Opinião
Coutinho e a derradeira ilusão
Luís Catarino
2018-01-12 15:20:00

Com o regresso à Catalunha, Coutinho protagoniza a transferência mais acesa de janeiro. O que levou o Barça a efetuar já a compra? Haverá pontos de contacto com a chegada de Ronaldinho Gaúcho, em 2003? Onde se enquadram Iniesta e Messi neste processo? Do carioca, espera-se o mais extraordinário na arte da derradeira ilusão.

O Barça esmerou-se. O campeonato está no bolso, mas houve cuidados a tomar por parte dos catalães, não só para evitar uma quebra de rendimento na segunda volta, mas também para preparar um dos maiores desafios históricos do emblema culé: a herança de Andrés Iniesta na zona média do campo. Por outro lado, pode ter havido um propósito para espalhar o investimento pelas duas janelas de transferências, porventura antevendo o ataque a Antoine Griezmann, em julho, por €100M.

Deste modo, a direção de Bartomeu encontrou mais do que uma razão para se antecipar ao PSG na aquisição de Philippe Coutinho que, assim, regressa à Catalunha, depois da sua primeira etapa, no Espanyol, em 2011/12, emprestado pelo Inter. A verdade é que não seria de excluir a hipótese de Nasser Al-Khelaifi fazer um ‘forcing’ alucinante para levar o carioca de Merseyside para a capital francesa para convencer o amigo Neymar a ficar no Hexágono e a nem olhar para possíveis convites que houvesse da Castellana no final da presente temporada. Com tudo o que tem acontecido em 2017/18, paira no ar a possibilidade de uma revolução de Florentino para levantar o Real Madrid em 18/19, de modo a que os brancos não se sujeitem a uma nova anemia. E o Barcelona preveniu-se para esse cenário hipotético.

Ainda que esteja impedido de participar pelos ‘blaugranas’ nas eliminatórias da Liga dos Campeões (não vai, portanto, defrontar o Chelsea), Coutinho aterrou no El Prat como uma das maiores contratações de sempre. O valor monetário rebenta a escala, mas a ideia da contratação, em si, é que pode suscitar mais interesse, lembrando o acréscimo de criatividade associado à ida de Ronaldinho Gaúcho para a Catalunha, em 2003.

As conjunturas são diferentes, sim. Quando Ronaldinho, que nem era a primeira escolha de Laporta (era Beckham, entretanto desviado para o Real), assinou pelo Barça em 2003, foi no seguimento de uma época em que os catalães ficaram em 6.º lugar, 22 pontos atrás dos Galáticos.

Laporta ganhou as eleições a Rosell, mas este, mesmo tendo perdido a corrida eleitoral, foi decisivo na aquisição de ‘Dinho’ pela proximidade que tinha com o gaúcho dos tempos em que tinha sido diretor da Nike no Brasil. Rosell foi uma importante muleta para Laporta na compra de um craque que estava a ser seduzido pelo Manchester United, pois Ferguson tinha estado poucas horas antes em Paris reunido com os irmãos Ronaldinho e Roberto Assis para os convencer que Old Trafford era o caminho ideal para o ex-Grémio. Nada feito: Ronaldinho trocou Paris por Barcelona (na mesma altura em que também Quaresma foi para a ‘ciudad condal’) e os Red Devils, descalços com a nega de Ronaldinho, decidiram investir em… Cristiano.

É indesmentível que naquela altura seria mais urgente devolver o orgulho aos culés porque quebrar a hegemonia dos brancos era um desafio titânico. Ronaldinho era a grande bandeira da Catalunha. Soriano e Beguiristain, hoje elementos-chave no Manchester City, com Guardiola, operacionalizaram um modelo diretivo tão bem estruturado no Barcelona que o trabalho de campo de Rijkaard foi a cereja no topo do bolo. Deco juntar-se-ia mais tarde e Messi só estava a dar os primeiros passos. Mas a ideia-base da compra de Ronaldinho era idêntica à da opção atual por Coutinho: pôr a Catalunha a sorrir, com mais traços de fantasia no jogo geral e maior definição da linha atacante. Nesta época, a saída de Neymar acelerou essa necessidade relativa.

Philippe Coutinho, crescido no Vasco da Gama, é o maior craque carioca do Barça depois de Romário. E espera-se, naturalmente, que tenha muito mais êxito do que Roberto Dinamite, a maior figura da história vascaína, mas cuja passagem pelo Barça foi fugaz.

E se é garantido que o Barça de Valverde ganhou uma consistência distinta no rigor com que efetuam as zonas de cobertura e de pressão, amparando igualmente bem o jogo irrepreensível do seu ‘10’, agora a equipa ficará mais apta para desenvolver um jogo total, mais estarrecedor. Pontos de interrogação legítimos iram ser colocados face à eventual saída de cena de Don Andrés, mas, mesmo reconhecendo que há gente insubstituível, Coutinho será uma das melhores soluções que o Barça poderia apresentar para uma sucessão exigente do camisola 8 que vai ter de acontecer, mais dia, menos dia.

Para já, Coutinho, que, em tempos, foi pretendido pelo Southampton, pois Pochettino conhecia-o do Espanyol e quis levá-lo para os Saints, vai estar bem encaminhado para fazer parte de uma equipa campeã, que ainda não aconteceu em futebol de primeira divisão. Esteve quase a vencer a Premier League pelo Liverpool, de Rodgers, em 2014, na equipa dos três S’s onde também coexistia com Luis Suárez (Sterling e Sturridge eram os outros do ataque). No entanto, a escorregadela do capitão Gerrard na receção ao Chelsea, de Mourinho, deitou tudo a perder, colocando Demba Ba na cara do golo e o Manchester City, de Pellegrini, no caminho para o título.

Cultivar o vício pelos troféus é importante, mas a nota de maior relevo é a possibilidade de juntar mais um ilusionista a Messi. Rakitic dizia, na véspera do clássico com o Real no Bernabéu, que à equipa do Barça só faltava um pouco de ‘show’. E Coutinho, atuando no meio, sobre a esquerda ou sobre a direita, é o tal que preenche o "vazio" enunciado pelo croata, por ser capaz de fazer aquele drible, aquela receção, aquela ‘rabona’, aquele último passe, delinear aquela tabela supersónica com Messi ou desferir aquele remate em curva.

Tanto ele, como Messi, estão à altura para assinar o truque final da exibição, o mais difícil, como descrevia Michael Caine em “The Prestige”. Esconder a bola já não é para todos. Fazê-la aparecer novamente, com vida, é que só está ao alcance dos grandes Houdinis. Parece tão simples, mas as pessoas só querem ser surpreendidas. E Coutinho é um dos que nos pode fazer a vontade na derradeira ilusão.

Luís Catarino é comentador da Sporttv e escreve no Bancada às sextas-feiras.

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