Opinião
Mas alguém ainda quer saber da justiça?
2018-08-28 14:00:00

Escrevo na manhã seguinte à constituição da SAD do Benfica como arguida no processo E-Toupeira e admito que queiram saber o que acho do caso. Pois bem: não acho grande coisa. Acho que há fortes indícios de ações irregulares, mas é para definir se elas saíram exclusivamente da cabeça de Paulo Gonçalves ou se este operacional agiu a mando da SAD que a justiça deve seguir o seu rumo. E uma coisa não acho – dessa, tenho a certeza. Tenho a certeza que depois deste primeiro parágrafo os leitores benfiquistas já estarão a acusar-me de estar feito com o FC Porto ou com o Sporting enquanto que os portistas ou sportinguistas dirão que estou a defender o Benfica. Porque, na verdade, no futebol português ninguém quer a justiça – o que todos querem é a vitória das suas cores.

É esta realidade que está na base do crescimento de programas televisivos básicos e parciais, que proliferaram nos últimos anos no panorama mediático nacional como cogumelos num bosque húmido. A justiça, no que toca a futebol, os portugueses têm-na servida em suas casas em tribunais sem juízes, onde os arguidores ditam sentenças sempre inquestionáveis e indiscutíveis para os das suas cores. Falemos do E-Toupeira, do Apito Dourado, do Cashball, dos vouchers ou do caso Cardinal, é sempre indiferente. Quem tem razão? Os nossos. Esta galinha dos ovos de ouro, aliás, funciona como uma espécie de pescadinha de rabo na boca, porque a cada vez que um destes arguidores dita uma sentença e é aplaudido pela multidão ululante está a fazer crescer nessa multidão uma adição. A adição pela justiça à nossa medida, que depois se alarga – aliás, até terá começado por aí – aos penaltis e aos foras-de-jogo.

É estranho para mim que depois de um derbi fraquinho como o de sábado se discuta mais a arbitragem de Luís Godinho do que a inadequação dos jogadores colocados em campo por Rui Vitória à ideia de jogo que a equipa pôs em prática ou a incapacidade do onze escolhido por José Peseiro para jogar com bola, quando este treinador sempre foi um adepto do futebol positivo. Claro que um jogo depende sempre do que as duas equipas propuserem e que o facto de o Sporting ter conseguido dificultar o início da organização ofensiva benfiquista e ter depois reduzido muito o espaço entre-linhas no corredor central levou a equipa de Vitória a abusar do jogo pelas alas e de cruzamentos para os quais Ferreyra não estava claramente preparado. Claro, também, que os níveis de intensidade superiores de um Benfica a quem as rondas de qualificação para a Liga dos Campeões deram um ritmo que o Sporting ainda não possui podem ter inibido os leões de pegar mais no jogo em vez de se limitarem a um jogo baseado nos momentos defensivos e na exploração do contra-ataque (para o qual Montero até é mais indicado do que Bas Dost, que precisa da equipa mais perto dele).

Mas a arbitragem? Neste jogo tão pobre em futebol como rico em conclusões? Ali, ao menos, houve um juiz. Como haverá agora no caso E-Toupeira. E na verdade é com isso que a generalidade dos portugueses vive mal – com o facto de alguém presumivelmente imparcial ser chamado a tomar uma decisão. É muito mais confortável para cada um de nós ter os nossos arguidores particulares e seguir caminho convencidos da nossa razão absoluta. Pois bem: a vida não é, nunca será, assim. Isso é só nos programas de televisão.