Opinião
Chegados aos "oitavos"
Mauro
2018-06-29 14:00:00

Mehdi Taremi. Já ninguém se lembra dele, mas a verdade é que esteve muito próximo de se tornar um dos mais agonizantes carrascos da história do futebol português. Se não estão a ver quem é, eu recordo: foi o autor do último remate do Irão no jogo em Saransk. Saiu ligeiramente ao lado e, caso tivesse havido mais pontaria, teria dado acesso aos oitavos-de-final para os persas com a consequente eliminação de Portugal.

O falhanço de Taremi foi festejado por Fernando Santos e o mais importante foi conseguido: a Seleção passou às eliminatórias e vai defrontar amanhã o Uruguai. Após dois jogos sofríveis contra Egito e Arábia Saudita, Tabárez montou um losango no meio-campo contra a Rússia e essa fórmula foi bem conseguida, independentemente de Smolnikov ter sido visto o vermelho demasiado cedo e de isso ter facilitado. Bentancur não tem de correr tanto a defender como aconteceria no módulo anterior do meio-campo em linha, ficando agora mais perto da zona ofensiva de último passe, devidamente respaldado por Torreira, a formiguinha do meio-campo celeste que garante ligação na cobertura e na projeção atacante que também contempla as roturas de Vecino na aproximação à grande área adversária e a largura de Nández na faixa direita, contando que Cáceres possa defender esse flanco com o mais rotativo Laxalt a entrar pela ala esquerda.

O Uruguai é das melhores seleções mundiais no aproveitamento de pontapés de canto e livres laterais, pelo que deve haver uma atenção redobrada da equipa de FS para não cometer faltas desnecessárias na zona defensiva. Enquanto Guedes (rotura, sprint, cobertura a Torreira) e Bernardo (criação de jogo no espaço descoberto do Uruguai ao lado de Vecino e à frente de Laxalt) podem ter mais contexto neste jogo, apostava na manutenção de William e Adrien, com Moutinho a poder entrar na segunda parte para dominar, até no cenário de aguentar no prolongamento.

Apesar do monte de críticas generalizadas (mais embirrentas do que fundamentadas) em relação a William, FS é dos primeiros a admirar a sua valia a assumir a zona de construção. Aí, estou com Santos. William foi limitado contra o Irão por via da marcação pegajosa de Sardar Azmoun? Foi, como já foram Pirlo e Busquets em situações do género, não sendo precisa grande ciência para perceber que não dá para entrar muito no jogo nessas circunstâncias. E é nessa altura que a equipa, mais do que o jogador em questão, tem de criar escapatórias para que a equipa consiga pegar no jogo. Isso não aconteceu em grande parte do jogo, primeiramente pelo facto de Pepe e Fonte estarem mais encravados na saída de bola. Por outro lado, também se constatou o pormenor de Guerreiro e Cedric estarem mais focados em centrar o posicionamento em campo para que João Mário e Quaresma pudessem alargar o espaço de receção junto da linha lateral, ao mesmo tempo que protegiam o eixo no adiantamento de Adrien (vide tabela com Quaresma no golo da trivela). Ou seja, se Guerreiro e Cedric não alargavam a receção junto da linha lateral, William tinha logo menos uma ou duas opções mais prontas para libertar a bola.

De qualquer forma, nem Bentancur ou outro uruguaio vão fazer a William aquilo que fez Azmoun. O contributo defensivo de Cavani será sobretudo visível a fechar do lado esquerdo uruguaio. O que vai acontecer é que o centrocampista da Juventus vai andar lá perto no mesmo raio de ação e será dessa forma que irá contribuir defensivamente para o conjunto de Tabárez, sem grandes correrias, mas a defender posicionalmente à sua maneira, para não dar demasiada folga aos médios-centro portugueses. E claro que não haverá marcação individual em William, pelo que este até pode vir a ter um jogo mais participativo e elaborar como sabe, com serenidade e qualidade na entrega para desobstruir.

Luís Catarino é comentador da Sporttv e escreve no Bancada às sextas-feiras.