Opinião
Foi chato
Manuel Fernandes Silva
2018-05-16 14:00:00

Há uns tempos ergueu-se um muro em Alvalade. De um lado ficou Bruno de Carvalho, do outro Jorge Jesus e o plantel do Sporting. Havia uma pequena barreira desde a época passada, mas as críticas do presidente no Facebook, depois da derrota com o Atlético de Madrid, colocaram um gigantesco monte de pedras a separar o presidente da equipa. E agora já nada será capaz de derrubar esse muro. Nem sequer este ataque, que exigiria, em condições normais, uma resposta com firmeza e união.

A barbárie chegou a Alcochete um dia depois de Jaime Marta Soares ter dito que não havia sinais de crise. Tal como os músicos do "Titanic", o presidente da Mesa da Assembleia-Geral do Sporting ignorou o rombo gigantesco e continuou a tocar, alegre e irresponsavelmente, mudando de opinião ao ritmo das marés.

O dia de ontem não foi apenas o mais negro da história do Sporting, foi também um dia de luto para todo o desporto português. Os culpados indiretos são vários e nem todos usam máscaras e capuzes.

Aparentemente, a consciência não pesará a Bruno de Carvalho, que acredita que a crítica fácil, pública e emocional não potenciou uma situação de contestação irracional, selvagem e criminosa.

O presidente deu a cara para falar do ataque a Alcochete (no "conforto" da televisão oficial do clube, sem direito a perguntas de jornalistas), mas depois da óbvia condenação articulou um discurso errático e com máximas que parecem ter sido retiradas de um número de "stand-up comedy" de mau gosto: "foi chato ver a preocupação dos familiares" ou "temos de nos habituar, porque o crime faz parte do dia a dia" são frases que ninguém esperaria ouvir depois da Academia do Sporting ter sofrido um ataque primário, de contornos medievais e absolutamente inaceitáveis.

Também há culpas por omissão, de uma classe política que adora o futebol das zonas "vip", das vitórias garbosas e dos golos épicos, mas que parece ser incapaz de criar legislação que previna e puna de forma verdadeiramente exemplar a violência e o incitamento à violência no futebol, uma modalidade que por vezes parece um Estado dentro do Estado. A prová-lo está a confrangedora reação do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Sem um esboço de medidas, sem uma afirmação de vontade de forçar uma mudança. Apenas palavras vazias e sem consequências.

Bruno de Carvalho nunca terá perdoado o facto de Jorge Jesus se ter colocado ao lado dos jogadores depois das críticas geradas pela derrota com o Atlético de Madrid. O desaire da Madeira acabou apenas por ser o rastilho útil para uma situação de divórcio que é agora absolutamente inevitável. No entanto, o ataque de Alcochete apenas serviu para demonstrar que Jorge Jesus é, atualmente, o verdadeiro e único líder do futebol leonino. Num dia de terror foi o último a deixar a Academia, também ele agredido e humilhado, certamente ferido num orgulho de uma carreira longa, com muitas vitórias e sem memória de uma página tão gravemente triste.

As culpas indiretas terão de ser apuradas dentro do Sporting, mas a prioridade terá de ser o afastamento do clube, do futebol, do desporto e da sociedade do grupo criminoso que invadiu Alcochete e que agrediu jogadores, técnicos e funcionários, usando bastões e tochas.

Foi chato, disse Bruno de Carvalho.

P.S. - Para além das agressões em Alcochete, o Sporting vive dias agitados por causa da investigação a um alegado esquema de corrupção com possíveis ramificações no andebol e no futebol. À Justiça o que é da Justiça, mas a suspeita coloca desde já mais uma sombra numa das maiores potências desportivas do país.

Em sentido contrário, o elogio a Fábio Coentrão. O defesa não vai ao Campeonato do Mundo da Rússia, mas mantém intacta a alma de campeão. Coentrão fez uma autoavaliação, percebeu que não tem condições físicas para servir a Seleção Nacional nas melhores condições e excluiu-se das possíveis escolhas de Fernando Santos. Mesmo de fora, merece aplausos.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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