Opinião
É tempo de revolucionar o mercado de transferências
João Pedro Cordeiro
2018-08-09 14:00:00
Em nome da transparência e do Fair Play, é tempo da FIFA se deixar de intenções e colocar mãos à obra.

É tempo de mudar a forma como o mercado de transferências funciona. Entre prazos para contratações, limites de contratações, limites à quantidade de jogadores por clube, tetos salariais e tetos de transferência, muito há a fazer no que à regulação e regulamentação do mercado de transferências diz respeito. Inglaterra, como em tantas outras ocasiões, deu o primeiro passo ao definir o fecho da janela de transferências praticamente 24 horas antes do início da Premier League, mas há muito mais a ter de ser feito.

Hoje, o The Times dá conta dos planos da FIFA para a regulamentação do mercado de transferências. Segundo a publicação inglesa, é do interesse da entidade que regula o futebol Mundial introduzir um mercado de transferências standardizado a nível global, com a janelade transferências a manter-se aberta durante um mês, mas a fechar no dia imediatamente anterior ao início de cada um dos campeonatos. Ou seja, tal como hoje fecha o mercado em Inglaterra, devia também fechar em Portugal, França, Holanda ou Turquia, apenas para citar alguns exemplos de campeonatos que se iniciam esta sexta feira. Tal como já deviam, então, ter fechado em países como a Bélgica, a Dinamarca, a Polónia ou a Rússia que levam já algumas jornadas disputadas.

Há muito que os treinadores defendem o fecho antecipado dos mercados de transferências e Inglaterra foi a primeira grande liga a dar esse primeiro passo ao definir o fecho da janela de transferências para o dia anterior ao início da Premier League - e apenas com uma jornada disputada no Championship. Ainda assim, apesar de tal ter sido votado pelos próprios clubes ingleses, esta é uma medida que os coloca em desvantagem, e em perigo, esta temporada, face aos maiores clubes europeus. Veja-se o exemplo do Manchester United que, segundo a imprensa internacional, poderá perder Pogba para Barcelona entretanto e não ter como precaver a saída de um jogador nuclear, enquanto o clube catalão terá ainda mais de vinte dias para o fazer chegar a Camp Nou. E, nos dias que correm, em que o jogador tem um poder superior ao do clube, tal é preocupante.

Mas não são só as transações diretas que têm de ser uniformizadas, reguladas e regulamentadas. É tempo da FIFA meter mãos à obra e revolucionar por completo a forma como as transferências são feitas a nível Mundial. É tempo de haver finalmente transparência no mercado e tempo de terminar com a lamaceira ao qual este está associado. É tempo de limitar a quantidade de jogadores que podem estar associados a apenas um clube para bem da verdade do futebol. É tempo de terminar com as transferências negócio. Com o entreposto de jogadores. É tempo de terminar com o tráfico de influências.

A FIFA já em fevereiro deu a entender essa intenção, mas de boas intenções está o inferno cheio. Cabe à organização que tutela o futebol mundial mostrar que se livrou das amarras da corrupção e está verdadeiramente interessada em lutar pelo fair play desportivo e financeiro. É tempo de tornar o futebol mais claro. É tempo de limpar o futebol. “É importante incluir regras como limites de jogadores num clube e limitações para os jogadores cedidos”, disse então Infantino. Uma verdade.

“Para além do teto salarial, de forma a distribuir melhor o dinheiro pelos jogadores, o presidente da FIFA garantiu ainda que pretende que exista maior controlo nos negócios, de forma a “evitar a corrupção, os subornos e a lavagem de dinheiro”, escrevemos nós em fevereiro. Uma verdade. Mas de fevereiro a agosto passaram já seis meses e nada foi feito nesse sentido. Urge que após o fecho do mercado, este seja finalmente revolucionado como a FIFA prometeu.

Urge colocar um travão à loucura que impera no mesmo. Urge lutar pela competitividade. Urge travar as desigualdades. Urge entender porque o modelo competitivo norte americano é tão bem sucedido e urge trazê-lo para o futebol. Urge responsabilizar os clubes pelo mau scouting e planeamento e não permitir que equipas sejam delapidadas de seis em seis meses. Urge deixar de penalizar os clubes que bem trabalham. Urge deixar de ser tão fácil um jogador forçar a saída de um clube, ao mesmo tempo que urge permitir que os jogadores sejam também tratados como gado. Urge colocar um travão ao tráfico humano desportivo. É que se ao nível de elite os jogadores são pagos a peso de ouro, tal é uma gota no oceano que é a realidade de um futebol movido a interesses.

A FIFA quer o fim do mercado de inverno; quer o mercado de verão a fechar antes do arranque dos campeonatos; quer a limitação de empréstimos; quer a criação de um teto salarial em todos os clubes, quer a regulamentação das comissões pagas a agentes e intermediários. Nós queremos tudo isto, mas queremos acima de tudo que tal não passe da intenção e chegue ao papel. Já lá vão seis meses desde a confissão de intenção. Em nome da transparência, é tempo de revolucionar o mercado e a forma como o mesmo funciona.

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