Opinião
O dinheiro e a felicidade
Manuel Fernandes Silva
2018-06-06 14:00:00

Nos últimos anos, Jorge Jesus foi o mais popular, o mais amado e também o mais odiado dos treinadores do campeonato português. Venceu muitas vezes, mas também perdeu com estrondo e “comprou” algumas polémicas. Ao fim de tantas épocas ao mais alto nível, ver Jorge Jesus partir para o campeonato saudita é quase como perceber que um grande ator aceitou ter um papel secundário num filme de qualidade duvidosa. O cachê até pode ser alto, mas sabemos que dificilmente vai chegar ao oscar.

O Al-Hilal é uma potência do futebol saudita e asiático, só que é fácil perceber que o clube de Riade não estava no mapa dos sonhos de um treinador que foi tricampeão português, que disputou duas finais da Liga Europa, venceu seis Taças da Liga, duas Supertaças, uma Taça de Portugal e também uma Taça Intertoto (no Sporting de Braga). O currículo, lido assim num fôlego, permite relembrar todo o impacto que Jorge Jesus teve em Portugal nos últimos anos, num percurso marcante e que ficará assinalado de forma muito impressiva no futebol nacional.

O interesse dos sauditas encostou um convite milionário a uma apressada vontade de sair, permitindo a Jorge Jesus o afastamento dourado de um turbilhão que lhe provocou marcas (até físicas) que provavelmente nunca esquecerá.

Com a saída ‘limpa’ (sem custos financeiros relevantes) de Jorge Jesus, Bruno de Carvalho poderá imaginar que conquistou mais um trunfo, mas a “arrumação” da casa já não chega para permitir uma aparência de normalidade no clube do leão. O Sporting vive um quotidiano marcado por uma guerrilha institucional e por muito que se esforce por apresentar medidas e exibir mudanças, o presidente do clube de Alvalade já não consegue mascarar uma crise demasiado profunda (nem através da propaganda dos meios de comunicação do clube).

O Sporting é hoje uma espécie de criatura com duas cabeças, em que cada uma tenta puxar o corpo (e o clube) para o lado que mais lhe convém. É verdade que a parte mais direta das responsabilidades repousa nos ombros de Bruno de Carvalho, mas a inação prolongada de Jaime Marta Soares e da Mesa da Assembleia-Geral (quando já existiam sinais claros de autoritorismo presidencial) potenciou uma situação de apego egoísta ao poder, que deverá agora seguir uma longa e pouco edificante batalha judicial.

Nesta altura é mais fácil sentar à mesma mesa Donald Trump e Kim Jong-un do que juntar Bruno de Carvalho e Jaime Marta Soares. E isso é uma péssima notícia para o Sporting.

Tudo isto passa a ser apenas uma memória recente (e em breve difusa) para Jorge Jesus, que não conseguiu sair do futebol português por uma porta que o pudesse levar até à primeira divisão europeia. Os sete milhões de euros anuais que o Al-Hilal vai pagar a um dos melhores treinadores portugueses ajudarão a minimizar a frustração de não trabalhar (por agora) num dos grandes campeonatos europeus, mas Jesus é movido a títulos e nem sequer uma enorme quantidade de dinheiro será capaz de apagar alguma infelicidade. Pelo passado recente no Sporting e por um futuro próximo afastado dos grandes palcos.

P.S. - Depois de uma temporada cheia de casos e com pouco espaço para debates sobre futebol e aqueles que o protagonizam, o Mundial da Rússia poderá ser uma "ilha" retemperadora para todos aqueles que se entusiasmam mais com o jogo do que com as polémicas, as estratégias comunicacionais e os "casos de polícia" (que a Justiça deverá tentar resolver de forma célere e eficaz). É também por isso que, nas próximas semanas, transformarei esta crónica num espaço semanal de análise do Campeonato do Mundo da Rússia. Esperemos que o ruído interno não ofusque o brilho do grande torneio planetário.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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