Opinião
O bloco central do Benfica
Mauro
2018-08-15 14:00:00

O caminho até à fase de grupos da Liga dos Campeões é longo, mas o Benfica acaba de tirar da frente o vice-campeão turco, o dono de uma casa onde vencer se torna num trabalho pesado (o Fenerbahçe perdeu apenas três jogos na condição de visitado na época passada).

O golo de Gedson Fernandes foi uma espécie de salvo-conduto para o “playoff” da Liga dos Campeões, porque a partir desse momento o Fenerbahçe precisava de marcar por três vezes para afastar a equipa portuguesa. Essa matemática positiva para os encarnados acabou por permitir à formação de Rui Vitória respirar de forma menos descompassada perante o ambiente de fervoroso apoio à equipa turca.

O Benfica já mostra, neste início de temporada, um eixo central com opções fortes, um bloco que está bem definido e que sai reforçado com a continuidade de Jonas, um jogador que continua a ser a maior das referências da equipa.

Na baliza, Odysseas Vlachodimos agarrou o lugar e tem condições para afastar o “fantasma” de Ederson, algo que os ocupantes do lugar na época passada não foram capazes de fazer. Apesar de ter apenas 24 anos, o guardião germânico (com raízes gregas) traz um lastro de duas temporadas ao mais alto nível, na baliza do Panathinaikos. E isso faz toda a diferença.

O centro da defesa comporta uma dupla que já exibe boas rotinas e que será, em circunstâncias normais, titular durante toda a temporada. Jardel e Rúben Dias formam uma sociedade sólida, capaz de dar confiança a quem está atrás e à frente no campo, mas a permanência do internacional português não é ainda uma certeza absoluta (é cobiçado pelo Lyon).

No coração do jogo, no meio-campo, Fejsa mantém o estatuto de intocável. O médio sérvio faz um trabalho cada vez mais visível e fundamental de proteção defensiva do Benfica e de arranque da construção de jogo. O “guarda-costas” da equipa não tem (e não tem tido) um substituto à altura no plantel encarnado, mas parece apresentar agora uma saúde física que lhe faltou noutros tempos. Fejsa foi, como sempre, fundamental para a boa organização defensiva do Benfica, sendo extremamente eficaz no bloqueio aos avançados turcos.

Alfa Semedo saiu do banco nos últimos dois jogos, mas encontrou contextos completamente diferentes em campo. No encontro frente ao Vitória de Guimarães, o jovem médio trocou de lugar com Fejsa e sentiu muitas dificuldades para colocar travão à reação dos minhotos (que acabaram por marcar dois golos na parte final do encontro). No embate com o Fenerbahçe, Alfa coincidiu no relvado com Fejsa e não precisou de ser um 6 puro, percebendo-se claramente que andou em campo mais confortável do que no registo anterior, quando ficou sozinho a fazer a cobertura defensiva àquela zona fundamental do jogo.

Gedson Fernandes surge neste setor com entrada direta no “onze” e com capacidade para “assinar” um compromisso com a titularidade durante toda a época. Frente ao Fenerbahçe, Gedson foi um dos motores da equipa, demonstrando capacidade para equilibrar defensivamente, mas principalmente para a condução de bola e para o lançamento do Benfica em processo ofensivo. Marcou o golo, tentou servir os avançados e será capaz de aprimorar alguns pequenos problemas de definição que ainda subsistem aos 19 anos. Gedson é a face mais visível de mais uma vaga de talentos do Seixal, mas João Félix e Jota também já batem de forma insistente à porta da primeira equipa.  

A dupla Gedson-Pizzi permite ao Benfica ter em campo dois médios com capacidade para equilíbrios e desequilíbrios. No encontro com o Vitória minhoto, Gedson Fernandes permitiu que Pizzi se libertasse muitas vezes para o ataque, ajudando a construir o primeiro “hat-trick” do médio português ao serviço do Benfica. Em Istambul, o golo foi de Gedson, que surgiu mais vezes perto da área adversária, enquanto Pizzi se destacou pelas recuperações de bola e pelo acerto no passe. Muito do sucesso da ideia de jogo de Rui Vitória passará pelo bom entendimento deste duo ao longo da temporada. Neste jogo, os encarnados também beneficiaram do facto de haver muito espaço no início de construção.

Na zona central do ataque, o Benfica tem agora três opções principais muito diferentes (Seferovic ainda está no plantel, mas com espaço reduzidíssimo), todas com capacidade para resolver jogos.

No duelo com o Fenerbahçe a primeira escolha foi Castillo, um avançado que vestiu a titularidade pela primeira vez e que tem (mais do que qualquer outro no plantel) capacidade para um futebol de choque e para jogar de costas para a baliza. O atacante chileno foi decisivo na combinação com Gedson para o golo e estava com capacidade para dar mais ao jogo, até sair lesionado.

Com a entrada de Facundo Ferreyra, surgiu em campo outro perfil de avançado. O Benfica deixou de ter Castillo, que tenta um ataque mais frontal à baliza, para ter um avançado que procura movimentos diagonais, na busca da bola e do espaço para finalizar. Este tipo de jogo exige maior entendimento com os companheiros de equipa e por muito que Ferreyra tenha procurado dar soluções de passe, percebe-se que o processo de adaptação do argentino ainda não está terminado.

A opção mais forte para a zona central do ataque continua a ser Jonas. Não apenas pelos golos que vai “empilhando” ano após ano, mas pela forma como joga e faz jogar. Jonas permite ao Benfica ligar melhor o futebol ofensivo, fazendo de forma perfeita o “enganche” com os médios (como faziam Aimar ou Saviola há alguns anos). Se o cenário físico o permitir, a presença de Jonas no plantel oferecerá a Rui Vitória, no imediato, solução para algumas dificuldades nos momentos de definição atacante.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.