Opinião
No Brasil não se fala noutra coisa
João Almeida Moreira
2018-03-10 13:50:00

No Brasil não se fala noutra coisa: a poucos meses do Mundial, a maior esperança do país lesiona-se com gravidade. E logo antes de uma Copa para a qual a seleção brasileira parte a duvidar, como nunca, de si mesma, por causa dos traumas recentes acumulados, sobretudo no Mundial que organizou e perdeu com estrondo. Quem viu o esgar de dor do atacante Made In Santos em direto sentiu a mesma agonia que ele; quem não viu, e só soube por outrém horas depois, colocou as mãos na cabeça, em choque, como se tivesse perdido alguém próximo. Quem vive aqui sabe: no Brasil, os jogadores da seleção em ano de Mundial é como se fossem da família; e a Copa é assunto de estado.

E é assim desde sempre: o parágrafo acima é sobre um acontecimento de há 60 anos, quando Pelé, o tal atacante Made In Santos, se lesionou com gravidade às vésperas (21 de Maio) da partida da seleção brasileira em 1958 para a Suécia, onde ia ajudar a tentar corrigir a imagem dos baques recentes canarinhos, principalmente o da derrota caseira de 1950, num Maracanã repleto, para o Uruguai. Foi num choque em jogo treino com o musculoso Ari Clemente, um lateral-esquerdo do Corinthians que entrou imediatamente para a lista negra da história do futebol brasileiro, ao lado de Barbosa, o guarda-redes de 50.

O resto da história de 58 já se conhece: embora poupado dos primeiros jogos no mundial escandinavo por causa da lesão no joelho direito, Pelé ainda foi a tempo de marcar seis golos, um nos quartos-de-final, três nas meias-finais e dois na final com os anfitriões, se sagrar vice-melhor marcador da prova, atrás apenas do francês Fontaine (com incríveis 13 golos), e maior destaque jovem, e não só, da competição.

O resto da história de 2018 ainda não se conhece: como chegará Neymar, o que de mais parecido com Pelé o Santos produziu desde então, à Rússia depois da lesão e consequente operação ao quinto metatarso do pé direito? Pelas contas conservadoras dos médicos, o jogador do Paris Saint-Germain estará apto a competir apenas no final de Maio, princípio de Junho. Dará tempo para recuperar a forma até o Brasil-Suiça de dia 17? Não sobrará nenhuma sequela?

O país mais religioso do mundo – ninguém tem tantos católicos ou espíritas como o Brasil e só os Estados Unidos o superam em população protestante – tem fé. E, supersticiosos, além de devotos, os brasileiros acreditam que a história na gelada Suécia se repetirá na não menos glacial Rússia. Como à religiosidade e à superstição, o povo ainda acrescenta o seu proverbial otimismo carnavalesco, toda a gente sente que “vai dar tudo certo”.

Juntemos, então, um bocadinho da racionalidade europeia ao tema.

De facto, Neymar chegará ao Mundial mais decansado do que nunca. Desde 2010/11, quando se tornou indiscutível no Santos, o habilidoso atacante fez sempre mais de 50 jogos por temporada, somados compromissos de clube e seleções: 57, 60 e 59 nas três épocas na Vila Belmiro, se traduzirmos o calendário brasileiro (ano civil) para o Europeu (de Agosto a Maio); mais 56, 62, 54 e 58 nos quatro anos de Barcelona.

Este ano vai em apenas 36 e, tendo em conta o calendário previsto pelos médicos, fará, no máximo, uns 40 se ainda participar nas derradeiras partidas da época do PSG e nos particulares pré-Mundial do Brasil. Menos 18 do que os 58 em que participou, em média, ao longo da carreira profissional – por outras palavras, menos 1620 minutos nas pernas.

Por outro lado, entre Copa América, Jogos Olímpicos, Copa das Confederações e Mundial, o jogador de 26 anos, festejados no mesmo dia em que Cristiano Ronaldo cumpriu 33, teve compromissos sérios em todos os verões desde 2011, exceção feita ao de 2017.

Na Argentina, principal termo de comparação futebolístico com o Brasil por razões históricas e geográficas, enquanto os mais religiosos e supersticiosos vão rezando pela saúde de Lionel Messi, os mais racionais já fazem contas ao número de jogos e minutos que o génio do Barça levará nos músculos para a Rússia. A lesão de Neymar, no fim de Fevereiro, foi, portanto, uma benção?

Se tivermos em conta que Zico atuou limitado por lesão no México-86 e o Brasil caiu nos quartos-de-final, que Romário foi operado ao tornozelo e só atuou uma vez no Itália-90, Copa em que os canarinhos pararam logo nos oitavos-de-final, e que Kaká, na altura no auge, estava afetado por dores no púbis no África do Sul-2010, quando a seleção verde-amarela perdeu nos quartos-de-final, não, não é uma benção, logicamente, ter o craque da equipa ainda convalescente.

Mas no religioso, supersticioso e otimista Brasil prefere-se acreditar que 2018 vai ser 1958, o ano da primeira Copa conquistada. Ou, porque não, como 2002, o ano do último título, marcado pela fenomenal recuperação e pela fenomenal prestação de Ronaldo Fenómeno.

João Almeida Moreira é um jornalista português radicado em São Paulo e escreve no Bancada ao segundo sábado de cada mês.

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