Opinião
O Clássico e o génio japonês de Portimão
Manuel Fernandes Silva
2018-10-10 14:00:00

A última jornada antes de nova paragem do campeonato ajudou o Benfica a colocar-se no topo da pirâmide dos candidatos ao título. Derrotar o campeão, com um golo de um avançado que esteve quase a fazer as malas por falta de espaço no plantel, acaba por valer mais do que os “regulamentares” três pontos. E se a Rui Vitória faltava derrotar o FC Porto no banco do Benfica, agora só lhe falta fazê-lo com um futebol mais atraente, porque a competência acompanhou quase sempre a exibição dos encarnados.

O Benfica não foi brilhante, mas foi superior na mais larga fatia dos 90 minutos de um jogo que só foi minimamente dividido no primeiro tempo, justamente o período em que o futebol foi (ainda) menos exuberante.

O FC Porto andou demasiado tempo à procura de um fato que se ajustasse a um meio-campo com medidas erradas, onde Otávio surgia quase na mesma linha de Danilo Pereira e Herrera aparecia numa zona de apoio aos avançados. O desenho saiu borratado, com Herrera demasiado longe do coração do jogo e Otávio a sentir dificuldades nas tarefas defensivas (de tal forma que acabou por ser substituído no início do segundo tempo, já com um cartão amarelo no cadastro).

Os problemas dos portistas no início de construção foram evidentes, sendo muitas vezes resolvidos com recurso a um futebol mais longo, que chegou a ser (bem) protagonizado por Iker Casillas. Em teoria, essa construção mais direta poderia beneficiar Marega, mas o maliano nunca teve espaço livre para aplicar aquela espécie de “efeito locomotiva”, que habitualmente faz miséria nas balizas adversárias.

O Benfica construiu uma reação muito forte à perda de bola, com pressão muito eficaz em todas a zonas do campo e o FC Porto encontrou-se perante um leque de exibições individuais de alto nível, com Pizzi e Rúben Dias no topo. O jovem central deu uma resposta exemplar à expulsão no encontro europeu, frente ao AEK.

A subida do Benfica no segundo tempo teve muito de Grimaldo como combustível. A partir do momento em que o lateral espanhol percebeu que Marega estava algo condicionado fisicamente, arrebatou o corredor e transformou a ala esquerda encarnada num calvário para Maxi Pereira.

É verdade que as armas iniciais da equipa de Rui Vitória eram superiores, como também se percebe que as possibilidades de mexer com o jogo a partir do banco de suplentes eram muito mais efetivas do lado encarnado do clássico. No entanto, no plano inicial de voo dos azuis e brancos nunca esteve presente uma ambição clara de triunfo, mas antes uma vontade de sair da Luz sem “ferimentos”. Só que a história recente demonstra que o FC Porto almeja sempre mais do que sair ileso, quando entra na casa do maior rival.

No horário nobre da jornada entrou o grande jogo do Portimonense frente ao Sporting, no Algarve. Ancorada em algum talento e muita velocidade, a equipa de António Folha demonstrou que a margem para escalar a classificação é grande, particularmente devido a um futebol ofensivo enleante e com jogadores de rotação alta, como Manafá, Lucas Fernandes e Tabata.

Acima de todos estes, um génio japonês. Nakajima é um dos melhores jogadores do campeonato e a exibição frente ao Sporting é apenas uma montra mais larga para um momento de forma superlativo, que já vem da época passada. Há alguns anos, Nakajima andava pelas seleções jovens do Japão (há alguns meses ficou à porta da convocatória para o Mundial da Rússia) e em palcos pouco mediáticos do futebol nipónico. Hoje é um ativo de milhões, já longe do alcance financeiro dos três maiores clubes do futebol português, onde encaixaria facilmente, no plantel e no “onze”.

P.S. - O país político prepara-se (finalmente) para aprovar medidas mais duras em relação ao mau comportamento dos adeptos nos recintos desportivos. É um pacote que pode ajudar a pacificar o futebol português, através do “músculo legal”, que é a única forma eficaz de mudar mentalidades. O futebol e as claques não podem estar acima das leis, nem podem ser um Estado dentro do Estado.

Poucos dias antes de ser conhecido este importante passo, surgiu um castigo quase anedótico. Após o jogo com o Marítimo, o Sporting foi multado por mau comportamento da mascote (o Jubas), que terá invadido (de forma perigosa, certamente) a zona de entrevistas rápidas. O castigo motivou mesmo uma “felpuda” onda de solidariedade de várias mascotes de outros clubes. Por causa de uma multa, acabaram por ser as mascotes a indicar o fundamental caminho da união e sã convivência no futebol português, o que não deixa de ser quase enternecedor. Mas também ridículo.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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