Opinião
Do Mineirão para o Itaquerão
2018-10-12 15:00:00
Luís Catarino é comentador da SportTV e escreve no Bancada às sextas-feiras

Estamos a meio da final da Copa do Brasil, a prova que oferece ao seu vencedor o maior valor monetário na América do Sul – 50M de reais = cerca de €11M, mais até do que a Libertadores. O Cruzeiro recebeu o Corinthians na primeira mão, no Mineirão, em Belo Horizonte, e Thiago Neves marcou, mesmo antes do intervalo, o golo que atribui vantagem aos azuis. Significa isto que, na próxima semana, em São Paulo, o Corinthians está obrigado a colocar a bola na baliza de Fábio.

Mano Menezes teve o seu primeiro grande êxito no futebol brasileiro quando, em 2004, levou os gaúchos do 15 de novembro às semi-finais da Copa. E desde aí nunca teve problemas em reconhecer que tem o seu quê de defensivista. Na madrugada de quarta para quinta (hora portuguesa), o treinador cruzeirense operou uma mudança no alinhamento titular provável. Mas resultou bem. Em vez de jogar com Lucas Silva como médio-transportador, apostou em Ariel Cabral para aumentar a combatividade do eixo do meio-campo ao lado do capitão Henrique. Ainda que se tivesse comprovado que o Corinthians ia jogar na retranca e contra-ataque, à semelhança da primeira mão da semi-final no Maracanã contra o Flamengo, ao Cruzeiro também competia manter a equipa capaz de interromper as ligações apoiadas do Timão. O Corinthians joga sem ponta de lança, mas com muitos “baixinhos” a trocar as voltas nos três quartos do campo.

Ou seja, a Raposa ia atacar e, nesse aspeto, Lucas Silva até seria bem mais adequado para aumentar a definição das combinações perto de Robinho, Thiago Neves, Barcos e Rafinha na aproximação à baliza de Cássio. Mas também era importante ter alguém, como Cabral, que fechasse a porta aos atacantes da equipa de Jair Ventura.

O Corinthians joga sem um ponta de lança. Não tem um Hernán Barcos como tem Mano no Cruzeiro. Isso acontece porque Jô, artilheiro do Timão no ano passado em que foram campeões com Carille, deixou o emblema do Parque São Jorge rumo ao Japão. Rodriguinho foi para o Egito e Roger, que poderia ser esse ‘9’, está impossibilitado de atuar na Copa, por já o ter feito pelo Inter. Por esse motivo, Jair Ventura, filho do lendário extremo Jairzinho, herdou o lugar de Osmar Loss há pouco tempo e nem dez jogos somou como técnico do Corinthians. Jair tem apostado na cristalização do 4-2-4, sem ponta de lança. Mateus Vital e Jadson são as duas unidades mais centradas no ataque, ainda que o ex-Vasco, geração 98, venha defender mais atrás, perto dos outros dois médios-centro - Douglas, centrocampista canhoto com mais rotura (pós-Maycon), estava castigado para o jogo da primeira mão. Mas tanto Mateus como Jadson se misturam muito na zona ofensiva, contando que Clayson e Romero também o fazem. Torna-se um ataque com muitas deambulações, que Mano Menezes respeitou, ao ponto de ter aumentado a cobertura à frente de Leo Santos e Henrique.

Mano Menezes tinha o seu chefe na defesa, Dedé, imperial no jogo de cabeça. Mas não tinha o seu melhor atacante disponível. De Arrascaeta, que costuma ser o extremo-esquerdo, viajou com a Seleção uruguaia (dois particulares na Ásia) e, por causa dessa colisão com as datas FIFA, não pôde jogar a primeira mão da final da Copa e nem é certo que possa atuar no Itaquerão. Mano reza, agora, pela compreensão de Tabárez.

Sem De Arrascaeta, o veloz Rafinha (35 anos!) encostou na faixa esquerda, à frente de outro acelerador (Egídio), enquanto Robinho, com perfil de jogo mais pausado, fugia da direita para o meio para se aproximar de Thiago Neves. Cabral também poderia forçar alguns desajustes no posicionamento de Ralf, o trinco do Timão, mas a permanência de Robinho e de Thiago Neves no centro da zona ofensiva foi determinante para convidar Edilson a avançar pela faixa direita e a criar confusão em Clayson.

Nem Cruzeiro nem Corinthians serão campeões nesta época, mas, para além do prémio monetário elevadíssimo, sabem que o triunfo na Copa do Brasil oferece lugar garantido na Libertadores 2019, razão que os levou a dar prioridade a esta prova, mais do que ao campeonato. No caso do Cruzeiro foi ainda mais flagrante, pois alcançaram os quartos-de-final da Libertadores, tendo sido eliminados pelo Boca Juniors. E até no dérbi de BH contra o Atlético, para o campeonato, jogaram com habituais suplentes.

Apesar de só ter marcado três golos até agora, Barcos tem sido o avançado preferido por Mano Menezes. Fred esteve seis meses parado, Sóbis é mais utilizado como segundo-avançado e Sassá apanhou uma suspensão valente depois do soco a Mayke, do Palmeiras. Não é a conjuntura mais perfeita para o treinador, mas ele tem aprendido a otimizar com o pouco que tem e sobretudo a vincar um tipo de jogo bem calculado, a ponto de há alguns anos ter sido chamado para a Canarinha.

Foi assim que, com Chicão, Elias, Jorge Henrique e o Ronaldo Fenómeno, que ganhou a Copa de 2009 pelo Timão contra o Inter e não deixa de ser o responsável pela injeção de DNA de marcação na equipa do Corinthians, estilo "europeízado" que depois faria furor com Tite e Carille. Mano teve esse mérito de fundar um tipo de jogo gregário e reativo que ajudou o Corinthians a subir à Serie A brasileira até ao título de campeão mundial com Tite, em 2012, contra o Chelsea de Rafa Benítez. Já Cristóvão Borges e Oswaldo Oliveira tentaram sair dessa tendência, para desenvolver um futebol mais vistoso, e não se deram bem no Timão.

Agora, para o desfecho desta Copa do Brasil 2018, Mano está do lado do Cruzeiro, exatamente contra o Corinthians. Terá Jair Ventura algum truque na manga ultrapassar o emblema penta-estrelado? É provável que não faça as coisas de forma muito diferente, mas convém que não haja falhas na zona defensiva como houve no golo de Thiago Neves, em que Clayson ficou a pensar na morte da bezerra.

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