Opinião
Fabio e os novos Mancinis
Mauro
2018-09-07 14:00:00

Anda tudo louco por Cristiano não marcar golos em Itália. Ou é a inspiração de Sorrentino, Strakosha ou Sepe, os três guarda-redes que encararam a Juventus, ou então os remates do #7 bianconero saem ligeiramente direcionados ao lado do alvo e o salto do monstro fica encravado. No entanto, a aparente imprecisão do jogador mais bem pago da história da Serie A não significa necessariamente que o campeonato perca interesse, uma vez que há outros protagonistas dignos de realce, desde que queiramos olhar com olhos de ver. Fabio Quagliarella reforça essa teoria.

O magnífico golo de calcanhar de Quagliarella contra o Nápoles, em Marassi, no domingo, foi uma obra de arte para gravar na memória. O cruzamento de Bereszynski, do lado direito do ataque da Sampdoria, até nem foi famoso. A bola foi para trás de Quagliarella, mas o avançado ‘blucerchiato’ teve o instinto para improvisar com o golpe técnico adequado à situação, para estupefação de Koulibaly, que ainda está para perceber o que aconteceu na sua área. Ospina ainda viu o filme com alguma nitidez, mas também não foi capaz de pôr as mãos em cima da bola.

Por ser natural da Campânia e ter coração ‘azzurro’, adepto de infância do Nápoles, não celebrou o golo com a euforia que se exigia. E é curioso que, há quase uma década, também não andou aos saltos na altura em que marcou outro golo de ‘tacco’, pela Juventus contra a Udinese, culminando o passe rasteiro de Krasic. A explicação? Fabio não festejou esse golo pelas zebras porque já tinha jogado nas zebrinhas.

Com a proeza em Marassi, Quagliarella registou o seu 128.º golo na Serie A e vinca a condição de maior goleador em atividade na elite do ‘calcio’. Ainda não chega a metade do recordista Silvio Piola, mas ultrapassou nessa lista Shevchenko, igualou Rivera e ficou a um de Bettega, também conhecido por um mítico golo de calcanhar pela Juventus contra o Milan, numa vitória ‘bianconera’ por 1-4 em San Siro, em 1971. Com muito menos golos na lista, mas com merecida ênfase neste artigo, o brasileiro Mancini, então na Roma, fez um dos mais espetaculares, em 2003, e logo num derby contra a Lazio no Olímpico. Arrepia só de lembrar.

Embora tenha nascido no Sul e feito formação no Norte, no Torino, a Samp é um emblema especial para Quagliarella. Foi pelos genoveses que chegou à Seleção italiana, pela mão de Donadoni, que também o “apanhou” no Nápoles em 2009/10, já com Hamsik e Lavezzi. Na primeira passagem pela Samp, com Novellino a treinador, em 2006/07, fez parte de uma boa equipa que tinha Palombo no meio-campo, isto antes de rumar a Friuli, para a Udinese.

O regresso a Génova tem feito sentido para prosseguir a carreira e ninguém percebe que tem 35 anos. Por acaso recordam-se que essa era a mesma idade de Roberto Mancini quando, em 1999, fez aquele que pode perfeitamente ser considerado o golo de calcanhar mais elegante de todos os tempos, no Tardini, contra o Parma, na sequência de um pontapé de canto batido por Mihajlovic?

Nessa noite, depois do monumento assinado por Mancini, ‘Bobo’ Vieri apelidou-o de Maestro. O deslumbramento de Vieri era justo. E admito que 'Mancio' foi um dos mais fascinantes jogadores do meu tempo. Com aquela maravilha, digamos que foi fácil para Cragnotti, o presidente da Lazio, ter ficado ainda mais convencido com a sugestão de Eriksson quando o treinador lhe havia dito que ganhariam o ‘scudetto’ se Cragnotti lhe trouxesse Mihajlovic, Verón e Mancini, gente que o sueco já conhecia da Samp. Dito e feito. A Lazio foi mesmo campeã em 1999/2000.

Ficamos, então, à espera das próximas pérolas de Quagliarella e de novos Mancinis. Porque isto não deve ficar por aqui.

Luís Catarino é comentador da Sport TV e escreve no Bancada às sextas-feiras.