Opinião
Morder o Diabo enquanto ele esfrega um olho
2018-10-26 14:30:00
Luís Catarino é comentador da SportTV e escreve no Bancada às sextas-feiras.

Por muita falta de ideias que o Inter manifeste na procura do golo, a serpente que Spalletti pôs dentro da área ‘rossonera’ nunca deixou de estar em modo de ataque. O jogo pode estar quase parado, num marasmo, mas nunca desliga verdadeiramente, pois na frente ‘nerazzurra’ está um predador que mata à primeira tentativa, seja ela mais ou menos preparada. Aquele é o seu território. Mauro Icardi, ponta de lança do Inter, é uma das figuras mais letais à face da terra e comprovou-o no dérbi de domingo, no Meazza, mordendo o Diabo enquanto ele esfrega um olho.

O Diabo, neste caso, acaba por ser mais personificado em Musacchio, enganado no serpentear do assassino ‘rosarino’, mas há também um movimento decisivo de Vecino (autor do cruzamento) a atrair Romagnoli para a linha lateral do campo, quando Candreva levou Rodríguez para uma zona de nenhures. Atenção a este detalhe importante porque foi a troca de posições defensivas no flanco esquerdo do Milan que fez com que Musacchio tivesse ficado em situação mais vulnerável no 1v1 com a serpente, pois Romagnoli deixou de lá estar para preencher a zona do primeiro poste.

A saída de Donnarumma não foi boa, mas a súbita urgência na linha mais recuada do Milan, inclusive de Musacchio, resulta do facto de Romagnoli ter deixado a zona central (1.º poste) para fechar Vecino junto do flanco porque Rodríguez se deslocou para o meio arrastado por Candreva, o médio-direito do Inter.

Embora o momento de organização ofensiva do Inter não me encante, este lance não foi mal gerado. A equipa de Spalletti luta mais do que joga e não me parece que o treinador de Certaldo queira outra coisa. Mas se, pelo menos, não hesitarem em lançar a bola para Icardi, então não está tudo perdido porque o avançado conserta tudo.

Sem Fabián Ruiz, migrado para Nápoles, mas com Lo Celso, outro esquerdino perfumado, trazido por Serra Ferrer, o Betis também encontrou forma de morder o Diabo em Milão, agora na Liga Europa. Admiro o jogo proposto por Quique Setién e tão cedo não me esqueço da construção que culmina no remate esplêndido de Gio Lo Celso. Na ausência de Guardado, foram Canales e William Carvalho a assegurar a condição técnica do meio-campo do emblema heliopolitano ao lado de Lo Celso e o melhor elogio que podemos fazer é mesmo esse: que a forma de estar do Betis em campo fica na memória.

Importa-me mais isso do que saber se ficam em 5.º, 9.º ou 12.º na tabela final. Pode acontecer que fiquem, pode acontecer que não fiquem. Mas sabem entreter, jogam no campo todo contra qualquer oponente e daqui a vários anos vamos lembrar-nos da alegria e da audácia desta malta e de como jogam com mais estilo do que a maioria.

Nesta semana de provas europeias, regista-se também os dois golos de Guerreiro pelo Dortmund ao Atlético, em menos de meia-hora. Continua a ser a melhor opção de Fernando Santos para lateral-esquerdo, desde que se livre dos impedimentos físicos.

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