Prolongamento
David Caiado: do Sporting de Paulo Bento aos conflitos na Crimeia
Luís Santos Castelo
2018-05-15 22:00:00
O Bancada esteve à conversa com o extremo português que nasceu no Luxemburgo

Em 2005/06, numa equipa de juniores que tinha nomes como Rui Patrício, Daniel Carriço ou Fábio Paim, havia uma estrela a surgir na Academia Sporting. David Caiado, então com 18 anos brilhou tanto nas camadas jovens que foi, ainda nessa época, utilizado no conjunto principal dos leões. Hoje, o extremo tem 31 anos e representa os romenos do Gaz Metan, mas já também passou por Polónia, Chipre, Bulgária, Ucrânia e Espanha, tendo várias histórias para contar – incluindo contacto direto com os conflitos na Crimeia em 2014. “Tudo o que vivi na minha carreira, vivi-o com a maior intensidade possível. Todo o meu percurso foi feito sem arrependimentos e todos os países por onde passei foram uma experiência fantástica, mesmo com alguns percalços. Fiz e estou a fazer uma carreira bastante recheada a nível pessoal”, assegurou David Caiado ao Bancada.

O jogador nasceu no Luxemburgo em 1987. Rapidamente veio para Portugal e acabou por ir para o Sporting no início da adolescência. Em Alcochete, ganhou vários títulos nacionais nas camadas jovens e partilhou o balneário com muitos craques, mas foi mesmo David Caiado o escolhido de Paulo Bento para se estrear na formação principal. Aconteceu a 7 de janeiro de 2006, quando o Sporting perdeu em Braga por 3-2 e David Caiado foi lançado aos 82' no lugar de Rodrigo Tello. “Passei oito anos no Sporting. Foram oito anos de muita aprendizagem tanto a nível futebolístico como humano. Foi uma escola de vida fantástica. A partir dos 16/17 anos, comecei a destacar-me mais e comecei a criar expetativas na minha cabeça. Consegui estrear-me na equipa principal do Sporting com 18 anos, pela mão do Paulo Bento, que gostava muito de mim e deu-me a oportunidade de estar com a equipa principal. Foi o cumprir de muitos anos de trabalho e sacrifício”, referiu Caiado, que assinou contrato profissional com os leões com apenas 17 anos.

No entanto, é estranho que essa tenha sido a primeira e última vez que David Caiado vestiu a camisola do Sporting na condição de sénior. Ao Bancada, o próprio jogador explicou que, no ano em que deixou de ser júnior, foi convocado para o Europeu de sub-19, torneio que coincidia com a pré-época verde e branca. Esse fator acabou por ser decisivo para que Caiado perdesse o comboio na equipa de Paulo Bento e fosse emprestado ao Estoril Praia, que na altura disputava a Segunda Liga. Não era titular, mas jogava com regularidade e esteve perto de regressar a Alvalade em janeiro, mas voltou a ser traído por um azar e não recuperou a tempo da lesão que contraiu. Renovou o empréstimo ao Estoril Praia, mas volta a lesionar-se, desta vez com muita gravidade, e perde praticamente toda a temporada. No final de 2007/08, após dois empréstimos ao Estoril Praia que não correram como esperado para nenhuma das partes e com o contrato que o ligava ao clube verde e branco a terminar, David Caiado sentou-se à mesa com Paulo Bento e Pedro Barbosa, diretor desportivo do Sporting na altura, e a conclusão foi que o melhor era a saída. Foi aí que surgiu o interesse do Trofense, clube que tinha acabado de subir à Primeira Liga. “Foi uma sorte no meio do azar”, admitiu.

David Caiado (esquerda) com a camisola do Trofense na Primeira Liga (João Abreu Miranda/Lusa)

Ida para o estrangeiro e os conflitos na Crimeia

Contudo, o Trofense acabou por descer de divisão e David Caiado saiu, estreando-se fora de Portugal. Reforçou os polacos do Zaglebie Lubin no verão de 2009, passando a primeira metade da temporada na Liga da Polónia. “A primeira experiência no estrangeiro, no início, estava a correr muito bem. Tínhamos um treinador alemão e eu falava alemão, o que foi bom. Encontrámos um ambiente muito mais frio. Tinha o Fernando Dinis, outro português, e apoiávamo-nos mutuamente. Consegui passar lá seis meses, mas entrou um treinador polaco que afastou os estrangeiros”, explicou. Voltou ao Trofense em janeiro, terminando a época a disputar a Segunda Liga Portuguesa.

Voltou a deixar Portugal no final da época, em 2010. Assinou um contrato de dois anos com o Olympiakos Nicósia, uma equipa do Chipre onde tinha muitos portugueses como colegas. Apesar de ser “um país fantástico para viver”, David Caiado ficou algo desapontado com o futebol que encontrou. “A nível futebolístico, não é o profissionalismo que estás à espera com 23, 24 anos. Fiquei um ano e meio porque em dezembro surgiu o interesse de uma equipa da Bulgária e compraram o meu passe”. Essa equipa da Bulgária foi o Beroe, que, na altura, era orientada por Iliev, antigo jogador de Benfica, Marítimo e SC Salgueiros que falava português. Ainda assim, “o primeiro impacto foi bastante negativo” por culpa da neve e da “cidade feia”. Mas, aos poucos, David Caiado adaptou-se e teve uma experiência de sucesso. “Fui o melhor marcador da equipa num clube bastante simpático. Surgiu o interesse de várias equipas, eles não me facilitaram a saída e fiquei mais um ano e meio.” Depois, no mercado de inverno de 2013/14, assinou pelo Tavriya, da Ucrânia, o que acabou por revelar-se uma verdadeira (e perigosa) aventura por questões… políticas. Foi precisamente quando David Caiado representava um clube da Crimeia que rebentaram os conflitos armados na região entre a Ucrânia e a Rússia.

“Havia alguma instabilidade política, na altura, na Ucrânia, muitos conflitos em Kiev. Nós estávamos na Crimeia. Entretanto, começaram os confrontos na Crimeia e [recebemos] informações de que a Rússia queria anexar essa parte ao seu país. Entretanto, a Rússia consegue inventar uma votação em que 99% do povo vota a favor da junção da Crimeia à Rússia. Num dia era Ucrânia, noutro era Rússia. A partir dessa altura, o clube deixou de poder competir na Liga Ucraniana”, disse, contando de seguida um episódio que não mais esqueceu e que até causou algum medo à família.

“Estava com o Nuno Pinto, que está no [Vitória de] Setúbal, e passávamos na cidade e víamos tanques na rua. Um dia, a seguir a um jogo treino que nem acabou porque houve confrontos, estava no quarto com o Nuno e disseram-nos que tínhamos de sair rapidamente para ficarmos a salvo. Demorámos três, quatro horas a sair da zona de perigo e os familiares estavam preocupados. Ficámos com uma sensação de medo, de fragilidade. Acabou por correr tudo bem.”

Regresso a Portugal e passado recente

O único caminho, depois disto, era a saída do Tavriya e David Caiado escolheu regressar a Portugal em 2014. Foi contratado pelo Vitória de Guimarães e foi aposta pessoal de Rui Vitória, mas não jogou tanto como queria. Teve uma lesão que o condicionou e chegou a ser utilizado na equipa B. Em janeiro recebeu uma proposta para voltar à Ucrânia, mas para um clube de topo no país: o Metalist Kharkiv. “Encontrei um clube enorme. A par do Sporting, foi o maior clube em que joguei. Jogadores bastante bons, sete campos de treinos, um estádio fantástico. Encontrei, a nível financeiro, uma realidade para o qual não fui advertido, com os jogadores há alguns meses sem receber. Acabou por condicionar a minha ida para lá, mas foram quatro meses positivos em que joguei os jogos todos. As pessoas ficaram com carinho por mim.”

Os salários em atraso colocaram em causa a continuação no clube. Na pré-época 2015/16, David Caiado regressou ao clube, mas rescindiu unilateralmente com justa causa por não ter recebido qualquer cêntimo nos três meses anteriores. Viajou para Espanha e assinou pelo Ponferradina, que jogava na Segunda Liga do país vizinho, mas só começou a competir três semanas mais tarde devido às complicações com os ucranianos. Ainda assim, pegou logo de estaca e começou a jogar cada vez mais. A importância no clube foi crescendo e passou a integrar o lote de capitães de equipa, mas o clube desceu ao terceiro escalão em Espanha e Caiado sentiu que precisava de um desafio maior. Assim sendo, trocou o Ponferradina pelo Gaz Metan, da Liga da Roménia, no último mercado de inverno, partilhando o balneário com os portugueses João Diogo, Diogo Rosado e Edinho Júnior. A experiência, diz, tem sido bastante positiva, com o futuro a estar completamente em aberto.

“Vim para o Gaz Metan, um clube que está na luta pela permanência, mas que é cumpridor. Tem sido um bocado difícil estar muito longe da família, mas a nível desportivo tem sido positivo. Estive aleijado em alguns jogos, mas tenho jogado agora. Faltam cinco jornadas para o final e penso que vamos realizar o objetivo da permanência. Houve conversações com o presidente para a renovação por dois anos. No entanto, estou num período de reflexão e aberto ao que possa surgir”, frisou, não negando, de forma alguma, um regresso a Portugal. “Pode surgir, sim. Tanto Portugal como Espanha. O fator familiar pesa muito, assim como o facto da minha namorada ser espanhola.”

Há praticamente dez anos no estrangeiro (com uma pequena interrupção de seis meses em Guimarães), David Caiado já leva sete países diferentes no currículo de futebolista. Com conhecimento de causa, garante que “o jogador português é visto como um jogador de qualidade e um jogador profissional que se adapta bastante às condições do país onde joga”, o que leva, muitas vezes, a que os treinadores prefiram lusitanos em detrimento de atletas de outras nacionalidades. David Caiado, produto da famosa escola do Sporting, é um dos muitos exemplos pelo mundo fora.

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