Opinião
Construir o futuro em Gelsenkirchen
Mauro
2018-09-19 14:00:00
Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

O nome não é propriamente melodioso, mas as boas memórias fazem com que saia com facilidade da boca de qualquer adepto portista. Gelsenkirchen, cidade mineira da Alemanha, apresentou ao Porto uma equipa cinzenta, áspera como o carvão que a fez crescer durante a Revolução Industrial.

O Schalke 04 faz por se impor fisicamente, baixa as linhas e tenta atacar de forma direta a baliza adversária, mas não é nada seguro que essa forma de encarar o jogo possa ser uma garantia de sucesso. Para já, na Liga da Alemanha, soma três derrotas em três jornadas. Frente ao FC Porto andou perto de ganhar (mais pela marcha do marcador do que pelos apontamentos exibicionais), mas só se livrou de uma derrota por manifestas falhas de finalização e algum défice de ambição da equipa portuguesa, que a determinada altura apostou claramente no equilíbrio defensivo e na conquista de um importante ponto.

O que primeiro se destacou no desempenho portista foi a forma como a equipa de Sérgio Conceição assegurou o bloqueio ofensivo dos alemães, desde logo devido à ação de Marega e Aboubakar, uma dupla que dedicou uma parte importante do esforço despendido no jogo a tarefas defensivas. Os dois avançados ajudaram a criar uma barreira que impediu o argelino Bentaleb de assumir funções mais efetivas na primeira fase de construção. Assegurada essa parte inicial da missão em Gelsenkirchen, pedia-se depois ao FC Porto que tornasse o jogo menos dividido, mas nesse aspeto Marega e Aboubakar estiveram bem menos eficientes. Os dragões continuam a ter questões a resolver na zona de finalização e neste jogo até falharam uma grande penalidade (no entanto, é obrigatório sublinhar a grande defesa de Färhmann, apesar de não haver grande brilhantismo na forma como Alex Telles executou o remate da marca dos 11 metros).

Foi também neste jogo que Sérgio Conceição promoveu o regresso de Danilo Pereira à titularidade (ao mais alto nível) no FC Porto. Ao conforto simbólico que a decisão terá causado juntou-se a prova de que o médio internacional português está completamente recuperado. Mesmo assim, a dupla Herrera/Sérgio Oliveira talvez tivesse feito mais sentido em determinados momentos do jogo, em que se tornava essencial a exploração de novos caminhos para a baliza alemã. O mexicano, que continua num exuberante momento de forma, ficou ligado ao golo do Schalke 04, num lance que começa com um erro de Herrera, prossegue com uma má abordagem da defesa portista e termina com um excelente passe de McKennie para a finalização de Embolo.

Foi um jogo mais lutado do que bem disputado, com uma boa entrada do FC Porto e uma reação não menos assinalável ao golo sofrido, mas quando se somam todas as partes desta estreia é possível chegar à ideia final de que, mais do que ganhar, os dragões quiseram muito não perder em Gelsenkirchen. E mantiveram esse plano bem vivo depois do golo do empate e após as entradas do médio russo Konoplyanka e do avançado austríaco Burgstaller, que deram lastro à tentativa de regresso à vantagem da equipa de Domenico Tedesco (um jovem treinador alemão, que é alguns meses mais novo que Cristiano Ronaldo).

São várias as formas de olhar para o resultado que o FC Porto conseguiu na Alemanha. Por um lado, este foi o segundo empate consecutivo da equipa azul e branca (que soma uma derrota, dois empates e apenas uma vitória nos últimos quatro encontros), mas para se ver o copo meio cheio basta lembrar que a estreia do FC Porto na época passada foi uma derrota no Dragão, com o Besiktas. Para além disso, num confronto fora de casa frente ao vice-campeão alemão da época passada, os portistas perderam com o RB Leipzig. Salvaguardadas as diferenças entre os adversários, o resultado acaba por ser muito interessante para os portistas, num grupo sem favoritismos e em que o fator casa poderá ter um papel fundamental nos apuramentos. Este é um empate que ajuda o campeão português a construir o futuro na principal competição europeia.

P.S. - Sérgio Conceição já terá percebido que Éder Militão é um reforço capaz de assegurar qualidade no centro da defesa a um nível de Liga dos Campeões. Apesar de ser destro, surge à esquerda sem sobressaltos, é bom na antecipação, tem critério no passe e começa a formar uma sociedade muito eficaz com Felipe. 

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.