Opinião
Falemos de coisas bem melhores
Manuel Fernandes Silva
2018-06-13 14:00:00

O Campeonato do Mundo de futebol começa já amanhã, mas é difícil afastar a atenção mediática da crise do Sporting. Bem sei que o que vou escrever a seguir contraria a “tendência da estação”, mas a culpa do protagonismo negativo dado aos leões nos últimos tempos não é da “comunicação social”, uma entidade tão vaga quanto inexistente como um todo.

Podem ser questionadas ou criticadas as práticas de determinados órgãos de comunicação social, mas dificilmente podemos colocar no mesmo compartimento todos os sites de notícias, todos os jornais, todas as estações de rádio, todos os canais de televisão. Porque todos eles, com os vários defeitos e virtudes, são diferentes. Esse exercício, que até já foi feito por altos responsáveis do futebol português, é tão rigoroso como o de englobar, numa crítica conjunta e indiferenciada, todos os jogadores de futebol, todos os dirigentes, todos os treinadores, todos os médicos ou todos os professores.

A atenção mediática dada ao Sporting nos últimos tempos resulta da invulgaridade da situação de crise institucional profunda que abala uma das maiores instituições desportivas do país. Em menos de um mês aconteceu tudo isto: jogadores, equipa técnica e funcionários do futebol profissional do Sporting foram atacados por adeptos, Jorge Jesus foi embora, o clima de guerra estatutária entre o Conselho Diretivo e a Mesa da Assembleia-Geral chegou à esfera judicial e uma parte importante do plantel encaminhou-se para a saída.

Bruno de Carvalho faz briefings quase diários e Jaime Marta Soares responde em vários fóruns, enquanto o carteiro vai deixando em Alvalade cartas de rescisão de vários dos principais jogadores do plantel leonino (incluindo os quatro internacionais que estão na Rússia, ao serviço da Seleção Nacional). Sem querer parecer demasiado corporativista, não me parece que isto possa deixar de ser notícia. Questione-se o estilo ou as abordagens, mas não o valor noticioso de uma crise que pode tornar-se numa espécie de “hara-kiri” do Sporting, tal qual o conhecemos.

Mas falemos de coisas bem melhores. De um Campeonato do Mundo que está à porta e que transporta todos os sonhos de milhões de adeptos, um pouco por todo o planeta.

O torneio russo poderá ser o último com Cristiano Ronaldo e Lionel Messi no topo da forma e com supremacia incontestada sobre todos os “terrestres”. Até por isso será também o palco fundamental para perceber quem poderá surgir como o sucessor dos dois melhores futebolistas das últimas décadas.

Neymar poderia ser a resposta lógica a essa dúvida, mas falta perceber em que condição física irá estar ao longo de uma competição desgastante e depois de uma lesão que o afastou dos relvados entre fevereiro e junho. Para já, o regresso trouxe dois golos (nos jogos de preparação frente à Croácia e à Áustria) e promessas de devolução de uma desconcertante improvisação à “canarinha”. Tudo isto enquadrado na liderança técnica de Tite, um treinador de qualidade, capaz de dar ao Brasil a organização tática que tem faltado nas últimas grandes competições.

Outro nome incontornável é o de Mohamed Salah, um jogador que saltou as fronteiras do Egito para se tornar num dos melhores jogadores da atualidade. Aos 26 anos, Salah tem quase tudo: instinto goleador, velocidade e técnica exuberante. Poderá é não ter tempo para recuperar de forma conveniente da lesão que o afastou da final da Liga dos Campeões, ainda antes do fim da primeira parte. E não tem, seguramente, uma equipa com qualidade de nível médio/alto, que lhe permita sonhar com uma intromissão na luta pelos lugares de destaque no torneio russo.

A estrela “natural” de França é Antoine Griezmann, mas o jogador com melhores condições para poder desafiar o reinado de Ronaldo e Messi nos próximos tempos é Kylian Mbappé, companheiro de equipa de Neymar no Paris Saint-Germain. Aos 19 anos já é uma figura maior da equipa nacional gaulesa e o talento precoce promete colocá-lo rapidamente no primeiro patamar mundial. E isso até pode acontecer já neste Campeonato do Mundo.  

Por fim, no grupo dos 23 portugueses está um jogador capaz de subir alguns degraus na hierarquia do futebol. Aos 23 anos, Bernardo Silva consegue provocar desequilíbrios de forma inteligente, é dotado de uma técnica superlativa e de uma capacidade de definição muito acima da média. Nesta altura não estará ainda ao mesmo nível dos restantes "pretendentes ao trono", mas já é o segundo maior talento do futebol português e a Rússia poderá ser mais uma etapa num caminho de afirmação sempre ascendente. Depois de ter falhado o Europeu de França devido a lesão, Bernardo Silva tem qualidade suficiente para ser um dos trunfos fundamentais de Fernando Santos no Mundial.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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