Opinião
Dois heróis pouco prováveis
Manuel Fernandes Silva
2018-05-02 14:00:00

Marega não é o melhor avançado do campeonato (esse será Jonas, perseguido de perto por Bas Dost), mas para as contas finais do título o maliano acabará de forma quase inevitável por ser o mais decisivo, para além de se ter tornado numa espécie de força indomável, capaz de carregar naqueles ombros largos e passada quase desajeitada toda a ambição ofensiva do FC Porto de Sérgio Conceição.

Apontado ao banco de suplentes no início da temporada, Moussa Marega reescreveu a própria história, ao ponto de se tornar num dos jogadores indiscutíveis do caminho do FC Porto até ao provável título de campeão nacional. Aos 27 anos tem margem para pensar numa etapa da carreira feita num patamar competitivo ainda mais alto, mas o sucesso de Marega esteve e está umbilicalmente ligado à ideia de jogo de Sérgio Conceição. E pode não resultar, de forma tão evidente, noutro contexto tático e estratégico.

O treinador do FC Porto baseou o processo ofensivo em ideias claras e quase nunca abandonadas: entrada forte no jogo, projeção ofensiva dos laterais, linhas subidas, colocação de vários jogadores perto de zonas de finalização e ataque ao espaço nas costas dos defesas. Foi assim, por exemplo, que o FC Porto ‘atropelou’ o AS Monaco no Principado, no primeiro registo ao mais alto nível da voracidade do ataque azul e branco. Com Aboubakar a marcar dois dos três golos, mas com Marega em destaque.

Brahimi tem o virtuosismo, Aboubakar exibiu ao longo da temporada uma assinalável capacidade de finalização, Soares dá à equipa a possibilidade de um jogo mais combinativo e com apoios frontais, mas Sérgio Conceição percebeu rapidamente (também por causa das primeiras lesões, que potenciaram a saída de Marega do banco de suplentes) que não podia abdicar de um verdadeiro demolidor de defesas, um avançado capaz de desgastar até ao limite as defesas adversárias, num exercício que colocou problemas a várias equipas, principalmente no plano interno. É certo que o FC Porto também usou com êxito esta arma ofensiva perante alguns adversários europeus, mas nesse patamar a capacidade de superação física perante as defesas contrárias não se torna tão evidente.

É claro que nem tudo foi perfeito, porque Marega continua a ter limitações técnicas e algumas dificuldades na definição de jogadas (quer a finalizar, quer a assistir os companheiros de equipa), mas nem nos jogos menos conseguidos deixou de contar com o apoio do balneário, do treinador e dos adeptos, que nunca duvidaram da entrega total, em cada lance, à missão que levava para o relvado.

Moussa Marega não é o único herói improvável do quase certo título portista, porque Héctor Herrera reparte com o maliano um caminho ascendente que parecia altamente improvável.

No dia 6 de novembro de 2016, o FC Porto recebia o Benfica no Dragão, com casa cheia e com a habitual rivalidade a percorrer as bancadas. Diogo Jota marcou para a equipa de Nuno Espírito Santo no início da segunda parte e fez os adeptos sonhar com o triunfo no clássico. Herrera cede canto ao minuto 90, quando parecia ter melhores opções. Lisandro López coloca a bola na baliza e o empate torna o ar do Dragão pesado, especialmente para Herrera. Nos dias seguintes, o médio mexicano é empurrado por uma enxurrada de críticas e começa a ser comentada, de forma insistente, a possibilidade de saída do clube.

Um ano e meio depois, Herrera é engolido no aeroporto Francisco Sá Carneiro por uma multidão que prefere nem esperar pelo último ponto para fazer a festa. O internacional mexicano tem méritos evidentes na forma como se recuperou desse clássico da época passada, com final infeliz para o FC Porto. Podemos encontrá-los dentro de campo, num nível exibicional elevadíssimo, na capacidade de empurrar a equipa para plano ofensivo, na capacidade física para impor a liderança portista no coração do relvado, em quase todos os jogos. Mas aquilo que estará a tornar Herrera num símbolo do FC Porto parece ser a liderança serena, sem mácula e unânime dentro do balneário azul e branco. Todos os (poucos) relatos que chegam ao exterior dão conta de um capitão à moda antiga, quase na linha dos míticos João Pinto ou Jorge Costa, mas com sotaque mexicano.

O mais do que provável título de campeão nacional assentará de forma inteiramente justa ao FC Porto como todo e como grupo, mas ainda mais a Marega e Herrera, os heróis pouco prováveis deste regresso dos azuis e brancos aos títulos.        

P.S. – De Inglaterra e de Espanha chegaram recentemente duas notas de extraordinário desportivismo entre rivais.

Em Old Trafford, Sir Alex Ferguson e José Mourinho juntaram-se aos aplausos de milhares de adeptos do Manchester United a Arsène Wenger, o treinador do Arsenal que se prepara para o final de uma longa etapa (22 anos) no comando da equipa do norte de Londres. Em Espanha, o Real Madrid utilizou as redes sociais (o twitter) para dar os parabéns ao Barcelona pela conquista da Liga Espanhola e da Taça do Rei. Dois exercícios de desportivismo que só engrandecem o Manchester United e o Real Madrid.  Dois exemplos a seguir.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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