Opinião
Mudança de turno no Mundial
Mauro
2018-07-04 14:00:00

O tempo exercita a crueldade de uma forma absolutamente democrática. Passa para todos e nem sequer respeita os mais unânimes dos talentos. Cristiano Ronaldo e Lionel Messi vão continuar a ser os melhores do mundo durante mais algum tempo, mas o calendário já nos atira à cara o princípio do fim. E o primeiro choque com a realidade apareceu no final dos jogos que tiraram à Argentina e a Portugal o sonho da glória russa.

Daqui a quatro anos, quando o futebolisticamente irrelevante Catar receber o próximo Campeonato do Mundo, Ronaldo terá 37 anos e Messi andará nos 35. O horizonte competitivo ainda os coloca na rota desse torneio, mas a roda do tempo vai atirar outros nomes para o patamar mais alto do futebol. Por isso, terá sido na Rússia que vimos os dois melhores jogadores da atualidade ao mais alto nível num Mundial pela última vez.

A partida precoce das duas seleções surge em contextos diferente, por muito que o desfecho tenha sido idêntico e até encostado no tempo (Argentina e Portugal saíram do Campeonato do Mundo no mesmo dia).

A Argentina andou durante quatro jogos a tentar organizar um amontoado de jogadores que Jorge Sampaoli atirava para o campo, mas sempre desalinhados à volta da magia de Messi. Falhou em toda a linha. Não conseguiu potenciar na plenitude a genialidade do astro do Barcelona e acabou até por colocá-lo a rodar pelo campo, em funções diferentes nos vários jogos: mais longe da área, mais perto da linha ou como falso ponta de lança. Por outro lado, o selecionador argentino pareceu sempre acreditar que alguns dos restantes talentos estariam melhor no banco do que em campo: Éver Banega demorou a entrar na equipa, Paulo Dybala jogou 23 minutos e Giovani Lo Celso nem sequer experimentou a relva russa. O selecionador da Argentina não conseguiu encontrar a fórmula para juntar em campo a magia que poderia ter prolongado a vida da equipa sul-americana no Mundial. E também a inestimável presença de Messi.

O jogo que afastou o 10 argentino foi o mesmo que apresentou ao planeta futebolístico o próximo nome que este desporto vai tornar global. Kylian Mbappé desmontou a Argentina com uma guarda de honra de talento acima de qualquer suspeita: Pogba, Griezmann e Giroud estiveram todos juntos em campo, num exercício de coabitação pacífica e eficiente, que Didier Deschamps poderia usar para explicar a Sampaoli que sim, é possível juntar qualidade sem perder competências.

No Uruguai x Portugal não saiu da sombra nenhum talento, mas o hino à eficácia de Cavani e Suárez terá sido um castigo pouco merecido na melhor exibição portuguesa dos últimos tempos. No entanto, os franceses terão dito o mesmo do golo de Éder e da final do Europeu de há dois anos, porque no futebol a justiça (ou a injustiça) é mesmo cega.

Frente a um adversário que muitas vezes só quer a bola para a colocar depressa perto da baliza adversária, os campeões da Europa assumiram o jogo durante largos períodos, demonstrando que o caminho para o sucesso nem sempre se constrói com a oferta do controlo das operações ao adversário. A fórmula euro foi demasiado interessante para ser esquecida, mas era dificilmente repetível na passagem de França para a Rússia.

Portugal apareceu várias vezes no Campeonato da Europa com dois "falsos alas" que potenciavam o equilíbrio, um acelerador no centro do jogo e um companheiro de ataque de Cristiano Ronaldo com perfil diferente de André Silva e Gonçalo Guedes. A equipa que Fernando Santos levou ao Olimpo juntou várias vezes a disciplina tática de André Gomes e João Mário, potenciando os desequilíbrios de Renato Sanches no coração do campo e a eficácia e experiência de um Nani que nunca tremeu. Deste quarteto apenas João Mário demonstrou ter nesta altura as condições suficientes para poder estar nas escolhas do Engenheiro do Euro, mas é muito provável que Fernando Santos não tivesse deixado de fora o André Gomes, o Nani e o Renato Sanches do verão de 2016. Só que as boas memórias não ganham jogos.

Cristiano Ronaldo e Lionel Messi saíram demasiado cedo do Mundial, mas deixaram na Rússia os dois galácticos que lhes vão disputar o trono. Senhoras e senhores, chegou a hora de Neymar e Mbappé. Que vença o melhor.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.