Opinião
Dr. Jorge e Mr. Jesus
2018-03-21 14:00:00

Quando se contrata um treinador, ele nunca chega sozinho. Mas não traz apenas a equipa técnica, porque com ele chegam os métodos de trabalho, a personalidade, a identidade competitiva e as ideias. Quando um presidente escolhe um técnico, é tudo isto que entra no balneário. E é muito disto que é vertido para o discurso.

Algumas mudanças de treinador tornam-se suaves, porque se percebem pontos de contacto que permitem transições confortáveis e sem solavancos táticos e de projeto insanáveis. É um pouco isto o que aconteceu na passagem de testemunho de Luís Castro para Miguel Cardoso, no Rio Ave (apesar de o sucessor ter recebido um plantel sem várias das principais figuras da época passada). As diferenças entre as ideias dos dois treinadores existem, claro, mas há uma matriz comum de jogo positivo e de filosofia atacante que optimizou a mudança e que até permite (e não, isto não é uma coincidência) que ambas as equipas que os dois técnicos dirigem atualmente naveguem perto de águas europeias (bem mais próximas no caso do Rio Ave, mais afastadas no caso do Desportivo de Chaves).

Da mesma forma, Bruno de Carvalho sabia bem que tipo de caderno de encargos estava a abraçar quando, em 2015, contratou o treinador do mais figadal dos rivais. Para além da mais do que comprovada qualidade, Jorge Jesus trouxe para o Sporting uma mudança de paradigma, que “obriga” a investimentos fortíssimos no plantel e que coloca em movimento um carrossel de entradas e saídas de jogadores. Foi assim até agora e assim continuará a ser, pelo menos enquanto Jorge Jesus “habitar” Alvalade.

Com menor ou maior fluência, Jorge Jesus quase nunca deixa palavras por dizer, da mesma forma que dificilmente sucumbe à representação de um papel que não seja o dele próprio. O treinador leonino convoca todos os louros com enorme convicção, seja para reclamar pioneirismos táticos ou estratégicos, seja para sublinhar a forma como transformou o “apanha-bolas” num elemento importante do jogo. A este nível, não há uma nova versão do treinador que foi três vezes campeão pelo Benfica.

Não há um Dr. Jorge, por oposição a um Mr. Jesus (uma versão “livre” de Dr. Jekyll e Mr Hyde), “escondido” até chegar ao Sporting.

É por isso que se torna interessante dissecar uma parte do discurso recente de Jorge Jesus, que tem insistido na ideia do cansaço do plantel perante uma parte final de época muito preenchida.

Os vinte jogos que 2018 já desenrolou colocam os leões no topo das equipas com maior desgaste, mas a repetição constante desta tese poderá ter um efeito negativo – o de fazer crer aos jogadores que o cansaço é realmente ainda mais profundo e difícil de ultrapassar. Os especialistas chamam-lhe “impacto mental das palavras”, mas a estratégia até poderá resultar, desde que haja uma duplicidade de discurso: um para o exterior, outro dentro do balneário.

Ao sublimar a surpresa pela “alma” da equipa no jogo frente ao Rio Ave, Jorge Jesus poderá ter chegado ao ponto que desejava nesta gestão emocional. E agora, com Gelson e Bas Dost de novo encostados às balizas adversárias e com o líder do campeonato novamente mais perto, ainda tudo é possível para o Sporting. Até mesmo sonhar com duas grandes noites europeias frente ao poderoso Atlético de Madrid.    

P.S. - O Rio Ave tem a concorrência por perto, mas continua agarrado ao quinto lugar, o objetivo que resta à equipa de Vila do Conde depois da saída (algo surpreendente) da Taça de Portugal.

Depois da derrota com o Sporting, Miguel Cardoso poderia ter usado a tão comum desculpa das ausências: não pôde contar com Francisco Geraldes e Gelson Dala (emprestados pelo Sporting), Tarantini e Lionn. Mas ninguém o ouviu falar disso em Alvalade, no final do jogo. Se o Rio Ave continua a merecer louvores pelo futebol positivo que pratica, Miguel Cardoso também é credor de elogios pela forma como comunica, sem rodeios nem desculpas.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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