Opinião
Eleições em ano de Copa
2018-05-12 14:00:00

Nos protestos que, sob as motivações do impeachment de Dilma Rousseff e da Operação Lava-Jato, preencheram a Avenida Paulista, a orla de Copacabana e centenas de outras praças do Brasil nos últimos anos, a maioria dos manifestantes escolheu ir para a rua com uma camisa verde e amarela da seleção vestida.

Sinal de que a relação entre política e futebol na história do século XX, que de tão próxima já mereceu textos, livros, teses e considerações, várias, também se revela, claro, no país pentacampeão do mundial.

Desde logo em 1970, quando aquele que pode ter sido o melhor esquadrão canarinho de sempre e um dos melhores da história global do futebol, motivou reações contraditórias no povo. Afinal, pensavam os brasileiros críticos do regime ditatorial militar então em vigor, devemos torcer a favor ou contra Pelé e companhia?

É que os generais no poder haviam sequestrado a seleção para eles: o refrão “noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração”, cantado por todos, era considerado a versão futebolística do slogan da ditadura militar “Brasil ame-o ou deixe-o”, detestado por tantos.

Claro que a emoção venceu a razão e ao quarto golo de Carlos Alberto na final com a Itália os então 90 milhões de brasileiros, mesmo os que se opunham ao regime, festejaram enlouquecidos sem pensar nas consequências políticas do remate cruzado do lateral direito.

Já no Inglaterra-1966, quando o Brasil voltou a casa eliminado e humilhado logo na primeira fase, a ditadura militar, imposta no país apenas dois anos antes, se havia apropriado da seleção: a derrota, sentenciaram os generais, deveu-se à deficiente condição física dos jogadores brasileiros por oposição aos fortes e atléticos europeus; logo, concluíram eles, um futebolista tem de passar a treinar-se como um soldado.

Os tenebrosos militares não foram os únicos a usar o futebol, e a seleção, como manifesto político: outro ditador, Getúlio Vargas, que ascendeu ao poder em 1930, ano do mundial uruguaio, e suicidou-se em 1954, ano do mundial suiço, entendeu imediatamente a força política que começava a conquistar os corações de milhões de brasileiros.

E o fenómeno, como se sabe, não é exclusivo das ditaduras brasileiras - o General Videla estava desesperado para vencer o Mundial da Argentina em 1978 e Honduras e El Salvador iniciaram uma guerra após uma partida entre as duas seleções

E nem exclusivo da América Latina - em 1934 o regime de Benito Mussolini ameaçou de morte os jogadores da seleção treinada por Vittorio Pozzo caso não vencessem o Mundial em casa. Venceram, ufa.

E nem exclusivo de tempos longínquos – afinal, hoje em dia, os vizinhos brasileiros Uruguai, Chile, Paraguai e Argentina têm no poder, democraticamente eleitos, políticos ligados ao futebol.

O argentino Maurício Macri largou as calças do pai milionário e resolveu disputar eleições no Boca Juniors, onde ganhou títulos, aprendeu o essencial da intriga política, habituou-se a gerir as emoções das classes operárias e acabou eleito presidente da Câmara de Buenos Aires, primeiro, e presidente da Argentina, depois.

Antes de ser presidente, o paraguaio Horacio Cartes levou o Libertad de novo à primeira divisão e ajudou-o a ganhar quatro títulos e a chegar às meias-finais da Taça dos Libertadores; no Chile, o homem mais rico do país, Sebastián Piñera, antes de ser presidente tornara-se o dono do popular Colo-Colo; nascido em La Teja, bairro de Montevideu, Tabaré Vásquez levou o pequenino clube local, o Progreso, ao título de campeão antes de se arriscar na política e chegar à presidência.

Em ano simultâneo de Mundial e de eleições, como reagirá então o Brasil? Os resultados da seleção serão determinantes para o voto dos eleitores? Eles separarão política de futebol?

Em 2002, ano da última conquista brasileira, na Copa do Oriente, os brasileiros em vez de manterem o statu quo – votar em José Serra, herdeiro de Fernando Henrique Cardoso, ambos do PSDB, de centro-direita – optaram por uma mini-revolução – a eleição do então eterno derrotado, sindicalista, metalúrgico e miserável migrante nordestino Lula da Silva.

Em 2006 e 2010, apesar dos dissabores na Alemanha e na África do Sul, continuaram a apostar no PT, via Lula, novamente, e via Dilma, pela primeira vez.

E no fiasco de 2014, com massacre dos 7-1 da Alemanha e derrota impiedosa para a Holanda por 3-0 no jogo de consolação pelo meio, num Mundial jogado em casa, o povo decidiu votar na continuidade: Dilma foi reeleita apenas três meses após o apito final do árbitro. 

É verdade que um instituto de sondagens colocou o nome de Tite entre os candidatos e o selecionador nacional recebeu mais votos do que muitos políticos profissionais. Mas parece que no super-emocional Brasil afinal o futebol é o futebol e a política é a política. Aliás, ao contrário de Portugal discute-me muito mais, e com muito mais paixão, a segunda do que o primeiro. 

No fundo, o título está errado: no Brasil já não são as eleições, outrora um evento secundário, que caem em ano da hiper-prioritária Copa, é a Copa que cai em ano de eleições.

João Almeida Moreira é um jornalista português radicado em São Paulo e escreve no Bancada ao segundo sábado de cada mês.