempre foi vista como algo de estranho e ainda difícil de enraizar, mesmo tendo já sido dados grandes passos em frente. Em Itália, o adepto continua, na melhor das hipóteses, a ser visto como alguém cuja participação é meramente afetiva e emotiva e que espera por um rico proprietário capaz de lhe oferecer um sonho, investindo no clube. E se esse sonho acaba por se transformar num pesadelo, a reação é quase sempre fatalista em vez de ser ativa. É por isso que o dualismo entre clubes e SAD, que tão frequentemente acontece em clubes portugueses, representa uma situação muito mais avançada. De democracia futebolística consolidada.

 

Pippo Russo é um jornalista e sociólogo italiano que escreve no Bancada ao quarto sábado de cada mês.