Opinião
O Corinthians é um fenómeno
João Almeida Moreira
2017-11-11 14:00:00

Ainda faltam cinco jornadas para terminar o Brasileirão de 2017 mas já se pode sentenciar: o Corinthians é o novo campeão, graças à coerência de Fábio Carille, o treinador interino de 44 anos tornado definitivo a meio do percurso.

O antigo adjunto de Mano Menezes e de Tite responsável pelo treino defensivo teve uma ideia – o que não é muito comum no futebol brasileiro – e desenvolveu-a com organização e plano – o que é ainda mais raro num Brasileirão que vive por impulsos, aos solavancos e sob o domínio de emoções, às vezes primárias.

Com régua e esquadro, transformou um onze sem estrelas numa máquina de resultados - de vez em quando, como todas as máquinas, falível. A Cássio, Fágner, Jadson, Rodriguinho e Jô, internacionais brasileiros nalgum momento das suas carreiras, juntou os operários Pablo, Gabriel, Balbuena e Romero, os dois últimos da seleção paraguaia, e os jovens Maycon e Guilherme Arana, este cada vez mais uma certeza internacional na lateral-esquerda.

Mas o Corinthians, porque é do clube de 107 anos de história e não da equipa de 2017 que se pretende falar, é especial.

Apesar de centenário, todos os seis títulos, mais o encomendado sétimo, foram conquistados da década de 90 do século XX para cá. Os dois troféus de campeão do mundo (uma obsessão no Brasil) surgiram em 2000 e 2012, este último seis meses depois da única vitória da sua história na Taça dos Libertadores. Por ocasião do Mundial-2014, o clube ergueu ainda o seu (primeiro) estádio próprio, a Arena Corinthians (ou Itaquerão, na versão popular).

Ou seja, até aos anos 90, o Timão (ou Alvinegro ou Mosqueteiro ou Todo Poderoso ou Coringão) não tinha conquistas relevantes nacionais ou internacionais para apresentar –  e os seus principais concorrentes, São Paulo, Santos e Palmeiras, tinham. Nem sequer dispunha, ao contrário dos rivais, de um estádio para chamar de seu (jogava, por empréstimo, no municipal Pacaembu).

E, no entanto, sem títulos nem estádio e debaixo do gozo impiedoso de são-paulinos, santistas e palmeirenses, já era um fenómeno de popularidade, com perto de metade dos torcedores do estado de São Paulo do seu lado – por alguma razão os adeptos se auto-denominam “bando de loucos”.

É a escolha do povo oprimido das vilas e favelas? Sim, mas porquê o Corinthians, clube com um nome inglês de difícil pronúncia e com um equipamento, segundo os cromo-especialistas, não particularmente atraente, sem encarnados, azuis, amarelos ou verdes, apenas um pálido e sóbrio preto e branco?  

O que o Alvinegro tem de tão especial? Nada. E, por isso, tudo. Numa explicação sociológica de botequim, o Brasil, como a maioria dos países do “novo mundo”, é fatalmente influenciado pelo “velho mundo”; como quase todas as nações do hemisfério sul, sofre com a chaga da desigualdade; e, como no primo rico EUA, vive mais depressa do que os modorrentos países europeus.

Assim, numa cidade em que 75% da população descende em maior ou menor grau de italianos, o Palmeiras, ex-Palestra Itália, traduz de alguma forma essa herança do “velho mundo” – o Vasco da Gama, fundado pela esmagadora colónia portuguesa na cidade maravilhosa, é o seu alter ego carioca.

Já o São Paulo, muito apoiado nos bairros chiques da maior cidade do país que convivem lado a lado com favelas, é a representação da elite endinheirada e intelectualizada, mais ao menos à imagem de outro tricolor, o Fluminense, no Rio, clube do coração de Nelson Rodrigues, Jô Soares, Millôr Fernandes ou Chico Buarque.

O Santos, de Pelé, como o carioca Botafogo, de Garrincha, são produto de um gueto etário – os seus fantásticos feitos ocorreram em momentos limitados no tempo. Por isso, têm torcidas mais velhas, a que se juntam jovens românticos adeptos da estética vintage, mas não cativam a maioria da juventude, sempre sedenta de novidades - ao contrário do que sucede com mais frequência na tal modorrenta Europa, onde dinastias e dinastias familiares torcem pelo mesmo clube, aconteçam no campo as secas de títulos que acontecerem.

E, então, o Corinthians, representa o quê? Representa o resto, no melhor sentido da palavra. Não é nada e é tudo ao mesmo tempo. Pertence àqueles que não se definem por uma herança europeia, por um estrato social, por uma geração – como, aliás, o carioca Flamengo, único clube que o supera a nível nacional em número de torcedores mas que se beneficiou por estar na capital do Brasil até aos 50, o Rio de Janeiro, com os relatos radiofónicos dos seus feitos a chegarem a todos os rincões do país, além de ser rubro-negro, junção cromática forte, e de ter nome de mais fácil apreensão para luso-falantes.

O Timão, em suma, que antes de ser heptacampeão brasileiro, bicampeão mundial, campeão da Libertadores e dono de um estádio moderno, já era amado da mesma maneira e com a mesma intensidade de hoje, é um fenómeno. Como o Ronaldo, que se tornou mais um louco do bando depois de por lá atuar no início da década e deve ser o seu próximo diretor desportivo.

João Almeida Moreira é um jornalista português radicado em São Paulo e escreve no Bancada ao segundo sábado de cada mês.  

Sê o primeiro a comentar: